Artigo: ESTÁDIOS E O LEGADO DA COPA DO MUNDO FIFA 2014, de Ephim Shluger

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O arquiteto, urbanista e atual Vice-Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil IAB-RJ, Ephim Shluger, traça um panorama do ponto de vista urbanístico sobre o conjunto de ações do poder público – sob os critérios estabelecidos pela FIFA – para a realização da Copa do Mundo 2014 no Brasil. Entre outros aspectos analisa as perspectivas sobre possíveis melhorias para a população em decorrência, por exemplo, de projetos para promover a mobilidade urbana nas capitais escolhidas para receberem os jogos. Se, por um lado, nos dá conta de que foram aplicados critérios de sustentabilidade nas obras dos estádios, por outro aponta a ausência dos debates públicos e, até aqui, a existência de “impactos sócio-ambientais e estéticos preocupantes”.
NOTA: O artigo foi publicado originalmente no Jornal Peru Molhado que circula na cidade de Búzios.
Boa leitura.
Urbe CaRioca
 

ESTÁDIO DO MARACANÃ
Após a reforma realizada para a Copa do Mundo de 2014
foto: Wikimedia

Estádios e o legado da Copa do Mundo FIFA 2014
Por Ephim Shluger (*)
O maior legado de uma Copa, sem dúvida, é a nossa seleção conquistar o título de campeã do mundo. Esta é a perspectiva unânime, desde o torcedor comum ao mais fanático do futebol. Mas, para os organizadores locais da Copa do Mundo, o desafio maior era conseguir concluir, a tempo, todas as obras dos estádios e da infraestrutura de mobilidade urbana para o transporte público coletivo e para o transporte individual não-motorizado – incluindo ciclovias e calçadas para os pedestres chegarem e saírem dos estádios, segundo as diretrizes e critérios funcionais estabelecidos entre a FIFA e nossas autoridades públicas na matriz de responsabilidades.

Para a Copa do Mundo que está sendo disputada, o Brasil optou por sediar os jogos em 12 capitais, sendo que em quatro destas localidades não havia, anteriormente, estádios com a capacidade e os serviços exigidos pela entidade organizadora a FIFA. Portanto, tiveram que ser erguidos estádios novos. Nas demais cidades, os estádios existentes tiveram de ser reformados, e isso foi realizado a um custo total estimado de 9 bilhões de reais, segundo uma estimativa do Instituto Ethos.

Os elevados gastos públicos com a realização da Copa do Mundo logo suscitaram manifestações populares, com diferentes cores e matizes – desde os mais radicais, com slogans “Não teremos Copa” e “Go Home FIFA”, até os que questionaram as licitações das obras dos estádios, as modificações injustificáveis nos projetos e os recorrentes Termos Aditivos, engordando os contratos das empreiteiras e das empresas terceirizadas. Observadores mais atentos apontam que a falta de planejamento e de ações mais coordenadas entre os órgãos nacionais e locais, responsáveis pelo lançamento de editais e pela contratação de consórcios de empresas construtoras, resultaram em atrasos na execução dos projetos executivos e das obras. Como consequência, quase a totalidade dessas obras tiveram de ser modificadas no decorrer de sua realização.

Essa inadequação e ineficiência, cuja origem é detectada na excessiva flexibilização da legislação urbana para um regime de exceção, imposta pela FIFA e aceita sem debate ou consulta publica com órgãos representando arquitetos, urbanistas e engenheiros civis pelas autoridades públicas responsáveis, resultou em estruturas sem grandes inovações e na maior parte. 

Também não foi dada importância devida ao desenho urbano e à inserção dos estádios nos respectivos entornos, como no caso de Natal, Cuiabá, Manaus e São Paulo. As arenas localizadas próximos de bairros residenciais da periferia com precária provisão de serviços públicos urbanos, equipamentos socais e mobilidade, poderiam contribuir para melhorar a qualidade dos mesmos, mas por enquanto apontam para a outra direção a notar: os impactos sócio-ambientais e estéticos preocupantes. 
ESTÁDIO DO MARACANÃ
Instalação da cobertura que substituiu a marquise de concreto
foto: netvasco.com
O caso mais emblemático é o do Estádio do Maracanã no Rio, construído para sediar a Copa do Mundo de 1950, que era o orgulho da arquitetura e engenharia brasileiras, palco de memoráveis jogos de futebol, uma espécie de ícone para o imaginário carioca e um dos destinos mais procurado pelos visitantes e turistas. Ao completar seus 60 anos, o estádio, que era tombado pelos órgãos de proteção de patrimônio histórico e cultural, não atendia às condições de segurança e conforto atualmente preconizadas pela FIFA. Por outro lado, a sua imponente estrutura, erguida em concreto armado, viria a sofrer com tempo as deformações estruturais, exigindo intervenções, como a demolição da sua antiga marquise, substituída por uma leve treliça em aço inox, coberta por teflontransparente de alta resistência – um sistema com design e fabricação alemã. Novas passarelas e camarotes VIP, sistema de transmissão a cabo, sonorização e iluminação LED foram acrescidas na planilha das reformas, além de espaços mais amplos para a cobertura dos jogos, acomodando jornalistas da mídia internacional e permitindo a transmissão dos jogos em tempo real para cerca de 3 bilhões de telespectadores no mundo todo.  Um recorde de audiência batido, pois em países, como os Estados Unidos em que o futebol não é o esporte de preferência nacional, chegou a 50 milhões de telespectadores.

Nas obras dos demais estádios, agora denominados de arenas, acenando com outros possíveis usos além do futebol, foram adotados critérios de sustentabilidade, como o armazenamento e reuso da água pluvial para fins não potáveis – incluindo a rega do gramado e jardins, lavagem do estádio e descargas; captação de energia solar através de placas fotovoltaicas na cobertura, para geração de energia elétrica, e uso de materiais e equipamentos de construção com menor pegada de carbono.

No caso do Mineirão localizado na Pampulha, periferia de Belo Horizonte, o estádio precisou ser totalmente reconstruído. Foi preciso demolir a obra e começar do zero, preservando apenas o centro do gramado. O balanço final é que o custo da obra ficou em R$ 1,015 bilhões.  Lá as obras de infraestrutura autorodoviária e o sistema de mobilidade, em construção, não ficaram prontas para atender à demanda efetiva do público para os jogos.

A Arena Pantanal, de Cuiabá, também teve que fazer uma série de reformas para se adequar às exigências da FIFA. Tendo a capacidade de 27 mil assentos, um dos desafios colocados aos arquitetos foi o mínimo de 40 mil lugares nas arquibancadas. A solução encontrada foi acoplar arquibancadas metálicas e parafusadas, o que aumentou o número de lugares para 44.336. Para receber tanta gente, medidas de melhoria do sistema de circulação foram essenciais: placas de PVC foram acopladas às arquibancadas para refletir os raios solares, telas de aço foram inseridas nas laterais do estádio para permitir ventilação natural de ar e o plantio de árvores adaptáveis ao clima da região.
 
Alternativas semelhantes foram implantadas no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, DF. Com disponibilidade para receber 72 mil torcedores, ele conta com cinco cisternas com a capacidade de armazenarem oito milhões de litros de água. O estádio também foi dotado de um anel com placas fotovoltaicas que gerará energia para abastecê-lo, produzindo ainda um excedente que será utilizado para reforçar a capacidade do reservatório de Brasília.

Uma diferença fundamental entre as obras está na concepção de seus planos financeiros de construção e provisão/instalação de equipamentos. Enquanto o Mané Garrincha e a Arena Pantanal foram construídas com fundos públicos, o contrato para reforma do Mineirão foi na forma de parceria público-privada (PPP). Foi aberta uma licitação para uma empresa privada construir e gerir o estádio. Em troca, o governo paga um valor mensal a essa empresa, correspondente aos gastos com a construção e manutenção. Depois de 27 anos, a obra voltará às mãos do Estado, que passará a administrá-lo. Entre as vantagens desse sistema, apontadas por especialistas, é a dinâmica mais rápida para a construção (já que a empresa não precisa recorrer a licitações para contratar todo e qualquer serviço), além de o governo não ter que desembolsar, de uma vez só, o valor da obra.

Já o Maracanã foi construído com recursos públicos, e foi feita a cessão (leasing), através de licitação pública, num sistema conhecido como BTO (build, transfer and operate). O consórcio vencedor será responsável pela programação do novo estádio para eventos desportivos e também para realização de eventos culturais e artísticos, tendo assegurado um contrato de longa duração.

Agora, temos a Copa do Mundo acontecendo nestes novos estádios. 

O legado construído será avaliado nos anos vindouros, dado que, na pressa para iniciar as obras, foram relegadas a segundo plano a implantação de métricas e instrumentos de avaliação técnica – indicadores de desempenho funcional, econômico e de satisfação do público torcedor. Faltou, também, nesses processos, o debate público entre os gestores públicos, arquitetos, urbanistas, engenheiros e a população em geral, interessada no futuro desenvolvimento, que busque resgatar a qualidade de vida das nossas cidades que receberam o vultuoso investimento para sediar a Copa do Mundo-FIFA 2014.

Neste momento, resta-nos torcer por nossa seleção, esperando que volte a brilhar nos gramados, jogando bem e avançando nesta etapa de competição. Que consigamos reacender a combalida alegria do povo brasileiro e mostremos ao mundo nosso peculiar futebol-arte, com a nossa singela improvisação criativa nos novos gramados, e que possamos também fazer refletir e aprofundar o entendimento do legado deste megaevento.

Os elefantes brancos somente aparecem na paisagem quando a sociedade como um todo não se organiza e não constrói coletivamente o projeto de futuro da sua cidade.

A consequência já conhecemos: investimentos públicos definidos sem visibilidade, desperdícios e oportunidades perdidas por toda a sociedade.     


(*) Ephim Shluger é arquiteto e urbanista carioca.

ESTÁDIO DO MARACANÃ
Antes da reforma realizada para a Copa do Mundo de 2014
foto: Wikimedia

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