AI! QUE A MARINA DA GLÓRIA VOLTOU!

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Ou, Eike reapresenta Marina…

E, pior, Ai! Que o IPHAN pode aprovar…
Imagem: Alex Uchoa
E, quando menos se espera, eis que ela volta! Depois da reeleição, é claro!

É a Marina. Antes Da Glória, Do Rio. Agora Do Eike. O retorno foi tratado nos bastidores* que ninguém visita, lugar escondido, acessível apenas aos atores que lá ensaiam o que será mostrado ao público depois que a peça teatral está estudada, pronta, decidida.

O palco é o terreno, destinado à Marina, a protagonista. O cenário, um dos mais lindos do Rio: Baía de Guanabara, Pão de Açúcar, Parque do Flamengo… O figurino proposto – shopping, centro de convenções, e o que mais ainda não se sabe – descaracterizará o personagem principal. E o Parque.




Revista Piauí 09/01/2013





Analogias à parte, o primeiro projeto foi rebatido pela sociedade civil carioca quando veio à tona há quase uma década, e descartado oficialmente por ter sido rechaçada a construção de uma garagem de barcos sobre as águas da Baía, edifício alto que ficaria em frente ao antigo prédio da Varig, local de onde se tem uma das mais belas vistas do Rio de Janeiro.
O prejuízo causado pela garagem foi o principal motivo encontrado pelo órgão federal, na época, para negar o projeto inteiro, semelhante à descoberta de sonegação fiscal que condenou Al Capone, o que não descarta o fato de que o restante do projeto era  também inaceitável, tanto quanto o que mais fez o mafioso.



Restos da estrutura construída para a Garagem de Barcos – já removidos
O Globo


Explica-se melhor: em parte do Parque do Flamengo, também conhecido por ‘Aterro’, funciona a Marina do Rio de Janeiro, chamada ‘da Glória’ porque fica em frente ao bairro que leva o mesmo nome. O Parque do Flamengo com seus equipamentos públicos – década de 1950/1960 – foi projeto de Afonso Eduardo Reidy com jardins de Roberto Burle Marx e Lota de Macedo Soares.

O que se pretendeu nos anos 2000 foi modificar o uso do terreno da  marina com a construção de centro de convenções, shopping-center, três restaurantes e um gigantesco estacionamento. Mas, os barcos atrapalhavam (!), ocupavam precioso espaço. Por isso foi projetada a tal garagem, deslocando-se o local dos barcos – a essência da ‘Marina’ – para além do MAM em direção ao aeroporto Santos Dumont.

Uma rua chegou a ser construída  sobre o enrocamento e as águas da baía para ligar aquela parte do parque – que não mais seria destinada à Marina – ao prédio da garagem e seus barcos. Na época o IPHAN recusou a garagem e com ela o shopping-center morreu. As estruturas do prédio-garagem-de-barcos foram retiradas. A rua ficou.

(obs. Sobre o primeiro projeto v. NOTAS ao final do texto)


Blog Opinião reversa



Em 2009 o assunto voltou com  compra da concessão pelo citado empresário. Novamente instalada, a polêmica prolongou-se e chegaria às vésperas das eleições. Houve uma pausa estratégica.

Agora, em 2013, Ai! Que Ela, a proposta polêmica, voltou!


Voltemos também, como um bumerangue.


O sr. Eike Batista comprou o Hotel Glória e o está reformando, espera-se, seguindo as boas normas do respeito ao Patrimônio Cultural da Cidade. Sabe-se que o teatro foi abaixo, neste caso um teatro de verdade. Sabe-se que o empresário tem a cessão da Marina desde 2009 e que pretende ampliar seus “domínios” construindo lá um centro de convenções. Na ocasião dessas notícias chegou a ser divulgado, com muito custo, o projeto do arquiteto Índio da Costa, sem detalhamento. Houve reações, Sonia Rabello analisou a ocupação do parque sob o enfoque jurídico, entre outros, e… Ai! Que Bom! Eike recuou. E Sonia “pôs os pingos nos is”.


  
O projeto de revitalização da Marina da Glória proposto pelo grupo EBX
Divulgação

O Globo On Line, 12/11/2011


Passada a (re)eleição foi anunciado aumento do IPTU, surgiu o famigerado Pacote Olímpico 2  e… a ‘Marina’ do Eike retornou. Como é o projeto – volumetria, usos, atividades pretendidas, ninguém sabe, ninguém viu. Sabe-se apenas que a altura é de 15 metros conforme nos conta o arquiteto, isto é, equivale um prédio de cinco andares. Com que outras medidas não foi dito.

A matéria no jornal O Globo também informa que se trata de uma “versão simplificada” e que a área do projeto anterior – de 45mil m² – foi reduzida para 20mil m².


Blog Luis Torres

Não importa. Se for verdade serão 25mil m² de ‘bode’ retirado, tal qual o outro bicho explicado em O PACOTE E O BODE. No parque da Lota é inadequado, indevido. Com ou sem bode, não pode.





Durante a polêmica anterior, conforme notícia divulgada em 12/12/2011, foi afirmado pelo empresário:

“Só vou fazer ali o que a sociedade permitir. Jamais faria algo diferente. O projeto é um devaneio. Jamais construiria 1,5 mil vagas de estacionamento. Gosto demais da cidade e jamais faria isso numa área que é concessão pública. Pode anotar, este projeto já está na lata do lixo. (…)”. “… queremos um projeto minimalista e não algo como este projeto que é uma vergonha, pois afeta a beleza do parque. Estão falando que tenho interesse comercial na Marina. Não é verdade. (…)”.




Sobre o projeto que estaria na lata do lixo e que foi aprovado pelo IPHAN – portanto, o empresário afirmou que o órgão federal de proteção do patrimônio cultural aprovou o lixo que lhe foi apresentado! -, ainda na matéria de 2011 constou o que segue:


Num documento que circula pela internet, a arquiteta Cláudia Girão, que trabalha no Iphan, analisou a proposta da EBX e fez severas críticas ao empreendimento. Segundo ela, a área total construída será de 44,9 mil metros quadrados, dez vezes maior do que o projeto de 1965, que faz parte do plano original do Parque do Flamengo. Cláudia afirmou que o projeto da EBX prevê a criação total de 2.427 vagas e não apenas 1.500. Este seria apenas o número que ficaria no subsolo. A arquiteta ressalta ainda que o projeto da EBX, caso fôsse levado adiante, obstruiria a visão do Morro Cara de Cão, na Urca.

Na página 26 do documento, Cláudia diz que “além de o anteprojeto modificar traçados originais, as atividades propostas num espaço tão grande consolidariam e agravariam uma mudança radical no uso e fruição neste trecho do Parque do Flamengo”. Na avaliação da arquiteta, “é fácil constatar que, da mesma maneira que nos anteprojetos anteriores, o programa do anteprojeto não é de revitalização de uma marina, mas de expansão de um complexo de negócios”.



Rio Filme


Nada leva a crer que o novo projeto seja muito diferente do anterior ou que não viria a ser aprovado. Ao contrário, a notícia de ontem dá conta de que o IPHAN ainda não aprovou o “novo” projeto o que, nos tempos atuais, ao contrário de ser um alívio, é preocupante. Vide o MARACANÃ MUTILADOa torre na Lapa para a Eletrobrás, parte das RIO + 20 LEIS URBANÍSTICAS e, é claro, o projeto que foi para a lata do lixo. Por sua vez, o Prefeito manifestou-se favoravelmente à misteriosa versão.



Forbes



Se o Rio precisa de um Centro de Convenções de porte médio e na outra ponta da Cidade porque o Riocentro é longe (Longe de quê? Das dezenas de hotéis novos na Barra da Tijuca, é perto), que o faça, aí sim, longe da Marina da Glória e do Parque do Flamengo, áreas livres e non-aedificandi que não fazem parte do tecido urbano edificável do Rio de Janeiro e devem ser deixados em paz, como foram concebidas por Reidy, Lota e Burle Marx, com pouquíssimos e esparsos equipamentos urbanos: museus, teatro, um restaurante, palco para marionetes, pista de aeromodelismo, parques infantis, etc.


Ou alguém imaginaria um shopping e auditórios nas areias de Copacabana? Ou na Quinta da Boa Vista? Seria a mesma coisa.


Se antes a desculpa apresentada foi a necessidade diante de um evento internacional – os Jogos Pan-Americanos – desta vez mal ousam apelar para os Jogos Olímpicos. Sabem que o subterfúgio não seria aceito e reconhecem que se trata apenas de um empreendimento comercial, nada mais.


Que vá o Sr. Eike para a Zona Portuária, local muito próximo do seu hotel e que implora por empreendimentos.


Zona Portuária – Gabaritos

Que o Prefeito proíba essa aberração e leve o Sr. Eike e seus bilhões de reais para o Porto Maravilha junto com o centro de convenções, o shopping-center, os estacionamentos e o que mais quiserem, assim fazendo  jus aos enormes investimentos públicos aplicados na região justamente para… atrair investidores particulares!



Será um sucesso. E, quem sabe, o empresário ajuda a esticar o VLT, que tudo resolverá, até o seu Hotel Glória? É uma ideia maravilhosa! Fica a sugestão do Blog Urbe CaRioca para empresário Eike Batista e Prefeitura. E é de graça!


Sem dúvida é o que deveria ser feito por quem afirma gostar demais da cidade e pelo Sr. Prefeito, que parece detestá-la.


Se ambos insistirem em dar e receber tal benesse, certamente retornará também o MP, cuja atuação foi fundamental para evitar-se a tentativa anterior de esbulho no Parque do Flamengo.

Abaixo, outros links importantes.
NOTAS

*1 –Dicionário Houaiss, acepção nº 7
bastidores
Derivação: sentido figurado.
ambiente fora do alcance público, em que resoluções são tomadas e ações são empreendidas
Exs.: os b. do poder
 conversas de b.
2 – O Portal Vitruvius de Arquitetura e Urbanismo publicou vários artigos sobre o Parque do Flamengo, entre eles, os que seguem:
2 – No mesmo Portal Vitruvius de Arquitetura e Urbanismo, artigo de Ana Rosa de Oliveira e Cláudia Maria Girão Barroso, de 2006, é ainda bastante esclarecedor. A Volumetria indicada no croquis provavelmente é igual à atualmente proposta:

Imagens incluídas no artigo de 2006

Parque do Flamengo, situação atual da área tombada
(Obs. Dados divulgados em 2006)

  1. Tracejado Azul: limites da área tombada do Parque do Flamengo, com construções e jardins previstos no Plano Original (1965).
  2. Clubes náuticos de Santa Luzia, Internacional, Boqueirão do Passeio e Vasco da Gama
  3. Museu de Arte Moderna.
  4. Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial.
  5. Pistas de aeromodelismo.
  6. Passarela.
  7. Pista de dança e pequenos espetáculos ao ar livre.
  8. Área de Piquenique: mesas, bancos e cestas, cercada por jardins e árvores do horto.
  9. Praia do Flamengo.
  10. Molhe de pedras para defesa da praia e área de pescaria.
  11. Tracejado Vermelho: área ocupada pela marina, em área tombada do Parque do Flamengo.
  12. Pavilhão da marina, que pretendem modificar e onde pretendem fazer acréscimos verticais para transformá-lo em centro de convenções e shopping center.
  13. Área de jardins degradada por eventos que deveria ser recuperada, onde pretendem construir um centro de exposições ligado ao centro de convenções, restaurantes, salão de eventos e um terminal de turismo com novo molhe e plataforma de 200 metros na costa tombada da Baía de Guanabara. As construções junto ao centro de convenções seriam, tal como ele, semi-enterradas mediante terraplanagens para disfarçar a altura correspondente a quase seis andares em relação ao nível do espelho d’água da enseada e obstruiriam a visão do Pão de Açúcar e dos morros da Urca e Cara de Cão para qualquer pessoa que caminhasse pelo Parque ao longo da enseada da Glória.
  14. Área de estacionamento de veículos, que pretendem ampliar destruindo a Área de piquenique original, jardins e áreas arborizadas, construindo também uma garagem subterrânea de 41 mil metros quadrados. A prefeitura aproveitou para instalar uma ciclovia que também destrói jardins originais, a pretexto dos acidentes que só ocorrem devido à intensificação de circulação de veículos na marina, que não era prevista no projeto do Parque, destinado a passeios a pé; a pretexto dos acidentes, também querem erguer uma elevação de terras na entrada da marina com cerca de 5 metros de altura por 20 metros de largura, para construção de um pórtico de acesso exclusivo. A destruição de árvores já começou com escavadeiras e tratores no final da noite do dia 28 de abril de 2006, véspera de um fim-de-semana prolongado com o feriado de 1º de maio, mas como houve protesto de freqüentadores do Parque, resolveram instalar um tapume, com placa da Prefeitura, para poder arrancar as outras árvores sem que a população veja. O corte abrupto de árvores não foi feito com a preocupação de replantio. Também demoliram construções precárias ocupadas pela Guarda Municipal, Comlurb e setor da Fundação Parques e Jardins. Os guardas da Guarda Municipal que patrulham o Parque já tiveram seu efetivo radicalmente reduzido pela Prefeitura, e o fato correspondeu ao visível aumento de ocorrências criminais no Parque. Os guardas municipais e os coletores de lixo não têm mais banheiros e lugar para esquentar marmitas. O Parque do Flamengo tem 1 milhão e 200 mil metros quadrados.
  15. Píer, atualmente em número de 2, que pretendem estender até os clubes náuticos. Os píeres são mais extensos do que os píeres previstos no Plano Original do Parque, que seriam em número de 10, mas menores, liberando a área central da enseada tombada do Parque.
  16. Tracejado Amarelo: área pretendida de extensão da marina, que quer apropriar-se do espelho d’água da enseada do Parque
  17. Área de estacionamento de barcos em parte do contorno da enseada, que querem estender até os clubes náuticos, transformando a enseada em mero estacionamento de barcos; a marina só comportaria pequenas e médias embarcações, ancoradas apenas nos píeres.
  18. Ao longo do contorno da enseada, até os clubes náuticos, querem aumentar a via irregular existente e transformá-la em via de veículos particular da marina, interligando-a porém à Avenida Almirante Silvio de Noronha. No Parque do Flamengo é proibida a circulação de veículos, salvo nas áreas próximas aos estacionamentos previstos.
  19. Molhe de pedras construído na década de 1980 na frente do prédio da Varig, quase todo fora da área tombada do Parque do Flamengo.
  20. Local onde pretendem construir, sobre o espelho d’água, uma plataforma com uma garagem náutica, posto de abastecimento e outras instalações, a pretexto das competições de iatismo dos Jogos Pan-americanos de 2007, mas que permanecerá depois que acabarem os jogos e será incorporada à marina. A garagem de mais de 18 metros cobrirá quase completamente o prédio da Varig, que tem cerca de 20 metros de altura, e chegará quase ao molhe de pedras em frente à Varig.


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