O PAPA NA URBE CARIOCA

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CrôniCaRioca

Andréa Albuquerque G. Redondo

Papa Francisco
Internet

Católico, ateu, agnóstico, outra religião, tanto faz.

Impossível é deixar de emocionar-se ou, ao menos, impressionar-se com a comoção causada pela visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, que acontece aqui graças a Bento XVI, devemos lembrar.

Problemas, falhas? Sim, muitos, visíveis todos os dias. Os naturais transtornos para quem vive Réveillons e Carnaval eram esperados. Trânsito caótico, falta de segurança, falta de transporte e engarrafamentos que no Rio são crônicos, pioram…. Pane no Metrô e horas para conseguir o kit-peregrino são inadmissíveis.

Emoção e alegria? Sim, em profusão. A cidade fervilha com a juventude colorida e alegre. O Pontífice com poucos meses de pontificado irradia simpatia e carisma. Só inspira bons sentimentos. O Papa argentino é Pop. Querem tocá-lo, abraçá-lo, receber uma bênção, atiram bilhetes – pedidos de oração, por certo – a multidão corre atrás do papamóvel, aplaude, grita, chora…

Exagero? Talvez, que importa? É emoção extravasante, genuína e gratuita!

Nos dias atuais, que outro representante, homem público, levaria milhares às ruas sob frio, chuva ou sol? Em suas palavras, “não trouxe ouro nem prata”. Não paga nem pede como tantos pseudo-líderes que arrebanham claques em troca de diárias e lanches, ou vendem o Reino dos Céus. Francisco pede só fraternidade, diálogo, e uma sociedade mais justa.


Acolhimento
Imagem: Último Segundo


O aspecto de ‘show’ e os aplausos em algumas passagens causa-me certo incômodo, criada que fui com ambientes religiosos onde o silêncio e a contrição eram obrigatórios… Deixa prá lá! O Papa pede esperança e alegria, hoje se canta, batem-se palmas, tudo muda mesmo! Devo confessar que o som das Bachianas de Villa Lobos, a encenação do Círio de Nazaré, os jovens com bandeiras de todos os países fazendo reverência diante do antes cardeal Jorge Bergoglio – agora um símbolo -, a mistura de idiomas nas vozes da juventude, a Via Sacra apresentada e encenada com extremo bom gosto cenográfico e textos primorosos – além dos Evangelhos, esclareça-se – e a inclusão geral dedicando-se aos deficientes, aos jovens, aos surdos, ao trabalhador… O conjunto foi arrebatador.

Ainda não tivemos um Papa brasileiro. João Paulo II se disse ‘carioca’. Francisco, portenho, simpático e carismático, se carioca de coração não vier a ser, certamente não esquecerá o povo do Rio de Janeiro, os brasileiros e os estrangeiros da JMJ, e levará todos no seu cuorede Bispo de Roma.

Por falar em coração, o primeiro ‘passeio’ papal no Brasil foi pelo coração do Rio de Janeiro, o Centro, onde ficou ‘engarrafado’ em seu carro popular! Centro, Sumaré, Botafogo, Copacabana, Tijuca, Manguinhos (favela da Varginha), São Cristóvão (Quinta da Boa Vista), Glória, Flamengo, Centro, Centro, Centro… Entre as visitas, a ida a Aparecida do Norte, pura emoção.

Copacabana
Imagem: Foxsports


Ia a Guaratiba. Não mais irá.

A chuva escondeu o azul do céu do Rio, fez o mar cinza-chumbo, maltratou os peregrinos, e fez mais. Transformou o Campus Fidei em um lamaçal e expôs a fragilidade ambiental de Guaratiba. Decepcionou os moradores da Zona Oeste, é verdade – mas, não pelos motivos imprevisíveis retratados na triste história real contada no filme ‘O Banheiro do Papa’. A chuva revelou a escolha do lugar errado, do que os órgãos públicos tinham ciência.

Guaratiba é um bairro ainda rural, afastado do Centro do Rio, longe da urbe carioca mais adensada. Foi escolhida para receber os dois últimos eventos da jornada, a vigília e a missa do envio. O lamaçal reacendeu questionamentos anteriores e mistérios sobre a opção pelo bairro quase ‘roça’.

A chuva fez mais ainda: trouxe o Papa Francisco e os peregrinos de volta ao seio da urbe carioca. Missa e vigília acontecerão também na praia símbolo do Rio de Janeiro, e a peregrinação veio para o coração da cidade, da Central do Brasil até Copacabana, tudo onde muito mais habitantes moram, trabalham e se divertem. Assim, aos peregrinos poderão se juntar milhares de outras pessoas que não teriam condições de se deslocar para a distante e descampada área na Zona Oeste.

Como se vê, a chuva fez muito mais do que enlamear o Campo da Fé e jogar na lama sabe-se lá o quê mais irão descobrir.

Pode ter sido providencial. Se houve o dedo de Deus não se pode dizer, mas a voz do povo diz ‘O Homem Põe e Deus Dispõe’.

A JMJ ainda não terminou, mas tenho certeza de que o Papa Francisco já marcou a todos, religiosos ou não, com sua simpatia irradiante e genuína generosidade, e por certo guardará para sempre o calor humano contagiante com que os cariocas receberam o Peregrino da Simplicidade.


O Papa, o Papamóvel e o Povo
Rio de Janeiro, Julho 2013
Imagem: Uol Notícias

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