ZONA PORTUÁRIA: o ALFABETO do PÍER

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Blog Prof. Evangelista

O artigo abaixo foi publicado ontem no Portal Vitruvius de Arquitetura e Urbanismo – seção Minha Cidade: trata da polêmica sobre a construção de um píer para a atracação de navios no Centro do Rio de Janeiro.

No mesmo dia o jornal O Globo publicou a matéria ‘Contra tudo e contra todos‘ na qual o Prefeito da Cidade afirma que não tem o poder de decidir – deixando, portanto, que a Companhia Docas do Rio de Janeiro estabeleça os critérios de intervenção urbanística significativa.

Infelizmente, a afirmação é inverídica. As decisões sobre o uso do solo cabem ao gestor municipal. Trata-se de mais um caso de subserviência às outras esferas de governo em detrimento da cidade, como aconteceu com a autorização para a demolição do antigo Museu do Índio, e o silêncio sobre a destruição do Quartel da PM que abriga 200 anos damemória urbana do país e do Rio para entrega do terreno ao mercado imobiliário.

Para o professor Luiz Fernando Janot o projeto ignora a cidade, e o Instituto de Arquitetos do Brasil publicou nota sobre a decisão da Cia. Docas de dar início às obras do Píer em “Y”, na qual ‘protesta contra a prática do fato consumado, ora recorrente, típica de regimes discricionários‘.


Blog Urbe CaRioca
Imagem: O Globo

154.05 Rio de Janeiro
ano 13, mai 2013
Andréa Albuquerque Garcia Redondo

É de conhecimento geral que o Rio de Janeiro está passando por uma série de intervenções urbanísticas, entre as quais o projeto chamado Porto Maravilha que prevê a reurbanização da Zona Portuária, área abandonada durante décadas devido a diferenças político-partidárias entre as esferas de governo que impediam a atuação dos gestores locais na região.
As obras, finalmente, começaram. Incluem a demolição do viaduto Perimetral, a reformulação do sistema viário, a construção de túneis e sistema de VLT. Os índices construtivos mudaram expressivamente para permitir a construção de grandes torres de edifícios.
Por que o Porto do Rio continuará em funcionamento, era de se esperar que a presença característica de navios ancorados junto à orla permanecesse.
A polêmica sobre a construção de píeres para a atracação de transatlânticos próximo da Praça Mauá, no formato de uma letra ‘Y’, veio à tona na grande mídia em novembro passado. Recentemente surgiu uma proposta alternativa para que os atracadouros sejam construídos mais afastados da referida praça, desenhados como a letra ‘E’, apresentada no Instituto de Arquitetos do Brasil no último dia 29 de abril.

Vale resgatar a história deste curioso alfabeto.
Até novembro de 2012, o projeto do ‘Y’ era conhecido, provavelmente, apenas nos círculos específicos de interessados: o edital de licitação para construção que chegou a ser questionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) é de 2010; os órgãos estaduais CECA e INEA concederam licenças ambientais para a obra; a Companhia Docas e a empresa Rio Y Mar, a vencedora da licitação que, curiosamente, leva um ‘Y’ no nome celebraram o contrato; e o Blog Porto Maravilha já anunciava o novo píer para seis navios em jan/2012.

Se, por um lado, o TCU detectou falhas no edital, por outro, a arquitetos e urbanistas incomodou a localização dos atracadouros entre os Armazéns 2 e 3, próximos do antigo Píer Mauá, pelo possíveis prejuízos paisagísticos à vizinhança do Mosteiro de São Bento e ao futuro Museu do Amanhã causados pela presença de navios que,segundo consta, têm até 70m de altura e 300m de comprimento, equivalentes a um edifício de 25 andares com 1 ½ o tamanho de um quarteirão de Ipanema.


O ex-Secretário Municipal de Urbanismo Alfredo Sirkis defendeu a volta ao projeto feito em sua gestão, com píeres perpendiculares à orla marítima situados em frente aos Armazéns 5 e 6, local descartado por Docas.

O prefeito da Cidade, por sua vez, declarou ser terminantemente contra o projeto e que iria a Brasília “tentar acabar com a polêmica do píer em ‘Y’”. Em seguida soube-se que a negociação significava concordar com o projeto em troca de receber a área alfandegada defronte aos Armazéns 1 e 2 liberando-a para o público, o que reacendeu as discussões

Da análise prometida pelo IPHAN ainda não se teve notícia.
A sequência de informações traz várias estranhezas, em especial o fato de projeto de tal porte ter vindo a público dois anos após sua concepção, como se fosse independente da proposta de revitalização da Zona Portuária, responsabilidade da Prefeitura.
A indignação do Prefeito não se sustentaria.
No vídeo de apresentação das transformações que ocorrerão na região – de 2009, os píeres são similares aos estudos lembrados pelo então Secretário de Urbanismo: perpendiculares à orla e defronte aos Armazéns 4 e 5. A modificação de projeto que mudou o formato e os aproximou da Praça Mauá foi feita pelo menos em 2010, data do edital. A menção ao “Y” no Blog Porto Maravilha em jan/2012 é anterior à inexplicável surpresa da Prefeitura, tal como o acordo feito entre o Ministério dos Esportes e os governos de Estado e Município onde consta o “Y”, conforme noticiado


Entre ações na Justiça e reações contrárias ao “Y” o arquiteto João Pedro Backheuser apresentou como proposta alternativa um Píer em “E” com atracadouros perpendiculares à orla localizados entre os Armazéns 3 e 6. O desenho é similar ao estudo anterior da Prefeitura e ao do vídeo Porto Maravilha. Inova ao afastar os píeres da orla em 150m. Com este recurso, a passagem que une os três atracadouros – o quarto traço do ‘E’ – será o acesso a um terminal de passageiros construído sobre o espelho d’água e ligado a uma praça criada a partir do Armazém 7, como sugere o desenho. O espaço entre a passagem e a orla é destinado a uma marina.

O arquiteto defende que as enormes vantagens que serão trazidas à região – por exemplo, a criação de frente marítima pública integrada ao novo bairro e a praça que recepcionará o visitante – justificam a necessidade de maiores recursos para executá-la.

O trajeto percorrido pelo projeto do píer até aqui suscita indagações.
1. Localização e Forma: deveria ser esclarecido por que o local original entre os Armazéns 5 e 6 foi descartado; por que o deslocamento para a Praça Mauá entre os Armazéns 2 e 3 não veio a público; qual o motivo do retorno ao local primitivo proposto; quais as vantagens e desvantagens dos três projetos;
2. Paisagem: para saber que visada seria prejudicada é necessário definir em cada situação qual é o ponto de vista, ou seja, onde está o observador.

Considerando a queixa geral de que até hoje os elementos de projeto apresentados não trazem esclarecimentos suficientes e que todas as informações disponíveis são as da mídia e as oficiais, é possível apenas fazer exercícios a respeito dessas e de outras questões.

Exercício 1 – O projeto do Porto Maravilha prevê torres gigantescas ao longo da Avenida Rodrigues Alves, até no terreno da Cidade do Samba. A demolição do Elevado da Perimetral, além de permitir a criação do anunciado Boulevard dará qualidade aos espaços públicos e abrirá a paisagem para os edifícios novos. Os investimentos públicos para atrair os empreendedores do mercado imobiliário não surtiriam efeito em via semelhante à sacrificada Avenida Paulo de Frontin, degradada após a construção da Linha Vermelha elevada. Na Zona Portuária o viaduto poderia comprometer a imagem de todo um planejamento.

Nesta ótica, retirá-lo e manter uma parede de navios não faria sentido. Talvez por isso os píeres do projeto original tenham sido descartados: para afastar os navios da frente marítima correspondente às áreas de interesse ao mercado imobiliário: perto da Praça Mauá não há terrenos a serem ofertados.

Exercício 2 – A vizinhança da Praça Mauá, em princípio, não serve ao mercado imobiliário, mas ali estão o recém-inaugurado Museu MAR, o Morro da Conceição e o Mosteiro de São Bento; em construção, o Museu do Amanhã. A interferência dos transatlânticos na paisagem e nos bens culturais depende do observador. O Mosteiro, por exemplo, sumiu das vistas do cidadão comum há muito, o que a presença dos navios não mudaria. Com a demolição do viaduto e caso o trecho alfandegado dos primeiros armazéns seja de fato liberado ao público, talvez seja possível desfrutar a visão da bela construção. Talvez porque o próprio Museu do Amanhã pode impedi-lo com seus 15m de altura criados pela lei da Zona Portuária, em 2009, para tornar o Píer Mauá edificável…


Exercício 3 – O perfil natural da cidade visto por quem chega pelo mar ficará mais comprometido quando as torres forem erguidas. Não é possível afirmar o que prejudicará mais a paisagem, os navios que vêm e vão, ou as torres que ficarão para sempre.


Exercício 4 – O afastamento proposto pelo arquiteto na solução alternativa – “E” e Armazéns 5 e 6 – melhoraria a vista nos imóveis com frente para oBoulevard em relação ao projeto original. A sugestão de criar a marina é boa, embora os usuários do novo equipamento – quem sabe os órfãos da Marina da Glória – venham a ficar imprensados entre os armazéns e os navios atracados… Se a tecnologia permitir, poderia ser interessante rebater e tal “E” para a esquerda e afastar a letra alternativa mais ainda da frente marítima. O terminal de passageiros e a praça da recepção ficariam no mesmo lugar e a nova marina seria mais arejada.



Entre debates e exercícios a obra do píer prossegue, segundo informou o noticiário, o que confirma a nota em 01/02/2013 de que o Prefeito voltou atrás para aprovar o polêmico “Y”.

Não obstante as manifestações no IAB favoráveis ao projeto do arquiteto João Pedro a proposta precisa da aprovação oficial. Resta saber se o Prefeito voltará atrás outra vez. Caso a sugestão apresentada no IAB seja aceita, quanto ao Mosteiro de São Bento não se sabe, mas, a vista de quem passear pelo Museu do Amanhã ou pelo Museu MAR ficará livre do paredão de navios.
Infelizmente, parece que os mistérios do Píer carioca não se limitam às duas letras do alfabeto. Vão de ‘A’ a ‘Z’.
Apenas uma coisa é certa: ninguém quer ficar a ver navios.

sobre a autora
Andréa Albuquerque Garcia Redondo é arquiteta (FAU UFRJ, 1975), com pós-graduação em Urbanismo (FAU UFRJ, 1990) e em Governo e Administração Municipal pela Escola Nacional de Serviços Urbanos – ENSUR (Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM, 1992). Atualmente atua como arquiteta autônoma e presta consultoria em legislação edilícia e urbanística na cidade do Rio de Janeiro.

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