SEMANA SANTA, PENSAMENTOS, PALAVRAS E OBRAS

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CrôniCaRioca


CRISTO REDENTOR
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Neste ano de 2014 fuji à regra. As terras cariocas me chamaram. Não foi a única mudança. Invariavelmente chove na Sexta-feira da Paixão. Hoje o céu do Rio de Janeiro está azul, límpido, daquela cor que o Criador escolheu para a minha cidade quando estava colorindo o mundo, sim, porque o Caos devia ser Preto e Branco com tons acinzentados e só depois de tudo pronto e organizado foi que Ele, certamente, escolheu o restante das cores.

Pois hoje o céu está azul-celeste, com uma névoa discreta que não compromete. Temperatura amena, brisa… Menos buzinas e engarrafamentos… Dá para apreciar a cidade melhor… A natureza que sobrou entre os volumes de concreto, ou afastada deles – o mar, as ilhas, os morros – ainda é exuberante, tomara assim continue, que a beleza e a fragilidade de certas regiões sejam protegidas e respeitadas.

Curiosamente, o artigo de Nelson Motta publicado no jornal O Globo de hoje  – Desconstruindo o novo Brasil – fez remeter ao texto de um ano atrás. Em SEMANA SANTA, SEMPRE EMPETRÓPOLIS o passeio pelo passado e pelas boas lembranças foi entremeado com as preocupações em relação à ocupação desordenada das encostas e margens de rios e, para além da responsabilidade de cada um, a omissão, ou ineficiência, ou conivência, ou até mesmo a impossibilidade de que os gestores públicos resolvam o problema habitacional no país, tal a magnitude que esse alcançou.

O articulista nos fala sobre empreiteiras que constroem o país e, paradoxalmente, o corroem por dentro, “como as maiores doadoras de campanhas eleitorais e maiores beneficiárias de obras públicas”. Ao final do artigo, depois de discorrer sobre vários aspectos correlatos, o jornalista, compositor e escritor – entre outros talentos – nos lembra de que “há empreiteiros vitoriosos e honestos”, ainda bem! E acrescenta que “ao contrário dos políticos, eles roubam, mas, ao menos, fazem”.

Não creio que haja algum tipo de aceitação nisso, mas, que seja apenas uma constatação. Pois, se não roubassem, muito mais fariam! Quanto aos políticos ladrões, esses deveriam estar presos, é claro! Quem rouba dinheiro público rouba de todos os contribuintes, rouba de escolas e de hospitais. Quantas obras mais teriam sido realizadas a favor da população? Quantas casas populares financiadas construídas em lugares seguros? Quantas contenções de encostas, obras de urbanização e infraestrutura? Quantos benefícios poderiam ter recebido Rio, Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, Xerém, e tantos outros Brasil afora, cidades e populações que sofrem na época das chuvas – águas que deram trégua nesta Semana Santa? E a assistência médica brasileira, eternamente precária? A lista é sem fim.

O artigo de Nelson Motta fez lembrar também de uma piada antiga, segundo a qual Deus e o Diabo, depois de, finalmente, fazerem as pazes, decidiram construir uma ponte ligando o Céu e o Inferno para estreitar as relações então apaziguadas. Cada um ficaria responsável pela execução de metade da obra. O tempo passava, a ponte que saia do Inferno, tomava corpo, e do pedaço que viria do céu, nem sinal… Até que o Demo ficou zangado e interpelou a Deus: “ Ô Deus, minha parte está praticamente pronta e não vejo nada acontecendo aí em cima! O que houve com a Sua Perfeição?”. E o Todo-Poderoso respondeu: “Desculpe-me pelo atraso, colega! Faz meses que procuro um empreiteiro aqui no Céu e até agora, não consegui nenhum!”.

Nestes dias santificados que chamam à reflexão, ficam as nossas esperanças de que um dia o Brasil melhore de verdade, não seja mais desconstruído, o Céu também receba empreiteiros vitoriosos e honestos, e os políticos pensem primeiro no interesse público e no bem-estar da população.

Boa Páscoa!

 

PAIXÃO DE CRISTO – ALEIJADINHO
Congonhas do Campo, Minas Gerais
Imagem: Flickr

Comentários:

  1. Andréa, governar é sempre um processo. É difícil que harmonizar vontades tão díspares em cabeças onde se reconhece que em cada uma há uma sentença. Educar, educar, educar, ainda assim não haveria unanimidade. Parece então que estamos a caminhar como estamos e cabe ao diverso interferir para modificar. Saberemos do bom ou ruim sempre em perspectiva do já acontecido. Cadê o livro do passado onde análises diriam das bondades de governanças?
    Então é assim que é, e sem esquecer, a bronca deverá sempre ser livre, esta constrói entendimentos.

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