Artigo: A CAMINHO DE GUARATIBA, de Luiz Fernando Janot

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Recreio dos Bandeirantes, Serra da Grota Funda e Guaratiba
Diário do Rio, 2007


Publicamos neste blog alguns artigos sobre o Bairro de Guaratiba, e também os versos que contam como o alcaide teve a ideia de construir um projeto MCMV no terreno onde seria realizada a missa campal que encerraria a Jornada mundial da Juventude 2013. Abaixo estão os links para os artigos citados e, a seguir, o excelente artigo do arquiteto e professor Luiz Fernando Janot publicado no jornal O Globo em 26/10/2013 que contém considerações sobre aquela região do Rio de Janeiro, e indicações sobre que destino deve ser a ela reservado.








Boa leitura.
URBE CARIOCA




LUIZ FERNANDO JANOT


Até a transferência da capital federal do Rio para Brasília, em 1960, a população carioca restringia os seus hábitos cotidianos aos bairros em que vivia. De uma maneira geral, eles se distinguiam entre si por suas características geográficas e pelo perfil socioeconômico dos seus moradores. Nessa época, o bairrismo predominava na vida cultural da cidade. Os deslocamentos rotineiros da população, especialmente para o Centro, eram feitos através da extraordinária rede de bondes e das linhas de trens. Foram esses meios de transporte que, por muitos anos, determinaram a expansão urbana da cidade.

No contraponto desse processo de transportes coletivos despontava a emergente indústria automobilística brasileira e, com ela, o desejo de cada indivíduo possuir o seu automóvel. Tal tendência promoveu uma radical transformação na cidade. Ruas foram alargadas, túneis e viadutos foram construídos para facilitar a livre circulação de veículos. A exaltação do carro particular fez do bonde a sua primeira vítima fatal. Quanto ao sistema ferroviário, o destino não foi muito diferente. Todo o seu fantástico patrimônio foi sucateado pela má gestão e pela absoluta falta de investimentos. O transporte coletivo saiu definitivamente dos trilhos.

A partir de então, ônibus e vans assumiram o papel de protagonistas do processo de expansão urbana do Rio. O aumento indiscriminado das suas linhas possibilitou a atuação do mercado imobiliário em áreas periféricas totalmente desprovidas de infraestrutura. Recentemente, esse modelo predatório de expansão da cidade vem se agravando com a construção de shopping-centers nessas precárias localidades. O objetivo principal da implantação desses centros de comércio é valorizar os terrenos no seu entorno e atrair compradores para os novos lançamentos imobiliários. 

Quanto à infraestrutura para viabilizar esses empreendimentos, a tarefa fica por conta dos lobbies especializados em pressionar a administração pública para atender aos interesses desse mercado especulativo.

Diante dessa lógica perversa é preocupante o destino que poderá ser dado à região de Guaratiba. 

Não há dúvida de que a abertura do Túnel da Grota Funda, a implantação do BRT e as recentes melhorias no sistema viário local irão despertar a voracidade da especulação imobiliária — formal e informal — para intervir nessa região de gigantescas proporções. Para se ter uma ideia da sua dimensão territorial — pasmem — ela é maior que o Centro acrescido de todos os bairros da Zona Sul, de São Conrado, da Barra da Tijuca e do Recreio, juntos. Além disso, trata-se de uma região extremamente frágil do ponto de vista ambiental e da qualidade do solo. Inclusive, sujeita a alagamentos constantes como o que ocorreu recentemente e impediu a realização de um evento durante a Jornada Mundial da Juventude.

Felizmente, a prefeitura congelou a região por seis meses para que nesse período seja definido qual o modelo mais adequado de planejamento para a área. É importante assinalar que o Rio não comporta mais a expansão descontrolada do seu tecido urbano. Independentemente das decisões que venham a ser tomadas há que se pensar em criar um sistema integrado de planejamento e gestão pública que seja capaz de impedir a ocupação predatória dessa área singular da cidade.

Nesse sentido, parece-nos mais indicado concentrar a infraestrutura nos núcleos urbanos existentes e utilizar os lotes vazios que neles se encontram para promover o adensamento desejável. Seria extraordinário para a cidade e para a região metropolitana se fosse criada, simultaneamente, uma grande reserva natural para fins de preservação ambiental e conservação da biodiversidade, associada a um ou mais parques urbanos com áreas exclusivas para recreação e lazer. Certamente, esse conjunto de iniciativas representaria um novo marco para a política urbana da cidade do Rio de Janeiro.

Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista

Comentários:

  1. Olá Andrea e demais participantes do blog.
    Acho a discussão sobre o futuro da Guaratiba bastante pertinente, pois trata-se de um momento em que algo ainda pode ser feito, para que os erros históricos de urbanização do Rio não sejam repetidos.
    Eu não sei se o atraso em preparar um PEU para a Guaratiba é proposital, ou só reflete a tradicional falta de organização e planejamento da urbanização da cidade.
    O professor Janot coloca no artigo o questão do transporte urbano ter saído dos trilhos. No exemplo da Guaratiba, no início da década de 50 (segundo meus pais), se levava algo em torno de 2 horas do centro até a ilha de Guaratiba, indo de trem e bonde . Hoje levamos as mesmas 2 horas de carro, ou mais de BRT até a alvorada e de lá sabe-se como até o centro. Isso com túnel e tudo!!
    O que me assusta é o atraso na elaboração de um PEU, pois a demora permite a ilegalidade, a invasão e degradação.
    Como foi bem colocado no artigo, a guaratiba é um ecossistema frágil, é um enorme área de mangue, campinas naturais e mata. Se vocês olharem no google maps, é a última mancha verde do município do Rio ainda fora de parque. Aí eu pergunto, será que esta enorme área verde está fadada à degradação e à insalubridade?
    Quando olho para a Barra, ainda sem rede de esgoto, m pergunto o que vai sobrar para a região do além túnel? Será que pretendem deixar que a área seja toda ocupada irregularmente, sem infra-estrutura, repetindo tudo de errado que vem acontecendo com o resto da cidade que insiste no modelo casa grande-senzala? Este é o último quinhão que ainda pode ser planejado e transformado em bairro verde (mesmo que popular), aproveitando os grandes espaços para fazer o saneamento básico, arruamento com calçadas verdes, ciclovias, espaços generosos dedicados a escolas públicas, a postos de saúde, hospital, delegacia, parques, tudo o que um bairro precisa.
    Pois bem, alguém pode me esclarecer se isto é uma utopia ou existe alguma possibilidade disso acontecer? Como? A parceria público privada seria viável?
    O que vejo acontecendo, infelizmente, é a instalação da precariedade. Condomínios irregulares de classe média, invasões, falta de esgoto, falta de abastecimento de água, transporte mambembe.
    Eu pretendo lutar por um destino melhor por este pedaço tão bonito do Rio.Eu quero uma ciclovia arborizada no antigo trilho do bonde, indo da praia da brisa até a fazenda modelo e de lá até a praia da barra de guaratiba, passando pela estrada da matriz, da ilha e da barra. E também ciclovias nas estradas do morgado, morgadinho e tachas. Embaixo dessa ciclovia, uma rede de abastecimento de água e uma rede coletora de esgotos, com uma estação de tratamento de 100% dos resíduos, para que nada caia nos riachos onde ainda se pesca pitú. Vamos manter o mangue limpo!
    Tem mais gente que queira isso?

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