UMA RODOVIÁRIA EM SÃO CRISTÓVÃO E UMA TEORIA: 50 ANDARES NO LUGAR DA ‘NOVO RIO’

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this page

Ilha das Moças – Estações Ferroviárias do Estado do Rio de Janeiro



Um terreno com formato triangular – ao que consta transferido do Exército à União e por esta cedido ao município do Rio de Janeiro -situado no limite do bairro de São Cristóvão, ao lado da linha férrea e em frente ao Maracanã, com acessos pela Avenida Bartolomeu de Gusmão e pela Rua Visconde de Niterói – onde havia instalações militares e funciona o Centro Hípico do Exército – as antigas cavalarias imperiais: este é o local escolhido pela Prefeitura para a construção de uma Rodoviária provisória que pode se tornar definitiva, segundo notícia divulgada pela imprensa


Seria um complemento à saturada e ineficiente Rodoviária Novo Rio, que fica na Zona Portuária, na esquina das avenidas Rodrigues Alves e Francisco Bicalho. Embora falte a divulgação dos projetos arquitetônico e viário respectivos, o local definido, por si, evoca alguns aspectos curiosos, a começar pelo fato de que este trecho de São Cristóvão, o Bairro Imperial, é classificado como Área de Especial Interesse Turístico!

1 – Muito embora a Zona Portuária seja palco de obras vultosas que desmancham viadutos, derrubam prédios antigos, erguem novos, e cavam túneis, a proposta de revitalização da região inexplicavelmente não previu a construção da Linha 5 do Metrô nem as desejadas e necessárias ligações com o dito transporte de massa, ou ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Assim, para cobrir sabidas deficiências, desloca-se a rodoviária para a vizinhança de trens e metrô:

Reduzir o impacto no Porto é bom para o funcionamento da cidade, mas o novo terminal também é uma boa solução para os passageiros. Ele se integrará com o metrô, os trens e várias linhas de ônibus, o que a Novo Rio não tem, diz o Secretário de Transportes.


‘Se Maomé não vai à montanha’…

2 –O local está incluído no projeto de revitalização do entorno do Maracanã, que incluía a demolição do Antigo Museu do Índio, da Escola Municipal Friedenreich, do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare. Dessa proposta houve a reversão de algumas demolições, o retorno dos equipamentos esportivos à condição de bens tombados, e o tombamento inesperado do Museu do Índio, tudo após manifestações de desagrado da população com aquelas decisões governamentais.

O terreno receberá estacionamentos, passarelas e instalações de apoio aos eventos no Maracanã e, após os jogos, um parque. Para tanto todas as construções existentes seriam demolidas, fato que gerou polêmica na época do anúncio e culminou com a proteção das antigas cavalariças por tombamento promulgado depois de derrubado o veto do prefeito à aprovação da lei: foram salvas do “furacão modernizador” que varreu do mapa as instalações militares*.


3 – O lugar é vizinho imediato de outros bens tombados em nível federal e municipal além dos citados: o Museu Nacional e Quinta da Boa Vista são tombados pelo IPHAN; o Jardim Zoológico, cuja área de expansão fica defronte ao terreno, faz parte das dependências da Quinta. Assim, toda intervenção dependeria também do aval órgãos de proteção do Patrimônio Cultural, caso a legislação urbanística permitisse ali a construção de uma rodoviária. A inadequação da escolha se faz mais forte com a presença do nosso belíssimo Jardim Público e do Zoológico.

Quinta da Boa Vista, São Cristóvão




4 – Mas, a norma urbanística vigente não permite instalar nesse lugar atividades que causam impactos de várias ordens, por exemplo, uma rodoviária, Polo Gerador de Tráfego – PGT que se enquadra em TODAS as situações de impacto caracterizadas em lei, tanto sobre o Sistema Viário quanto sobre o Meio Ambiente. Perante as normas é uma ideia natimorta. Nem mesmo cabem medidas mitigadoras, consulta ao IPHAN ou ao Conselho de Patrimônio do Município.

Entroncamento da Avenida Brasil e da Rodovia Presidente Dutra
O Globo

5 – Por outro lado, há três semanas ressurgiu a ideia antiga de construir um novo terminal em Vigário Geral. Se de 1987 a 2011 a proposta era transferir a Novo Rio, agora o prefeito propõe-se a mantê-la e construir um segundo terminal. Será? Aqui entra a teoria do título, embora Vigário Geral já esteja outra vez em suspenso.

O projeto de revitalização da Zona Portuária, não obstante o seu mérito conceitual, sabidamente tem o viés prioritário de oferecer novos espaços aos grandes empreendedores do mercado imobiliário. Exemplo é o terreno da Cidade do Samba onde poderão ser erguidas torres com 30 andares. Curiosamente, para o terreno da ‘Novo Rio’, a lei nº 101/2009 previu a construção de torres com 50 andares e 150,00 m de altura. Também não houve incentivos ao uso habitacional.


No primeiro exemplo poderia haver a intenção de pôr abaixo um símbolo da gestão administrativa anterior. O segundo caso, porém, intriga mais. Prever tal potencial construtivo no terreno do Estado sugere a realização de um futuro empreendimento imobiliário no local. É verdade que poderia ser um complexo comercial acoplado a uma rodoviária moderna, já cogitado pela CODERTE. Mas também pode ter sido apenas o meio de “preparar o terreno” – literalmente – para vendê-lo, como já foi feito com muitos outros próprios estaduais, municipais e áreas públicas, – o que só faria sentido após a transferência da rodoviária seja para Vigário Geral ou para São Cristóvão. Neste caso, o provisório estaria mais perto de se tornar definitivo.

Se é apenas uma teoria, de qualquer modo não se deve contar com o terreno de São Cristóvão porque lá a nova rodoviária não pode ser erguida, no mínimo por falta de amparo legal. Nem provisória. Mas, disto nossos gestores têm conhecimento, é claro! 

Faltam outras coisas: sensibilidade e estadistas.




Projeto da Coderte para revitalização do Terminal Rodoviário Novo Rio, construção de terminal de barcas e de 3 torres comerciais de 150 metros de altura.
Fonte: Skyscrapercity, 2011


_______________________

* Outros imóveis citados nesta notícia, no entanto, permaneceram.


  1. Prezado Paulo Vienas,
    Embora eu não seja uma especialista em transportes, a ideia de uma rodoviária no lugar que você descreve parece ter lógica, mantendo-se a Novo Rio ou outra que a substitua (na Leopoldina, abandonada?) sem diminuir as facilidades de acessos às várias regiões do Rio. Seu comentário, muito claro e pertinente, deveria ser lido pelos nossos gestores equivocados.
    Ab.
    Andréa

  2. A TRANSFERÊNCIA OU MESMO A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO TERMINAL MULTI-VIÁRIO INTERESTADUAL, NAS PROXIMIDADES DOS ENTRONCAMENTOS DOS EIXOS VIÁRIOS DA DUTRA/WASHINGTON LUIS/AV. BRASIL/LINHA AMARELA/LINHA VERMELHA, É UM "MUST".
    TÃO ÓBVIAS SÃO AS VANTAGENS ESTRATÉGICO- LOCACIONAIS, EM RELAÇÃO ÀS POLARIZAÇÕES DOS MODAIS E DA CORRESPONDENTE INFRA-ESTRUTURA DE TRANSPORTES JÁ EXISTENTES, HÁ QUASE UMA DÉCADA, E AGORA REAFIRMADA COM A IMPLANTAÇÃO DO EIXO DA TRANS-CARIOCA.
    À MEDIDA QUE A MASSA POPULACIONAL E AS ATIVIDADES ECONÔMICAS SE DESLOCAM ACELERADAMENTE PARA AS ZONAS NORTE E OESTE DA CIDADE, E DIANTE DO PUJANTE CRESCIMENTO DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA RJ, QUE TERÃO NO "ARCO RODOVIÁRIO" SEU NOVO EIXO INDUTOR DE DESLOCAMENTOS PERIFÉRICOS EM RELAÇÃO À ÁREA CENTRAL DA CAPITAL, FICA MAIS QUE EVIDENCIADA ESSA NOVA CENTRALIDADE, PARA OS DESLOCAMENTOS DIÁRIOS DE UM CONTINGENTE SIGNIFICATIVO DA POPULAÇÃO METROPOLITANA.
    A NOVO RIO PODERÁ ATÉ SER MANTIDA, COM FLUXO MAIS REDUZIDO, E DESTINADA ÀS CONEXÕES/TRANSFERÊNCIA DE MODAIS PARA A ÁREA CENTRAL, ZONA SUL E GRANDE TIJUCA, SE FOR OCASO.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *