QUANDO EU ERA CRIANÇA

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CrôniCaRioca
Andréa Albuquerque G. Redondo

Para BIANCA
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Quando eu era criança bati com a testa na porta. Nasceu um galo gigante. Corri da minha mãe que queria apertar o galo com a faca deitada. Chorei muito. O galo não diminuiu. No caminho para o hospital, deitada no colo da minha mãe, vi muitas estrelas amarelas em um céu claro.



Cresci um pouco e descobri que as estrelas eram as luzes no teto do túnel do Pasmado. Nessa época tinha uma favela em cima do túnel. Depois um governador tirou a favela. Fizeram um mirante no alto do morro e puseram lá a bandeira do Brasil. O hospital era o Rocha Maia. Não tem mais emergência…



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Quando eu era criança pedi ‘cola’ em uma provinha. Não sabia se 60 em algarismos romanos era XL ou LX – sempre tive má lateralidade, acho que porque sou ambidestra. O coleguinha respondeu “não digo”, de cara feia. Outro dia, na dúvida, escrevi ‘baía’ com ‘h’ porque era mais bonito. Errei.


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Lembro-me do meu desespero e do olhar de censura do amiguinho, sem piedade alguma. Nunca mais pedi ‘cola’ a ninguém. Também nunca neguei cola a um desesperado. Demoliram meu colégio para fazer edifício. A Baía era a de Guanabara. Sem ‘h’. Já teve há muito tempo, mas hoje só a Bahia que é um Estado tem ‘h’. Aprendi a diferença.



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Quando eu era criança às vezes a lua ficava enorme e amarela, eu apontava para ela dizendo ‘lua, lua!’. Minha mãe contou que as luas que eu enxergava nem sempre eram o nosso satélite, às vezes eram só uma placa no posto de gasolina com o símbolo da marca, meio redonda e amarela….

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Quando cresci puseram postos nos canteiros centrais das ruas, que são áreas públicas. É feio e perigoso. Os outros postos estão desaparecendo. Fazem edifícios nos terrenos. No canteiro é ruim. Entre edifícios é ruim. Uma sinuca. Combustível mineral causa aquecimento global, mas a gente precisa… Em vez do carro elétrico, descobrimos o ‘pré-sal’, e a marca na nossa gasolina não se parece com a lua… Sinuca de bico.






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Quando eu era criança visitava minha tia no Parque Proletário da Gávea, construído no lugar da antiga favela do Capinzal, que existiu e foi removida antes de eu ser criança. O parque cheirava mal. Minha tia cheirava bem: era doce e fazia bala de coco para mim e sorvete para vender. Meus primos diziam ‘Bença, tia!’, para a minha mãe. Eram felizes!


PARQUE PROLETÁRIO
Internet – Página Eliane Bonotto

Quando eu cresci removeram a minha tia para um conjunto habitacional na Penha e outros da família para Jacarepaguá.  No lugar do “parque” – que tinha virado favela -, e de uma antiga olaria, construíram o Minhocão, muitos edifícios, e o Planetário. Hoje a Gávea é bairro nobre. Furaram o Minhocão para fazer uma autoestrada, sempre engarrafada.


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Quando eu era criança às vezes, à noite, passava ao lado de um buraco enorme e preto e ficava muito assustada. Tinha medo de que, nas curvas, o carro do meu pai, o Ford 50, caísse e afundasse naquela escuridão. Na beira da rua havia uma favela, tinha gente conversando e bebendo. Parecia um lugar animado.



Crescendo descobri que o ‘pretume’ era a Lagoa Rodrigo de Freitas. Linhas verticais – reflexo dos postes na água – criavam a imagem do ‘buraco’ que engolia crianças. A curva era a do Calombo. A favela da Catacumba foi removida. Fizeram edifícios e um parque morro acima, muito bom para cabritos.



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Quando eu era criança no Centro do Rio tinha uma obra que não acabava nunca, e um parque de diversões onde eu comia churros. Eu ia crescendo, sempre ia ao Centro, e continuava tudo igual, sem operários e do mesmo jeito, uns pedaços cinza e feios, outros ‘só no tijolo’, feito casa de pobre.


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Quando cresci virei arquiteta e descobri que era assim mesmo, concreto aparente e ‘tijolinho’, a tal arquitetura modernista. O prédio era o Museu de Arte Moderna, projeto de Afonso Eduardo Reidy. O mafuá sumiu, hoje temos o lindo Parque do Flamengo. Volta e meia querem tungá-lo para fazer shopping e Centro de Convenções.




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Quando eu era criança, brincando sozinha na sala olhei pela janela e vi muitas janelas lá longe. Pensei que atrás de alguma podia ter uma criança brincando, que eu não a conhecia, e ela também não sabia que eu existia. Nesse dia descobri de uma vez só a ignorância, o desconhecimento, o meu ser, a individualidade, e que no mundo tinha mais gente do que eu podia ver. Aprendi que as janelas eram dos apartamentos de outros prédios.



Na parte inferior da foto, área coletiva na
quadra  formada pelas ruas Almirante Tamandaré,
Barão do Flamengo, do Catete e Praia do Flamengo.
Dos andares mais altos era possível ver o mar e acompanhar
a construção do Aterro do Flamengo.
O gigantesco edifício nº 200 da praia não existia. 

Quando cresci e virei arquiteta da Prefeitura descobri que eu morava de fundos para uma ‘área coletiva’ em um quarteirão do bairro do Flamengo, que as áreas coletivas haviam sido inspiradas no Plano Agache, e serviam para ventilar e iluminar os quartos, salas e cozinhas. Eram espaços non-aedificandi‘sagrados’ onde nada podia ser construído – um exemplo de área coletiva animada está no filme Janela Indiscreta, de Hitchcock: o protagonista fica xeretando a vida dos outros pela janela virada para a área interna da quadra. Uns Secretários deram umas canetadas e algumas áreas coletivas foram invadidas por edifícios…


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Rua do Catete, Rua Bento Lisboa, bairro do Catete
Internet


Quando eu era criança o Rio de Janeiro tinha muitas pedreiras. Eu não sabia o que era pedreira e via, nos morros, feridas enormes, cicatrizes. Pensava que os morros podiam ser dinossauros dormindo que acordariam de repente com raiva e dor e se vingariam de nós porque tinham sido machucados, só que eram tão grandes que ainda não tinham sentido, feito moscas pousando nos elefantes. Mas, iam sentir, sim…
Rua General Glicério,  bairro Laranjeiras
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Quando eu já era adulta proibiram as pedreiras. Nos terrenos bem abaixo fizeram edifícios e esconderam as marcas. Depois nasceu uma tal de Ecologia e aqui no Rio ‘descobriram’ que a paisagem natural é o nosso maior bem, o que eu já sabia há muito tempo!. Em uma propaganda de mau gosto o Pão de Açúcar acorda e sai andando. Quem diria! O que eu fantasiava em pequena foi parar na televisão, e as pessoas dizem na rua que o gigante acordou…



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“Partida de Estácio de Sá” (Benedito Calixto (18531927)
mostrando o padre Manuel da Nóbrega benzendo a esquadra
que vai combater os franceses na baía de Guanabara.
Wikipedia


Quando eu era criança havia umas casinhas em um lugar muito alto e distante. À noite eu via as luzinhas e pensava como devia ser cansativo e perigoso morar lá, chegar a casa depois do trabalho, subindo a ladeira em uma rua tão estreita carregando sacolas de comida e prestando atenção para não cair no precipício.



Quando eu cresci descobri que o lugar era um morro, que ele não era achatado igual a uma pizza com uns dois metros de espessura.

As casinhas eram as construções aonde o bondinho do Pão de Açúcar chegava primeiro, no Morro da Urca.

Lá em cima tinha espaço para passear e ver a vista da Cidade Maravilhosa!

Também aprendi que ali pertinho, logo abaixo, a nossa cidade foi fundada por Estácio de Sá entre o Pão de Açúcar e o Morro Cara de Cão, em 1565!

Pena que ele viveu menos de dois anos depois disso: morreu de uma flechada que levou quando defendia o Rio dos franceses e dos índios aliados a eles. Pelo menos não soube que logo depois refundaram a cidade no Morro do Castelo e que uns 300 anos mais adiante demoliram o morro…


Mas, ia gostar de saber que o Rio continua lindo!



Às crianças que vivem em cada um de nós.


Outubro, 2013

Urbe CaRioca





  1. Sempre delicioso ver o Rio atrav'es dos olhos de uma conhecedora da cidade, que j'a observava tudo desde pequena, e rendeu essa viagem no tempo sob a 'optica infantil. Espero que Bianca aprenda muito sobre nosso amado Rio com a vov'o defensora da cidade <3
    Pat

  2. Recebi o comentário, que transcrevo agora, de Cleia Schiavo. Obrigada, Cleia. Fico contente porque minhas lembranças ativaram outras boas memórias! bj
    "Andrea, o bom do seu escrever é a delicadeza que expressa quando descreve suas lembranças ; menina cheia de imaginação e curiosidade que , com seus olhos de ver, ampliou com o passar do tempo seu arco de observações . Reconheci-me na sua curiosidade, dos escondidos atrás das portas , vistas das janelas dos ônibus em movimento sobretudo de um deles que saia do subúrbio direção ao centro da cidade , exatamente a Lapa . Lá se localizava a Escola Nacional de Musica onde eu estudava com os grandes mestres de então em um trecho da cidade pouco valorizado pelos conservadores carrancudos . La a boemia se encontrava: nos bares e cabarés em ruas livres onde intelectuais , artistas e a população mais simples experimentavam a vida. Na porta da Escola Nacional de Musica situada da rua do Passeio ao lado Automóvel Clube , vi passar Elizete Cardoso que trabalhava para uma gravadora (acho que a Continental) , creio na Av. Mem de Sá . Para a alegria dos alunos `as vezes ela entrava em direcão ao belo banheiro da nossa Escola decorado com azulejos portugueses . Na verdade suas lembranças atiçaram as minhas presas `a origens próximas de um tempo inesquecível da cidade do Rio de Janeiro . Grata pela cronica. Cleia Schiavo "

  3. Andrea!
    Que ótima recordação e mais linda ainda a relação que faz da cidade com a tua infância onde tudo é muito grandioso. Me lembro de passar muitas e muitas vezes de ônibus pela looonga Nossa Sra de Copacabana com minha mãe e ficar olhando lá de dentro aqueles prédios todos e as pessoas "enjauladas" naquelas janelas que me pareciam gigantescas. E de passar pelo túnel do Rio Sul, morrer de medo e fazer o sinal da cruz pois passava em frente a igreja ao lado do Rio Sul (um reflexo dos atos de minha mãe)… Quando virei adulta, continuei passando pela looonga nossa senhora, olhando as mesmas janelas e sentindo todas muito pequenas. Mas continuando a ter medo do túnel e continuar fazendo o sinal da cruz!
    Grande beijo! Parabéns pela bela crônica!
    Vanessa

  4. Querida Vanessa, Fico muito contente porque você gostou das minhas recordações urbano-cariocas. Durante décadas fiz o sinal da cruz quando passava na frente de qualquer igreja, mas a que me lembro mais – apesar de morar pertinho da Matriz da Glória, onde fui batizada – é a Santíssima Trindade, na rua Senador Vergueiro, porque passava todos os dias ali, na volta do colégio e duas vezes nos dias de curso de inglês. Agora esqueço, e faço de vez em quando. Quem sabe retomo? É um bom hábito e nos dá conforto. Além da proteção divina, é claro. bj

  5. Que bom que meus escritos despertaram boas memórias em você, caro anônimo. Pena que esqueceu de assinar o nome, mas agradeço pelo comentário de qualquer modo, é claro.
    Meu colégio também ficava na Praia de Botafogo e já comentei o trajeto em outras duas crônicas, uma delas MEU PAI E O FORD 1950. Também andei de ônibus elétrico, o "chifrudo" como se dizia. Era bem enjoado, porque o chifre se soltava dos cabos aéreos e o motorista tinha que saltar para encaixar a haste no lugar… Pelo menos ele andava devagar. Os ônibus de hoje metem medo. Um grande abraço. Vou anotar outras lembranças que surgirem para o Dia das Crianças de 2014!

  6. Bonita cronica de um Rio em eterna transformacao e crescimento, uma bela embrança do que já foi ao olhar de uma criança que vai aprendendo sobre os ganhos e perdas deste processo incessante de mutação. Crescemos juntos com os nossos bairros–no Leme onde passei a minha infancia e adolescencia, vi praticamente todos os predios subirem na nossa quadra e nas outras quadras. Bloqueando a vista que tinhamos do morro e da orla Atlantica. Naquela epoca ingenua, acrediatavamos que o carro privado era sinal de progresso e que o País finalmente viria ao encontro do seu prometido e tao esperado futuro… perdemos a Linha 5 – Leme de bondes eletricos que nos levavam e traziam diariamente do nosso colegio na Praia de Botafogo, instalaram em seu lugar o sistema de Onibus Eletricos que nao deram certo porque e logo foram retirados — alegavam as novas autoridades que estes atravancavam as ruas e nao deixavam o automovel passar…aos poucos os carros tomavam conta de logradouros. Quem poderia antever, que um bairro pacato viria a se tranformar num lugar agitado e bloqueado pelos carros estacionados ao longo da Rua Gustavo Sampaio e de suas transversais. A qualidade de vida que tinhamos foi sacrificada por uma serie de decisões tomadas sem nenhum estudo de impacto de vizinhança ou consultas com os moradores o que lhe convinha melhor? . Hoje, o Leme é irreconhecivel a disputa cotidiana pelo espaço liquidou a sua qualidade de vida, pedestres sao expostos a nesga que sobrou dos calcadoes cada vez mais atravancados pelos "puxadinhos", poluição aérea, visula e o ruido passou a ser a constante, quem nem teria suadades ao re- lembrar como era serena e calma a vida do bairro em sua infancia. Obrigado Andréa pela oportunidade de rememorar o nosso passado…

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