UM OLHAR CARIOCA SOBRE FILIPÉIA

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CrôniCaRioca
por Ailton Mascarenhas
em 01 de setembro de 2012 



À direita, o HOTEL GLOBO

 
Do Rio de Janeiro, atrás de dois amores, mulher e filha, vim parar em João Pessoa, na Paraíba, matrona de 427 anos nascida no Rio Sanhauá, um dia nomeada Filipéia, coisa de portugueses e, acreditem, também Frederica, coisa de holandeses.

PONTO DE CEM RÉIS




Mosteiro de São Francisco

CENTRO HISTÓRICO






Este é o Centro Histórico tombado, tem cidade alta e baixa, muita coisa bonita. Só depois com o saneamento da área da Lagoa a cidade foi se esticando para o mar. Há ricas igrejas, prédios institucionais, o Hotel Globo, praças e outros espaços, o casario colorido.
 
  
 
LAGOA – Parque Solon de Lucena
É um refrão conhecido, tudo em João Pessoa começa com “a cidade mais oriental das Américas”. Lembram-se do ensino primário, “A ponta do Seixas”? Tinha também o Arroio Chuí, no Sul do Brasil, no Rio Grande…






PONTA SEIXAS
Farol do Cabo Branco


Aqui o sol nasce primeiro.

Tem um farol de base triangular muito famoso e com vista belíssima para o mar. Tem também água de côco gelada.

 
 
Por perto as falésias estão se desintegrando, pouco a pouco, rumo ao mar. A Natureza, em todo lugar que vou, tem encantos e manias de mulher, vive mudando sua aparência, a erosão, ou tendo aquelas quenturas, o efeito estufa…

Um vento constante – minha filha me fala quando reclamo disso, pai, tira o vento para você ver! -, a areia belisca a pele, enche os olhos, a calçada e a rua, – mas graças! -, ameniza a temperatura, que o sol é de rachar. Aqui também chove e para de repente, como nas cantigas das quadrilhas das festas Juninas: “…olha a chuva…”, a gente vai,”… é mentira…”, a gente volta.
 

 
PRAIA DO BESSA

O povo não curte as praias como no Rio de Janeiro, onde nasci. Não tem a rapaziada, nem a simpatia e cultura de um dos melhores programas do Rio: “Vamos a praia?” A água é verde-marrom, às vezes verde cristalina, um espetáculo!


Intermares, Bessa, Manaíra, Tambaú, Cabo Branco, uma praia após a outra, é um horizonte só. Não tem ilhas ou montanhas para barrar a vista, mas tem a vegetação das areias, protegidas, muitos coqueiros e amendoeiras.

 
 Praia do Cabo Branco – João Pessoa, Paraíba
Praia.tv.br
 
Em Tambaú a via de trânsito dos carros não é larga; há uma ciclovia margeando; entre a vegetação e o calçadão há quiosques agrupados, três ou quatro a cada 300 metros, perfeitos oásis. Mas não há uniformidade no tratamento urbanístico da orla, que não está terminado.
  
 

Quiosques estão proibidos em outras praias. Não deveria: onde há muita gente tem que haver os serviços de apoio, nem que sejam os ambulantes da areia; no Rio havia e ainda tem alguns com produtos imbatíveis.

 
 
“Olha o mate, natural ou limão?”, lembro-me, ou os biscoitos de polvilho “Olha o Globo, salgado ou doce?”. No calçadão o carrinho de cachorro quente “Geneal”… Posso dizer, marcas registradas cariocas, não reconheci por aqui algo do gênero, talvez o coco verde.
 


PRAIA CABO BRANCO – Vista

Saindo dessas em direção a de Cabo Branco, subimos a rampa, como na av. Niemeyer aí no Rio, e nestas paragens encontramos a Ponta do Seixas, o tal ponto mais oriental das Américas. É um planalto: do centro cultural, projeto do centenário Niemeyer tem-se uma vista linda para as praias que já falei aí em cima, sentiram a semelhança? Algo como ir do Leblon à Barra em tempos idos.




Estação Ciência – Projeto de Oscar Niemeyer

Estação Ciência – Cabo Branco – João Pessoa
Praia.tv.br


Continuando para o sul, em uma hora chegaremos às praias de Coqueirinho, com as falésias despencando em pequenos pedaços, bonitos, tons avermelhados e ocre.

Tem também uma praia de gente pelada, Tambabaque fica em uma área de proteção ambiental, lugar ainda bastante selvagem.

Há pouco tempo, num passeio, o carro atolou na areia. Atrás de ajuda, nosso amigo precisou correr durante meia hora. Só que para encontrar a tal ajuda teve que atravessar justo essa praia todinha. Não se fez de rogado! Tirou o calção e correu pela areia afora com tudo de fora. Calma, pessoal, ele voltou já vestido, trazendo uma pick-up 4×4, a salvação! Demos muitas risadas com a história inesperada.
 

PRAIA da TAMBABA
South Voyage

Mas, voltando à civilização…

 

Deram uma rasteira nos prédios da área litorânea: todos estão deitados, são baixos e compridos para compensar custos envolvidos; os técnicos dizem que é pra deixar o vento passar ou outros conceitos urbanos defeituosos.

Os prédios baixos, limitados a 12.50m de altura, ainda com bastante casas intercaladas, dão perfil simpático ao conjunto do litoral; no futuro talvez fique monótono, tudo na mesma altura. Deviam aproveitar esta ocupação natural. Prédios altos e baixos, alta e baixa densidades, e modificar alguma coisa no Plano da Cidade. Eu ia gostar.

 

Adentrando os bairros os prédios vão crescendo. A pouca distância do litoral chegam absurdamente a 30 andares ou mais, não sei pra quê: os mais baixos são coloridos, muita volumetria e totêmicos, ostentam elementos com verticalidade acentuada – casas de máquinas, caixa d’água e escadas -, as plantas dos apartamentos e a ventilação são mal resolvidas.

A especulação imobiliária campeia,  a área é reduzida, sem dependência de serviço. Querem fazer apartamentos tipo quitinete, como os da velha Copacabana Carioca, situação ruim já vivida por outras grandes cidades que querem repetir. E olha que a terra tem grandes nomes na arquitetura!

 



VISTA DO ALTIPLANO PARA PRAIAS
Cabo Branco, Tambaú

João Pessoa é uma das cidades mais verdes do Brasil. Há bastante  reservas florestais, mas no mapa as árvores estão relegadas a estes cantões.

Há descaso pelas calçadas:  descontínuas,  servem  de estacionamento, têm mato, buracos…  talvez por isso o povo não passeie a pé: como não tem arborização, e o passeio é desrespeitado, mal calçado, o sol poderia rachar cabeças: com os tropeções, rachariam duas vezes!

 


Dizem que aqui tem qualidade de vida devido ao clima.


Mas não se enganem! O clima é a gente que faz, aí tem clima! Encontrarão um lugar bom de morar, uma cidade em formação. Estarão miscigenando novos hábitos e culturas, modificando necessidades, alterando fatores de urbanidade e consumo, enriquecendo a vida!

Venham para cá!


Notas:
Ailton Mascarenhas é carioca, arquiteto, e mora em João Pessoa há dois anos.
As imagens são de Facebook João Pessoa.

  1. Adorei a crônica, Ailton
    Qualquer hora destas baixo por aí para rever esta encantadora cidade, onde não vou há uns 30 anos.
    Obrigada por ter me atualizado com suas palavras e com as fotos postadas
    Um grande abraço

  2. Adorei a visão de nosso amigo sobre sua nova cidade. Estive lá em fevereiro de 2011 e posso confirmar o que disse.Realmente uma "cidade em formação" – prédios coloridos, bonito de se ver e praias quase que virgens. Parabéns Ailton pelo artigo e parabéns Andréa pela iniciativa dessas postagens de autoria de "nossos" arquitetos.bjs

  3. Bravo, Ailton, bravíssimo.
    Rompeu a barreira do silêncio com seu grito de alerta táo Ailton quanto sempre foi. Parabéns pelas frases, quase cantadas, quase encantadas, do melhor e pior que sente por estas plagas. Forte abraço do Rio que se ressente com suas ausências

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