O Metrô e a Praça

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Andréa Albuquerque G. Redondo
No dia de estreia do URBE CARIOCAa imprensa noticiou que o início das obras da Linha 4 do Metrô será daqui a dois meses, referindo-se ao canteiro de obras da futura Estação Gávea, cujo modelo possibilitará ou impedirá novas interligações.
Preocupações com estacionamentos provisórios e o trânsito local, transtornos inevitáveis, não devem desviar a atenção do aspecto mais importante decidido pelo Governo Estadual unilateralmente: a modificação do traçado projetado em rede, o conjunto de linhas cruzadas que, neste caso, previa a ligação Centro-Barra a partir da Estação Carioca via Humaitá, Jardim Botânico e Gávea.
O que o Governo insiste em chamar de Linha 4 nada mais é do que o prolongamento da saturadíssima Linha 1, o traço contínuo e solitário com cerca de 40km que contorna cidade pela orla da Zona Sul, começa entre Ipanema e Copacabana e termina na estação Pavuna, final da Linha 2. As manifestações contrárias a mais uma “esticada” nos trilhos – ou fora deles? -foram várias: artigos em jornais de grande circulação (ex. Na Trilha do Futuro, OG 07/11/2011), a opinião do Clube de Engenharia, apelos de moradores e políticos em audiências públicas, abaixo-assinados em favor do projeto original, o movimento de bairros O Metrô Que o Rio Precisa, inúmeros depoimentos de usuários insatisfeitos, e aspectos de natureza jurídico-administrativa constantemente apontados como questionáveis.
Proposta do movimento Metrô que o Rio Precisa  www.metroqueorioprecisa.com.br
”Nada vai mudar”: O Governo Estadual, insensível aos apelos, não apresentou estudos urbanísticos para justificar o abandono da solução original que atenderia mais bairros e pessoas, simplesmente com bifurcações e a consequente distribuição de linhas pela cidade. Por outro lado, o silêncio da Administração Municipal, única responsável pelas decisões relativas ao uso do solo na cidade, por determinação constitucional, só se explica pela mera cumplicidade política e submissão ao governo do Estado que jamais deveriam superar o interesse do Rio de Janeiro e de seus cidadãos.
Nada se ouve sobre as estações Morro S. João e Cruz Vermelha: esta, continuação da Linha 2 via Estácio-Carioca-Praça XV, esquecida; aquela, entre Botafogo e Cardeal Arcoverde, alternativa à interligação com a verdadeira Linha 4. Ambas contribuiriam para a formação da desejada rede de trilhos, hoje restrita a um pequeno ramo em direção à Tijuca.
Está longe dessas considerações qualquer intenção contrária à chegada do Metrô a Ipanema e Leblon, o que poderia confundir análises isentas que consideram o interesse geral da cidade em primeiro lugar e ser interpretado erroneamente como elitismo. Existe só a convicção de que a construção dessas estações – presentes nos estudos iniciais – deve ser adiada até que a Linha 4 Verdadeira e o prosseguimento da Linha 2 em direção às Barcas sejam prioridade.
Em meio à polêmica há a Praça Nossa Senhora da Paz. Coração do Sítio Cultural de Ipanema, espaço tradicional bem conservado e muito arborizado, a praça foi tombada definitivamente pelo Decreto nº 23161/2003. Embora o atual Chefe do Executivo tenha vetado projeto de lei que propunha a mesma salvaguarda, o tombamento está em vigor, assim como todas as Áreas de Proteção do Ambiente Cultural – APAC, entre elas a que protege o bairro. Portanto, qualquer intervenção dependerá da aprovação dos órgãos municipais responsáveis pela proteção do Patrimônio Cultural do Rio e, naturalmente, da chancela do Prefeito.
O assunto é vasto e repleto de nuances. A praça tombada será o menor empecilho caso o Estado mantenha o dito e a Prefeitura se omita: farão o Metrô de Uma Linha Só. Para reverter esse quadro há que aumentar o interesse pelo tema, o que só acontecerá se, com apoio ainda mais intenso da mídia, universidades, órgãos de classe, urbanistas e especialistas em transportes se unirem em defesa dos melhores trilhos.

                                             

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