Artigo – EMPATANDO TUA VISTA: HUMOR E IRREVERÊNCIA PARA CRITICAR A VERTICALIZAÇÃO EXCESSIVA NAS CIDADES, de Edinéa Alcântara

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Edinéa Alcântara é doutora em desenvolvimento urbano, pesquisadora do Laboratório de Estudos Peri-urbanos da UFPE, membro do grupo Direitos Urbanos, e uma das fundadoras da Troça Empatando tua Vista. O grupo fantasiado de edifícios altos misturou-se a blocos carnavalescos e, literalmente, “empatava a vista” de foliões, de construções antigas… da paisagem urbana na capital pernambucana. O texto UMA IRREVERÊNCIA CRIATIVA URBANO-RECIFENSE, publicado em meio à folia neste blog, teve número de visualizações recorde em curto espaço de tempo.

O artigo da professora Edinéa traduz a seriedade contida na sátira, pois, conforme suas palavras, O humor fortalece a resiliência, entendida aqui como habilidade de superar as adversidades de uma vida estressante; facilita a percepção de uma situação e muda o comportamento do sujeito, em um movimento liberador, cômico ou criativo. Diversão sadia e criativa, a críticaconstrutiva tem chamado atenção fora das divisas de Recife, e até do Brasil.

Diante dos desmandos sobre o uso do solo urbano – que, ao que se vê, não são privilégio do Rio de Janeiro – as considerações de Edinéa Alcântara ultrapassam o período carnavalesco. São mais do que pertinentes.

Boa leitura.

Urbe CaRioca
Troça Empatando tua Vista, no Bloco Os Barbas, no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros


EMPATANDO TUA VISTA: HUMOR E IRREVERÊNCIA PARA CRITICAR A VERTICALIZAÇÃO EXCESSIVA NAS CIDADES

Edinéa Alcântara, em 26/02/2014

É impressionante a repercussão da Troça Empatando tua Vista, um ato político-folião crítico à verticalização excessiva – no Recife. Vestidos de prismas de tecidos, simulando arranha-céus com projeto repetitivo, foliões buscam imitar o que vem acontecendo no Recife, onde a altura das torres é cada vez maior nos espaços de visão mais privilegiada: as frentes d’água.


A verticalização crescente devido à aprovação de projetos sem estudos de impacto ambiental sérios está atrelada à aliança entre o poder público e o capital imobiliário, decorrentes de compromissos de campanha e legitimados por uma legislação caduca e limitada, que pauta o planejamento urbano no lote individual. É o direito da propriedade privada acima do interesse público e da função social da terra. Tal legislação permite que um empreendimento privado, como o Projeto Novo Recife, formado por um complexo de 12 torres de 40 pavimentos seja erguido em um bairro histórico e em frentes d’água, buscando o desfrute das melhores vistas. A verticalização deve estar inserida em um contexto que a torne possível e não seja uma agressão à paisagem, como a do Cais José Estelita, retratada por Frans Post em gravuras do sécilo XVII, que marca nossa memória e identidade.

Como se não bastasse o acesso privilegiado a tais paisagens, busca-se várias formas de segregação e privatização: muralhas medievais cercam os condomínios e deixam o pedestre vulnerável nas ruas sem olhos para oferecer segurança; espaços públicos que afugentam quem queira desfrutar da paisagem, pois não são projetados para permanência, mas para contemplação dos próprios moradores dos condomínios ou por quem passa de carro. Além de se fecharem em seus altos muros, esses empreendimentos empatam a vista, empatam o sol na praia, empatam o vento, empatam a mobilidade, empatam a vida. Tudo isso tem crescido e gerado um sentimento de tristeza e de mal-estar. A falta de gentileza, de cordialidade e de respeito para com o outro revelam o stress das pessoas com a condição de vida na cidade.


Foi nesse contexto que moradores da cidade e militantes do Grupo Direitos Urbanos se juntaram a Claudio Tavares, para materializar essa ideia, concebida em 2013, para expressar indignação e tristeza com os rumos que o capital imobiliário tem se reproduzido na cidade.


Fundadores da Troça Empatando tua Vista, Igreja N. Sra. da Saúde,
no Poço da Panela, Recife. Foto: Leonardo Cisneiros


Dessa forma, a irreverência crítica da Troça Empatando tua Vista ganha as ruas e encontra eco no coração das pessoas. De forma bem-humorada e irreverente expõe as nossas feridas, as nossas mazelas, a nossa cidade doente. As pessoas sentem, se emocionam, expressam seus sentimentos de indignação, escrevem, fazem poesia, batem fotos, gravam, dançam, cantam, se vestem de torres, contribuem com dinheiro, com trabalho, com esperança… de resgatar a memória e a alma de uma cidade que se auto-destrói a cada dia. Aqui o passado não pode conviver com o futuro. Nas cidades do Velho Mundo, onde se sabe o valor que a história e a memória representam na vida das pessoas, o velho convive com o novo de forma harmoniosa e bela. Aqui  novo tem que esmagar e se sobrepor ao velho, como tem acontecido com várias casas que marcaram uma época e foram destruídas para dar lugar aos novos empreendimentos.


Empatando a rua. Foto: Manu Ubertino

Assim, só resta a brincadeira, só resta a sátira, só resta a irreverência para aliviar o sofrimento, o stress, o mal-estar no trânsito, nas ruas, o barulho crescente dos edifícios em construção, que congestionarão as ruas e empatarão mais a vista. O humor fortalece a resiliência, entendida aqui como habilidade de superar as adversidades de uma vida estressante; facilita a percepção de uma situação e muda o comportamento do sujeito, em um movimento liberador, cômico ou criativo. Alivia a dor e pode dar prazer quando se ri da própria sorte. É nesse amálgama de dor e de alegria, de indignação e esperança que pode estar o ponto de inflexão para percepção da cidade e do potencial de protagonismo de cada um. O carnaval catalisa tudo isso


No Bloco Amantes de Glória.
Foto Zezão Nóbrega

O sorriso, a empatia das pessoas, as palavras de aprovação à troça e toda a energia que vem da internet, das ruas, do povo… é restaurador, poderoso, transformador. Pois se constata que tem muito mais gente querendo uma cidade melhor para todos.


É uma catarse coletiva!

No Bloco Pisando na Jaca. Caboclo de Lança do Maracatu Rural.
Foto: Catarina Cabral


No total foram dez apresentações. Para mim, queiram ou não queiram os juízes… esse bloco já é campeãoEstamos lutando por uma cidade para as pessoas, com mais vida nas ruas, com mais espaço público para todo mundo e que todos tenham direito à vista das águas, dos monumentos, do céu, do por do sol, da lua, do mar, do rio, da rua, da vida… 

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COMENTÁRIOS

“Melhor mote carnavalesco envolvendo a palavra “amor”: Mais amor, menos concreto. Troça Carnavalesca Mista Público-Privada Empatando Tua Vista.
Papai do Céu, na próxima encarnação me faça pernambucana!”
“O melhor bloco dos últimos tempos!”
“bloco mais genial desse ano!”
O humor é demolidor e revolucionário. Parabéns a todos!”
“Vocês deveriam ganhar um prêmio de bloco mais criativo do ano!!”
“Todo dia me emociono com essa Troça…”
 “[…] achei genial o mote, o argumento e a expressão político-carnavalesca…”
 “Quando vi, há poucos dias, no Poço da Panela, a Troça “ Empatando a Tua Vista”, com uma sátira excelente, inteligente e educada, senti-me feliz. O Carnaval recifense, mesmo que de maneira fugaz e tímida, deu-me a impressão de que voltava no tempo. Os intelectuais romperam com o silêncio imposto pela ideologia do Politicamente Correto.”
 “Eu queria dizer que a troça ontem (no Som na Rural) foi a coisa mais linda do mundo. Ver pelo telão foi emocionante, porque não se via mais nada, além dos predinhos altos e do povo bem baixinho (bem síntese de Recife). O povo AMOU e o melhor foram as frases da noite: “deixa eu passar, seu predinho”.
“Estou amando essa troça […] Toda vez que leio sobre a repercussão que ela está tendo me emociono. […] Não estou aí com vocês, mas faço a minha contribuição de formiguinha, compartilhando e torcendo muito por vocês.”
“[…] passo aqui para dizer da alegria imensa de ver o espírito que tanto acredito ser o do D.U (Direitos Urbanos | Recife) estar tão lindo e cheio de vida nesse carnaval. Política é a melhor expressão da liberdade, da inteligência, da força dos irreverentes! Tá demais galera!”
“[…] uma maneira inteligente e humorada de chamar a atenção da população para uma realidade.”
Um grupo antenado com a alegria e a cidadania. Uma defesa da paisagem aviltada com esses prédios medíocres do Recife.”
“Fantástico. Finalmente algo inovador, revolucionário. Chega mesmo dessa prefeitura liberar a construção de tantos “arranha-céus” sem graça. Um amigo meu (europeu) veio o mês passado conhecer o Brasil (Recife especificamente) e achou muito sem graça a paisagem, tudo igual e excesso de “casas grandes”. Compartilho a nossa visão. Tudo muito desumanizado.”

No Som na Rural. Foto Nilton Pereira

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