Artigo: ÁRVORES URBANAS – PATRIMÔNIO DA CIDADE, de Ivete Farah

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‘O dia, ontem, no Rio, estava nublado e meio preguiçoso por conta deste feriado de Corpus Christi. Ainda assim, a luz do outono produziu maravilhas. Que o diga a professora Ivete Farah, da FAU-UFRJ, autora desta foto no Parque do Flamengo. Ela, que escreve o blog Árvores Cariocas, flagrou a floração deste embiruçu-da-mata, uma árvore brasileira pouco conhecida, fincada ali por Burle Marx, exatamente para, como diz Ivete, “salientar a paisagem natural da cidade”. Que Deus proteja a natureza e a nós não abandone jamais’.


Coluna Ancelmo Góis, jornal O Globo, 31/5/2013 – 
Foto: Ivete Farah

As palavras da arquiteta e paisagista sobre a importância das árvores urbanas e suas inúmeras funções – que percorrem das questões ambientais às afetivas – emocionam e ao mesmo tempo nos fazem relembrar perdas inaceitáveis, como o caso da Praça Nossa Senhora da Paz, cuja vegetação plantada há cerca de 8 décadas foi sacrificada devido à decisão do governo estadual que preferiu prolongar a Linha 1 do Metrô até os bairros do Leblon e da Gávea, em detrimento da Linha 4 que ligaria o Centro da cidade à Barra da Tijuca via Botafogo, Humaitá e Jardim Botânico, sob o silêncio do governo municipal. Bem, não somos Istambul… mas, lutamos.

Que o artigo de Ivete Farah possa sensibilizar nossos gestores para que os atuais e os próximos não repitam tal erro, que levará um século para ser reparado! E que, por exemplo, evitem a destruição de Guaratiba, protejam as nossas encostas, os nossos parques, e ponham um freio na urbanização desenfreada dos bairros da região das ‘Vargens’ e do bairro de Jacarepaguá, o último já tratado neste blog. Boa leitura.
Urbe CaRioca



Árvores Urbanas – Patrimônio da Cidade

Ivete Farah
As árvores urbanas representam um grande benefício para a cidade, envolvendo os mais diversos aspectos. A questão mais amplamente difundida é o ganho ecológico, em virtude das inúmeras funções ambientais que a arborização urbana desempenha. A contribuição paisagística e urbanística a partir da ambientação e organização dos espaços e os efeitos psicológicos positivos para a população também engrossam a lista dos motivos para que o plantio e a permanência das árvores urbanas sejam fortemente considerados.
As árvores urbanas estão ainda relacionadas à memória da cidade, contando histórias, fazendo referências a fatos e personagens, sendo parte integrante e reveladora da cultura urbana. Qualquer árvore na cidade, em maior ou menor grau, é um componente de seu passado, seja a que faz parte do projeto de uma via, de um parque ou de uma praça, seja aquela plantada pelo próprio habitante ou ainda a que sobreviveu às alterações urbanas, carregando os traços remanescentes de uma paisagem transformada. Há árvores que são verdadeiros monumentos vivos na cidade, acrescentando um valor particular à paisagem urbana.

Figueira na Rua Faro, Jardim Botânico – Foto: Ivete Farah

Esse valor pode reconhecido através de dispositivos legais que asseguram a proteção especial a um exemplar ou a um conjunto representativo. No Rio de Janeiro, inicialmente, essa proteção era realizada através de lei ou decreto instituindo o tombamento da árvore, mas, atualmente, a legislação institui a árvore ou conjunto arbóreo de valor excepcional como “imune ao corte”, garantindo a sua preservação. Esta categoria foi entendida como mais adequada à proteção de árvores considerando o fato de se tratar de seres vivos. Há ainda a possibilidade de inclusão das árvores na categoria de “conjunto extraordinário”, feita através de resolução da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A preservação pode ainda se dar a partir do tombamento de toda uma obra, no caso de projetos paisagísticos de valor relevante, incluindo a proteção ao conjunto vegetal, como acontece, por exemplo, com o Passeio Público, a Quinta da Boa Vista, o Parque do Flamengo e outras áreas livres da cidade.
Os primeiros casos de proteção de exemplares arbóreos significativos na cidade do Rio de Janeiro surgiram no final da década de 1960. Hoje são mais de quarenta atos, entre decretos, leis e resoluções, com o objetivo de preservar exemplares ou conjuntos representativos. Entretanto, há ainda a necessidade de ampliar esse número, considerando-se a quantidade de árvores que se destacam por seu valor paisagístico ou histórico na cidade. Além de preservá-las, seria importante também destacá-las através de placas informativas com sua história ou ainda garantindo projetos urbanos que valorizem sua presença e facilitem o desfrute pela população.


Palmeiras da Rua Paissandu, no Flamengo – Foto: Ivete Farah


É interessante observar como alguns desses exemplares se confundem com a história da cidade e de seus habitantes. As palmeiras-reais da Rua Paissandu no Flamengo, testemunhas no século XIX dos passeios da ilustre habitante princesa Isabel, revelam na cidade a reminiscência de seu percurso, do palácio em direção à beira mar. A exuberante figueira da Rua Faro inspirou a luta dos moradores do bairro do Jardim Botânico pela sua preservação. A sua condenação à morte imposta pela transformação da cidade, com a substituição de residências em grandes parcelas por condomínios residenciais, mobilizou a população que saiu à luta pela sua preservação. A tentativa foi bem sucedida e a árvore, salva, virou símbolo da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Botânico, criada por ocasião desta luta. As sapucaias passaram a ser associadas à figura do império brasileiro, a partir de seu plantio na aleia principal do museu da Quinta da Boa Vista, tendo sido um pedido do imperador D. Pedro II ao paisagista Glaziou, autor do projeto. De uma forma mais abrangente, para algumas pessoas, certas espécies arbóreas lembram entes queridos ou um momento marcante de suas vidas, tornando-se para elas um elemento diferencial na paisagem.



Aleia de sapucaias da Quinta da Boa Vista – Foto: Ivete Farah

Esses fatos revelam a importância das árvores urbanas e a contribuição para uma paisagem afetiva de nossa cidade, com significados profundos para os seus habitantes, sobrepondo histórias pessoais e coletivas.
No blog Árvores Cariocas nos propomos a contar algumas destas histórias e a descobrir novos destaques arbóreos da paisagem do Rio de Janeiro. Convidamos a todos os interessados pelo tema a visitar o blog e a entrar em contato conosco sugerindo exemplares ou contando suas histórias com árvores.


Parque do Flamengo, projeto de Roberto Burle Marx
Foto: Ivete Farah


IVETE FARAH é arquiteta, doutora em Urbanismo e Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo FAU – Prourb/UFRJ, e, também, responsável pelo blog Árvores Cariocas.


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