MEU PAI E O FORD 1950

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CrôniCaRioca

Andréa Albuquerque G. Redondo


Blog Carros Antigos




Era uma paixão. O Pai CaRioca e seu carro. Dirigia devagar, satisfeito, garboso. Às vezes o cotovelo para fora, braço apoiado na janela. Hoje não pode. Nem pôr o braço para fora nem andar de janela aberta.

Penso que a autoconfiança que as mulheres sentem quando vestem uma roupa bonita e um belo sapato de salto alto, os homens sentem quando vestem um carro. Sim, é a roupa predileta, aço, motor e rodas, mais que qualquer terno de grife. Há quem duvide se preferem os automóveis às mulheres!

Para uns o som do motor é música, melhor do que uma bela sinfonia ou a bossa nova. Assim era o pai com o Ford, só elogios!

O espaço interno era generoso. Pequenos, no caminho para Petrópolis, meu irmão e eu dormíamos no banco de trás e a irmã menor, a ‘Cara de Tangerina’, ficava no colo da mãe no banco da frente. Hoje é perigoso e proibido.



Nesta semana do Dia dos Pais o jornal que ele lia publicou uma reportagem sobre carros antigos que passam de pai para filho. Que pena, não temos mais o que ficou na família por mais de meio século…
Foram milhares de passeios no Ford bicolor, a começar pelo meu primeiro, da maternidade para casa.




Internet – Fotolog






Crescidinha, todos os dias o pai me levava ao colégio, com o Ford 50, é claro! Quem diria, então era possível sair do Centro, me pegar no Flamengo, ir a Botafogo, voltar para almoçar em casa e ir de volta para a Rua México, lá onde tinha o Bolinho MiXto. O trânsito não era a loucura de hoje que quadruplica os tempos para distâncias que são as mesmas.


Na esquina da ‘Praia’ esperava o paizinho que chegava com os pneus de banda branca.


O trajeto era curto, alegre e instrutivo. Nos sinais de trânsito aprendi a ver as horas no relógio redondo do painel, ele ensinando os ponteiros da hora e do minuto, a divisão do círculo nos minutos, a hora do almoço, a hora de entrar no colégio com o sino batendo. “Quero ver se aprendeu, Andréa. Põe 8h15min”. Tinha um parafuso que precisava rodar. “Ótimo! Agora 4h30min. Muito bem!”. “Agora mais difícil, 11h35min”. Mudava a marcha com movimentos elegantes. Era uma alavanca horizontal ao lado do volante, diferente das que hoje saem do chão.



a.serra.com.br

E as subidas para a Serra? Ai! Como enjoava nas curvas, que tortura!


Um problema súbito e aprendi o que era direção com shimmy, que medo! O volante mole, mole, tremendo, o carro quase sem comando, será que dava para chegar ao Taquara? O pai passou tranquilidade, ‘vamos bem devagarinho’, e chegamos… na oficina!




Na adolescência o Ford 50 ficava cheio de jovens em passeios que o Pai CaRioca e a Mãe CaRioca promoviam levando a turma da Rua Almirante Tamandaré, só gente boa! Paquetá – até a Praça XV para pegar a barca, é claro, porque o carro não era anfíbio – Pampo Clube na distante Barra da Tijuca, Clube Floresta no Itanhangá, Petrópolis, e muitos a Copacabana para jogar boliche. O pai dirigia aguentando a algazarra juvenil estoicamente.


Ele envelheceu, e o carro também.

A placa tinha seis números que nunca esqueci: 11-67-30. Um dia tiraram dois números e puseram letras no lugar, delas não sei. E em outro dia o pai carioca se foi e o carro ficou. Meu irmão cuidou dele durante vários anos e acabou vendendo. Cogitei comprá-lo e desisti porque a reforma seria caríssima… e me arrependi!


Andei me perguntando por onde andaria o “Mustang”, apelido que recebeu da turma da rua.



Antiga Estrada da Grota Funda. O primeiro trecho, desativado, é a Serrinha em “Ziguezague”.Na imagem a subida está à esquerda da Avenida das Américas em frente ao entroncamento desta com a Estrada dos Bandeirantes. Provavelmente era a continuação da Estrada dos Bandeirantes.





Procurando imagens para ilustrar o post sobre a Serrinha em Ziguezague, quem encontrei? Surpresa! Eis que surgiu um Ford de duas cores em uma foto, estacionado no Catete, logo reconheci a rua.





O Ford 50 onde eu vim da maternidade.
Imagem: Internet
O Ford 50  de muitos passeios.
Imagem: Internet





Só podia ser ele e…Bingo! Lá estava a placa com os números da minha memória!



O Ford 50  e a mesma placa, fora as letras.
Imagem: Internet




Continuei na magia da Internet e encontrei o Blog dos Carros Antigos, de outro apaixonado pelos possantes, e fiz mais um passeio, desta vez virtual. O Ford Crestliner 1950, o carrão tão querido do meu pai tão querido estava lá, inteirinho, no post The Old Shoebox Rides Again!


Banda branca, o relógio da minha infância, o rádio cheio de números estranhos, o velocímetro que marcava milhas, o emblema simpático, o enfeite do cofre do motor, e a capota de vinil que ele achava o máximo. A pintura estava feia, mas vá lá, é um senhor de idade que já andava precisando de uma plástica.




O FORD 1950
Foto: Blog dos Carros Antigos
O relógio onde eu aprendi a ver as horas.
Foto: Blog dos Carros Antigos

Não entendia aquela história de milhas e quilômetros.
Foto: Blog dos Carros Antigos


Se as energias positivas acompanham os objetos, o novo dono pode ter certeza de que o Ford levou com ele muitas boas lembranças ‘albuquerquianas’. Até agora só descobri que, vendido de novo, possivelmente o carro está em São Paulo.

Tomara que ele deixe o bonitão brilhante e tinindo de novo igualzinho ao dia em que, há mais de meio século, o farol piscou para o Pai CaRioca e o conquistou para sempre!


Nikollas Ramos e seu Blog dos Carros Antigos fizeram mais surpresas. Além de saber que ele também gosta muito do Crestliner, encontrei a história de um Ford 1929 apelidado – incrível! – de Albuquerque! 


Então Ford e o Albuquerque também foram um só muito antes de se juntarem novamente em 1950…



Tenho muitas histórias e aventuras passadas com o carro verde e preto para contar. 

Vão render novas CrôniCaRiocas, em breve.

 Até lá!



O escudo cheio de charme.
Foto: Blog dos Carros Antigos


  1. Que bom quando conseguimos ativar lembranças maravilhosas, Guina. É um privilégio.
    Outro amigo também voltou no tempo e falou de um Desoto 52 onde aprendeu a dirigir.
    Emocionante o depoimento de D. Nylza
    Espero um novo texto seu, então, para curtir muitas outras coisas boas.
    Um abraço.
    Andréa

  2. Maravilha, estas lembranças do pai e do carro do pai, coisa de filha agradecida, parabéns!
    Lembrou de imediato o Plymouth 1949 do meu velho, em que vivi aventuras de infância do mesmo teor das suas. Vai ser difícil é reencontrar o carro, muita sorte a sua!
    Merece um post também, que um dia faço, mas fiz pequena citação a ele e a meu pai… ao falar de minha mãe!
    Veja em vidalida.wordpress.com/2012/10/22/d-nylza-pertinho-do-ceu/
    Abs,
    Guina Ramos

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