URBANILDO BARBOSA e CREMILDO de ALMEIDA – O PACOTE, Parte II

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CrôniCaRioca
por AAGR


Rio de Janeiro 40º. Barbosa volta ao calçadão.
Almeida no quiosque, jornal na mão. A areia ferve.

Barra da Tijuca
Blog Sobre o Ambiente. Imagem: Ricardo Kohn



BARBOSA – Salve, Cremildo, cheguei! Pronto para mais cinco minutos? Hoje é o caso do Parque na praia da Barra.


Peregrinacultural’s Weblog


ALMEIDA – Grande Barbosa! Ok, já acabei de ler o jornal. A coisa tá feia no Planalto, hein? O ‘cara’ disse que “não pode acreditar em mentiras”, onde já se viu? Frase mais besta! Virou as costas para o repórter, eu ‘nunca antes’ tinha visto. Mas, deixa prá lá… Vamos tratar do Rio. Bom, o Prefeito disse que vai fazer um parque na praia, onde já é APA. Mas aquele negócio de transferir potencial construtivo eu não entendi nada.




Barra da Tijuca
Skyscrapercity

BARBOSA – Não é difícil, não. Presta atenção. Imagina um sujeito que tem uns terrenos lá na Barra da Tijuca em 1950, 1960, na beira do mar e da lagoa… Estão quietinhos, não pode fazer nada neles, é Área de Reserva. Então não têm valor de mercado, certo? Ninguém quer comprar. Aí, pelos 1970 o governo aprova os estudos de um urbanista, o Lucio Costa.



Barra da Tijuca
Skyscrapercity

Ele diz que ali na Reserva pode construir bem pouquinho, só restaurante, clube, tudo pequeno, baixinho, só um andar. Hotel não pode. Os donos não fazem nada.





Logo depois da Rio-92 – aquela Conferência bacana que teve aqui prá defender o Meio Ambiente, aquelas coisas de Ecologia, o ‘Verde’, lembra? Fizeram a APA e o tal Zoneamento Ambiental que já expliquei prá você – protege as plantas, a vida silvestre… -, e detalharam mais o pouco que deixavam construir. Os donos também não fizeram nada, continuou tudo vazio.

Em 2005 os vereadores botaram “prá quebrar”: dobraram a área de construção, tripicaram o número de andares, deixaram fazer edifício com apartamento, escritório…, prá hotel, então, nem se fala! Ainda assim, nada aconteceu, ficou tudo igual.


APA MARAPENDI – Barra da Tijuca
Blog Intimem-se


Veio 2010 e o prefeito aumentou mais ainda o tamanho dos hotéis. De novo, nada aconteceu, Crê, pode crer tudo vazio. Bom, em 2011 ele resolveu fazer um parque nessa parte da APA perto do mar, ou, melhor, ‘dizer que ia fazer’. No decreto que ele fez para ‘criar’ o parque, um pedaço ficou de fora do mapa. Adivinha onde? Já sabe, né, onde vai ter um resort e dois prédios de luxo! Quem se deu bem foi o pessoal do Hyatt, aproveitou logo a chance.

O esquisito é que em 2011 não tinha hotel, o ‘parque’ podia ter ido até lá, não foi porque não quis! Continuava tudo vazio há meio século, mesmo com o Lucio Costa deixando usar a área da Reserva com 1 ‘andarzinho’ e casa-de-chá.


ALMEIDA – Ué, se quando ele anunciou o parque aquele canto estava sem construção, porque deixou o pedaço de fora?






BARBOSA – Sei lá! A essa altura acho que nem adianta saber! Tá lá marcado no cantinho do desenho. O pessoal andou se manifestando, reclamando, mas o prefeito nem ligou…


Bom, agora com o tal projeto de lei o negócio complicou um pouco. Lá atrás, antes da eleição, disse que ia ter parque, tudo lindo, bom para a cidade, esses papos. Logo depois é que veio a história do tal potencial.


É o seguinte: prá ser parque não vão mais poder fazer nem aquele pouquinho que o Lucio Costa deixou, muito menos que os vereadores canetaram em 2005. Mas o prefeito deve ter dito pros donos “não se preocupem, o que vocês não fizeram até hoje vão poder fazer em outro lugar, por lá mesmo, na Barra e em Jacarepaguá”.


ALMEIDA – Peraí, agora não entendi mesmo! Nesse ‘outro lugar’ deve ter lei, já pode fazer edifício, né? Como vão fazer mais? Tem aquela lei da física que a gente aprendeu no ginásio, “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo”.


BARBOSA – Ora, Cremildo, só tem um jeito: aumentar o tamanho dos prédios, o gabarito! Por exemplo, se o dono de um terreno onde vai ser parque podia fazer 3 andares, não vai poder fazer mais. Mas ele tem outro terreno no ‘outro lugar’ onde também pode ter 3 andares: ele pega os 3 que não fez lá na praia, ‘transfere’ para o ‘outro lugar’ e faz 6 no terreno novo. Entendeu agora?



Exemplo de Tranferência de Potencial Construtivo
Internet

ALMEIDA – Hummm…, quase. Vão fazer um em cima do outro, acho que os vizinhos não vão gostar! Mas, peraí, se os camaradas tiveram mais de 30 anos para fazer e não fizeram nada, perderam o bonde. E o prefeito vai mandar um bonde novinho só para eles? Enquanto isso Santa Teresa sofre!



Quem serão os afortunados? Pô, pena que não tenho um terreninho lá, também, com essa aposentadoria merreca do INSS que mal dá prá viver… como é que eu ia poder comprar terreno?


Tive uma ideia. Meu amigo tem um lote pertinho da torre do Rio-Sul. Lá em 1970 podia ter feito uma torre parecida e não fez. Hoje a lei não deixa mais ter torre ali. Então ele pode pedir para fazer agora a torre que ele não fez, em ‘outro lugar’? Pode ser em Botafogo mesmo, ele vai ficar satisfeitíssimo!

Ah! Lembra quando eu era rico, meu pai tinha uma pedreira? Há mais de 40 anos não pode ter pedreira no Rio, é proibido, será que o prefeito me deixa tirar pedra de outro lugar?



Imagem: Nós da Comunicação

BARBOSA – Ora, se ele deixar você tirar pedra por aí eu quero que compre minhas açõezinhas que não vendi na alta. Vou exigir!! Larga de ser bobo, Crê-muito, isso é benesse para meia dúzia, só aquele pessoal do jornalismo investigativo consegue descobrir de quem são os terrenos, quem comprou e quando comprou… Eles são bons de faro… e de pesquisa.





ALMEIDA – Mas, peraí, tenho outra dúvida. Se os donos não construíram nada até hoje, por que o prefeito acha que vão querer construir?


BARBOSA – Aí é que está! Essa tal área, o ‘potencial’, também pode ser vendida. Então o sujeito não fez nada e de repente nem vai ter trabalho, vende para alguém construir lá no tal ‘outro lugar’.


ALMEIDA – E como é que alguém vai vender o que não tem, Barbosa?

BARBOSA – Pois é, o cara vai ganhar um cupom da sorte já sorteado. Mais ou menos assim, ó, vou repetir:


   Trevo de 4 Folhas,
símbolo de sorte

Planta Sonya
“Ô sortudo, você não fez nada quando podia fazer 3 andares no seu terreno, mas, tudo bem. Toma aqui esse cupom. Se você tiver outro terreno com gabarito de 8, vai poder fazer 11. Se for hotel, vai poder fazer 13. Mas se não tiver nenhum terreno ou se não quiser fazer nada, tudo bem. Vende o cupom para quem quiser construir. Se não quiser vender agora deixa valorizar, deixa de herança para os seus filhos, faz o que bem entender”.




Sacou agora o que é o tal ‘potencial construtivo’? Está no ar, Almeida!


ALMEIDA – O amigo virou expert! Bem que se chama Urbanildo Barbosa! Será eles querem fazer mesmo esse parque ou é só uma invenção, pretexto para mercado imobiliário ganhar mais um mimo?


BARBOSA – Quem sabe, Cremildo? Vamos contar a história pro resto da turma e perguntar o que eles acham!


Copacabana
Internet

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