DOCE DE POBRE

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CrôniCaRioca

Andréa Albuquerque G. Redondo

Johannes Vermeer, A Leiteira (1657-1658 ?)
Wikipedia



Crianças pequenas, trabalho fora, impossível viver sem empregada, a auxiliar de muitos lares brasileiros, elas que também têm filhos, trabalham fora e também precisam de auxiliares, que, por conseguinte, trabalham fora e, certamente, têm quem as auxilie se houver casa para cuidar, marido, e filhos, um retrato da sociedade brasileira, cadeia que funciona como as casas de espelhos dos parques de diversões que reproduzem a mesma figura ao infinito.

Pois se hoje o sistema está em mudança – um ministro já disse que empregadas estão em extinção -, encontrar a boa collaboratrice domestica, como se diz em italiano, nunca foi fácil, ao menos desde que me entendo por gente e acompanho as histórias da família e de amigos, neste mundo das classes médias e remediadas sem infraestrutura de outros e serviços disponíveis no comércio a preços aceitáveis que permitam dispensar a ajuda de terceiros.


Os Jetsons



Alguém aqui já fez a conta de quanto custaria mandar lavar e passar todas as roupas de uma família na lavanderia? Bem, prá que passar roupa, ô mania de brasileiro! Prá que a casa tão limpa? Melhor andar amarrotado e um pouco de sujeira não faz mal a ninguém, até dá imunidade! Ou, que acorde mais cedo ainda, limpe tudo e passe tudo se não quiser deixar metade do salário na lavanderia! Pelo menos até à ajuda imaginada em ‘Os Jetsons’ chegar!

Internet




Efigênia era inteligente, esperta, falava corretamente. Abri uma exceção e a contratei por indicação de colega, sem pedir as ‘referências’, tamanho era o desespero de quem tinha duas filhas pequenas para cuidar e trabalhava fora o dia inteiro.






Entrou em casa e senti algo diferente enquanto o olhar percorria os cômodos do apartamento, bem bonzinho até, comparado com as micro-casas com pé-direito para anão que fazem hoje por aí e vendem por uma fortuna! A cara piorou quando viu o quarto de empregada. Apesar de o apartamento ser razoável, o lugar onde dormiria era um espaço miserável de 4,00m² exatos, o que o código de obras permitia fazer. O suspiro denunciava algo, não sabia o quê.



Mas, eu precisava dela e ela do emprego. Ficou.


Aos poucos desvendei o mistério.


_ “A senhora sabe aquele diretor de televisão, o Fulano? Trabalhei na casa dele, uma casa enorme, com jardim, muitos empregados, quartos enormes. A filha dele, a Beltrana, trabalha em novela, ela é muito legal”!


_ “Bacana, Efigênia, que bom”!

­_ “Toda hora tinha banquete, eu fazia salgadinhos, docinhos”…


Será que era assim?
Imagem: comvcaprendi


Realmente a comida que a recém-contratada fazia era gostosa. E as meninas a adoravam. Inventava brincadeiras, contava histórias, parecia beirar a perfeição. 

Finalmente a casa funcionava!



Um dia, de saída, correndo, é claro, pedi que fizesse uma sobremesa.

_ “Efigênia, sabe fazer torta de banana”?

_ “Depende, como é a torta que a senhora faz”?

_ “É fácil, aquela que a gente frita a banana, forra um pirex com a banana, faz um creme amarelo, joga por cima da banana, faz um suspiro, espalha por cima do creme e põe no forno prá dourar”.

_ “Ah! Dona Andréa, isso? Claro que sei! Isso é doce de pobre”! – respondeu com uma dose de ironia. “Pensei que fosse um quitute. Pode deixar que vou fazer para o jantar”, disse, desdenhando da minha sobremesa favorita.


Torta de Banana, ou ‘Doce de Pobre’
Foto: AAGR


 
Eu sorri mais amarelo do que o creme da tortinha deliciosa com gosto de infância, o néctar dos deuses que acabara de ser rebaixado da categoria quitute.

Pena que Efigênia não durou mais do que um ano, pois era ótima profissional. Mas as tais referências não pedidas fizeram falta… Tive que ‘dar baixa’ na carteira o procurar outra collaboratrice.

Quanto ao Doce de Pobre, estava gostoso, mas, modéstia à parte, o que eu fazia era muito melhor!

Ah! Depois de algum tempo lá em casa soube que Efigênia havia trabalhado apenas um mês na casa do tal ricaço, cobrindo as férias da cozinheira…

Quanto às acomodações para empregada que faziam as domésticas torcer o nariz com toda a razão, o código de obras mudou e a área mínima do cômodo agora é de 6,00m². 

Os construtores, espertos que só, criaram o “quarto reversível”. Fazem o que seria o cômodo de empregada com 2,00m x 3,00m, escapam da área mínima de 9,00m² que deve ter um quarto padrão e douram a pílula com a propaganda do quarto a mais, nada mais do que um quarto a menos nos projetos cada vez mais apertados com espaços acanhados e desconfortáveis.


Para adoçar o dia, fica aqui a receitinha, caros leitores, com todas as manhas e pitadas especiais que a presunçosa quituteira não conhecia.

TORTA DE BANANA

Ou, se preferir, Doce de Pobre

Ingredientes:

    ½ dúzia de banana prata (Maduras, porém firmes).
    Três ovos
    ½ litro de leite (Talvez precise de mais um pouco)
    Uma colher de sopa de maisena.
    Manteiga para fritar a banana e mais ½ col. sopa para usar no creme (Se quiser usar margarina, ok, mas com manteiga fica mais gostoso).
    Canela em pó (Consiga uma boa, perfumada, não essas mixurucas que parecem serragem).
    Açúcar a gosto para o creme
    Uma pitada de sal para o creme (Vários pratos salgados levam uma pitada de açúcar. Todo doce precisa de uma pitada de sal. Dizia a Mãe CaRioca)
    Duas colheres de sopa de açúcar por clara de ovo para fazer o suspiro (não precisam ser muito cheias para não ficar doce demais).
    Baunilha (O gosto da baunilha artificial é muito forte. Cuidado. Usar apenas algumas gotas para não estragar o doce).
    Noz-moscada (Melhor a inteira para ralar na hora. Se for a que já vem em pó, também muito cuidado. Usar pouquinho porque o gosto é muito forte e poderá predominar sobre tudo, igual à baunilha. Menos do que uma colher de cafezinho).  
   Raspas de limão (Metade de uma colher de cafezinho)


Modo de fazer:

As bananas:
Cortar as bananas em fatia longitudinais, fritar com manteiga ou margarina (bem pouquinho) em frigideira antiaderente e arrumá-las lado a lado em um pirex refratário.  Polvilhar com canela.

Os ovos:
Separar as gemas das claras e colocar essas em um pirex fundo.

Creme amarelo:
Em uma panela dissolver bem a maisena com um pouco do leite. Acrescentar as gemas de ovo, o açúcar, ½ colher de sopa de manteiga, misturar e levar ao fogo. Mexer até engrossar (Explicação: não deve ficar muito grosso porque depois de ir à geladeira vai endurecer mais. Nesta etapa usar o “olhômetro” e o “provômetro”. O primeiro para acrescentar mais maisena dissolvida no leite ou só o leite, conforme estiver a consistência do creme; o segundo na hora de acrescentar os condimentos).
Colocar a noz-moscada ralada, as gotas de baunilha, provar e corrigir tudo conforme preferir (mais manteiga, açúcar, baunilha e noz-moscada, se necessário e de acordo com o seu paladar). Bater um pouco para amornar e ficar mais cremoso. Colocar por cima das fatias de banana.

O suspiro:
Bater as claras em neve até ficarem bem firmes e branquinhas como uma nuvem. Acrescentar as colheres de açúcar de duas em duas e continuar batendo (pode bater na batedeira ou ‘na mão’ se quiser fazer musculação para os braços). Misturar a raspa de limão. Espalhar por cima do creme amarelo.
Levar ao forno para dourar o suspiro.

NOTA: É um doce que se serve gelado. Eu adoro comer um pedaço quando ainda está morno, acho uma delícia!

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