Artigo: A LÓGICA DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA, por Luiz Fernando Janot

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No dia 08 deste mês foi publicado no jornal O Globo mais um importante artigo do professor e arquiteto Luiz Fernando Janot.

O articulista expõe com precisão e clareza como é modelo de desenvolvimento urbano adotado no Rio de Janeiro que, muito embora já criticado mundialmente, continua a ser praticado e incentivado em terras cariocas. Não obstante alguns méritos apontados, discorre com elegância sobre os problemas que dele decorrem.

Por enquanto fica a imagem do texto. Assim que obtivermos o link para o artigo em outro formato acrescentaremos ao post.

Boa leitura!


URBE CARIOCA

“A lógica da especulação imobiliária”
LUIZ FERNANDO JANOT
Arquiteto e Urbanista
Na primeira metade do século XX havia o entendimento de que as cidades deveriam ser adaptadas à sua época, mesmo que para isso fosse necessário transfigura-las totalmente. Essa era a percepção dos precursores do movimento moderno. Em parte, a realização desse desejo foi antecipada pela presença maciça do automóvel modificando o traçado das ruas e rasgando o impiedosamente tecido urbano. Em decorrência desse processo, uma nova condição urbana se configurou nas grandes cidades contemporâneas. 

No Brasil, o urbanismo modernista só se consolidou de fato com a construção de Brasília. Na elaboração desse projeto urbanístico foram incorporados os principais conceitos preconizados pelo modernismo. Sob os mesmos princípios, o Rio de Janeiro, após perder a condição de capital federal, viveu um período de grandes transformações urbanas. A reurbanização das áreas resultantes do desmonte do Morro de Santo Antônio e da demolição do velho casario que abrigava a zona do meretrício na Cidade Nova são exemplos de intervenções que adotaram a política da “terra arrasada” preconizada pela teoria modernista.
Mas, na verdade, o projeto que teve maior repercussão para o desenvolvimento urbano do Rio foi o “Plano Piloto para a Baixada de Jacarepaguá”, elaborado pelo arquiteto e urbanista Lucio Costa, que, anos atrás, havia projetado Brasília.Esse projeto privilegiou o transporte rodoviário e, em especial, o uso intensivo do automóvel particular que sobressai até os dias de hoje. Outras intervenções viárias também foram feitas para adequar a cidade ao aumento do número de veículos. Ruas foram alargadas e viadutos construídos sem a menor preocupação com a paisagem urbana no seu entorno. Essa lógica de desenvolvimento urbano foi responsável pela degradação de inúmeros bairros, principalmente aqueles considerados bairros de passagem. Simultaneamente, se constatou uma considerável perda de qualidade de vida das pessoas que enfrentam por horas a fio os engarrafamentos diários em seus trajetos entre a moradia e o trabalho.  

Não há como negar os méritos da Prefeitura ao implantar as diversas linhas do BRT como um dos legados das Olimpíadas de 2016. Todavia, alguns dos trajetos poderiam ter sido mais bem planejados. Por exemplo, o trecho da Trans Oeste que liga Guaratiba a Santa Cruz, além de não ser prioritário, expõe aquela região – caracterizada por sua fragilidade ambiental – à saga dos especuladores imobiliários. A ligação entre Santa Cruz e a Barra da Tijuca poderia ter sido feita através da conexão das linhas Trans Carioca e Trans Olímpica do BRT com o ramal ferroviário que corre em paralelo ao longo de toda a Avenida Brasil. Os bilhões a serem gastos para a construção do BRT Trans Brasil poderiam ser mais bem empregados em melhorias urbanas no entorno das novas estações da Supervia que deverão ser reformadas.

Não há dúvida de que a parceria entre o transporte coletivo e o mercado imobiliário continuará determinando por muito tempo a forma de ocupação das cidades brasileiras. Se no passado esse processo era iniciado pela implantação das linhas de bondes e pelos ramais de trem, atualmente é o mercado imobiliário quem determina a localização das novas aglomerações urbanas. Ao lançar seus empreendimentos em localidades desprovidas de infraestrutura e de transporte coletivo faz a festa dos empresários de ônibus e dos donos de vans, regulares e irregulares. Desse modo se estabelece um processo especulativo do solo urbano cujo passo seguinte é pressionar o poder público a dotar essas localidades com a infraestrutura necessária. 

Como geralmente isso não acontece pela falta de recursos para atender a essa demanda, cria-se um círculo vicioso que contribui para a ocupação informal do espaço urbano, para a degradação do ambiente local e, consequentemente, para o comprometimento da própria integridade da cidade.  

Cabe perguntar: a quem interessa manter essa lógica da especulação imobiliária que se apoia nos meios de transporte rodoviário em detrimento dos sistemas de transporte de massa sobre trilhos? Bingo para quem acertar.   

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