CINEMA LEBLON REABERTO E O DEDO DO ESTADO

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_Ué! O cinema está funcionando? Mas tinha fechado!
_É, mas abriu…
_Por que fechou?
_(…Silêncio e dar de ombros).
_Por que abriu?
_Porque o prefeito mandou.
Diálogo entre senhorzinho que passeava pelo
 Leblon e um funcionário do cinema recém-aberto.
Cinema Leblon, julho 2014
Foto: Urbe CaRioca

O Grupo Severiano Ribeiro cumpriu a palavra. Após reunião entre ditos representantes de algumas instituições com o prefeito do Rio e este anunciar que interviria no caso – para evitar o encerramento da atividade deficitária, motivo alegado pelos proprietários – no último dia 17 o cinema reabriu as portas cerradas cerca de duas semanas antes (reportagem a respeito – Jornal O Globo, 08/07/2014).

Depois do suposto aluguel para uma loja de roupas femininas, do espaço onde funciona o Cinema Leblon, como já explicado neste blog, os donos dispõem-se a manter a atividade em funcionamento Desde Que o governo municipal libere no local a construção de um edifício comercial com sete ou cinco andares, sobre a construção existente – ver CINE LEBLON – MOCINHOS, VILÕES, CHANCHADAS, e INCERTEZA.

 

A proposta antes levada ao setor de Patrimônio Cultural da Prefeitura pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro – SINDUSCON – foi rejeitada por unanimidade pelos órgãos de tutela no dia 26/06/2014, os quais, entretanto, consideram possível acrescentar um andar ao prédio, que poderia ser adaptado para receber livraria, restaurantes e cafés, também intenção configurada no projeto – ver CINEMA LEBLON – O PROJETO REJEITADO PELO PATRIMÔNIO CULTURAL.





Não obstante o parecer do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural da Cidade, segundo a mesma notícia o Prefeito pretende ‘destombar’ o imóvel protegido desde 2001 e integrante da Área de Proteção do Ambiente Cultural–APAC do bairro, destombamento que “permitirá a construção de uma garagem subterrânea e um prédio comercial no terreno, para viabilizar financeiramente a manutenção do espaço de projeção”, o que, obviamente, não garantirá a manutenção dos cinemas pelos motivos também devidamente esclarecidos no artigo CINE LEBLON – MOCINHOS, VILÕES, CHANCHADAS, e INCERTEZA antes mencionado.

Do ponto de vista urbanístico não há dúvidas de que o cinema deve ser mantido. É bom para a animação do bairro, atrai outros negócios. Por outro lado, a “interferência” do poder público em questões privadas – tema complexo – é praxe nesta administração muitas vezes questionável, ainda que o objetivo seja nobre: manter vivas atividades tradicionais e culturalmente importantes para cidade. Comprovar o interesse público para justificar o uso de verbas públicas, porém, é tarefa carregada de subjetividade.
O caso da Rua da Carioca é emblemático – v. RUA DA CARIOCA: BAR LUIZ, SIM, VESÚVIO e A GUITARRA DE PRATA, NÃO*. Recentemente foi noticiado o fechamento de 15 das 60 lojas da região, devido à alta nos aluguéis. Portanto, a “desapropriação” de oito dos dezoitos prédios comprados pelo Fundo Opportunity sinalizada pelo decreto, invade um problema entre locadores e locatários que não é exclusivo daquela rua. O ato, questionável e de eficácia duvidosa, desconsidera o momento do mercado atual, com aumento expressivo dos aluguéis na cidade, contra o que o poder público nada pode fazer.

 

Bem próximo dali ficava a Confeitaria Manon, também em um sobrado preservado, fechada devido ao elevado preço do aluguel. Se o prefeito também declarasse o imóvel ‘de utilidade pública para fins de desapropriação’ adiaria questões judiciais entre terceiros durante até cinco anos, prazo limite para efetuar a compra, como fez para a Antiga Fábrica Bhering de Chocolates, a Gafieira Estudantina, e os referidos imóveis da Rua da Carioca pertencentes ao Opportunity, o que não poderá repetir para todas as atividades econômicas ameaçadas de acabar. Está claro que as desapropriações em si, se ocorrerem, não resolvem o problema, cujo pano de fundo é o interesse comercial.


 

Placa fixada na fachada do Cinema Leblon
Foto: Urbe CaRioca
Voltando ao Cinema Leblon, se o prefeito insistir em revogar o destombamento e os critérios de proteção do patrimônio, a presença do Estado com subsídios à iniciativa privada para esse imóvel, não será inédita. O Governo Estadual há tempos aloca recursos para o Cinema Leblon, entre outros, inclusive do Grupo LSR/Kinoplex, como comprovam a placa fixada na fachada e inúmeras publicações no Diário Oficial do Estado.

Secretaria de Estado de Cultura
ATO DA SECRETÁRIA – RESOLUÇÃO SEC N° 295 DE 19 DE MAIO DE 2010
ALTERA A COMPOSIÇÃO DA COMISSÃO DE AVALIAÇÃO DE PROJETOS DO PREMIO ESTÍMULO À EXIBIÇÃO DO CINEMA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO- PEEC RJ 2009.
A SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, no uso das atribuições legais, RESOLVE:
Art. 1º- A Comissão de Avaliação de Projetos do Prêmio Estímulo à Exibição do Cinema do Estado do Rio de Janeiro – PEEC RJ 2009 passa a ser integrada pela servidora THAIANA HALFED GOMES, matrícula nº 954.747-2, como membro titular, em substituição a Ronaldo Leite Pacheco Amaral.
Art. 2º- A suplência da referida Comissão passa a ser exercida apenas pelas servidoras Julia de Almeida Maciel Levy Tavares, matrícula nº 946.885-1, e Tatiana Leite Cavalcanti de Albuquerque, matrícula nº 949.724-9.
Art. 3º– Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
Rio de Janeiro, 19 de maio de 2010
ADRIANA SCORZELLI RATTES
Secretaria de Estado de Cultura
Id: 960727
DESPACHO DA SECRETÁRIA DE 20/05/2010
Processo nº E-18/000.838/2010 – AUTORIZO, na forma constante às fls. 54.
Id: 961807
ATA DA SESSÃO PÚBLICA PARA APROVAÇÃO DA PROPOSTA DE DESTINAÇÃO DE RECURSOS DO PRÊMIO ESTÍMULO À EXIBIÇÃO DE CINEMA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 2009 – PEEC RJ 2009
Às dez horas do dia dezenove de maio de dois mil e dez, reuniram-se na Secretaria de Estado de Cultura, localizada na Rua da Ajuda, n°5/13º andar – Centro – Rio de Janeiro, os membros da comissão de avaliação de projetos – nomeados pela Resolução SEC Nº 275, de 11 de dezembro de 2009 – da Chamada Pública do Prêmio Estímulo à Exibição de Cinema do Estado do Rio de Janeiro 2009 – PEEC RJ 2009, prêmio instituído pela Resolução SEC Nº 272, publicada no DOERJ no dia 04 de dezembro de 2009, com o objetivo de examinar a documentação apresentada pela exibidora proponente, Empresas de Cinema São Luiz SA, para o Projeto de Destinação de Recursos do PEEC-RJ 2009. Presentes os membros da Comissão: Angélica de Oliveira Silva, Gisella Cardoso Franco e Thaiana Halfed Gomes. Confirmamos que a proponente enviou toda a documentação requerida pelo presente edital em seu Anexo “E” e irá destinar o valor de R$ 56.603,77 (cinquenta e seis mil seiscentos e três reais e setenta e sete centavos), referente a totalidade do prêmio, à execução do projeto “Troca de ar condicionado do Cine Leblon”. Encerrado o trabalho de exame da documentação e consignando os dados supra, segue a presente Ata assinada pelos integrantes da Comissão para sua publicação no DOE-RJ:
Angélica de Oliveira Silva Gisella Cardoso Franco Thaiana Halfed Gomes
(…)
ATA DA SESSÃO PÚBLICA PARA APROVAÇÃO DA PROPOSTA DE DESTINAÇÃO DE RECURSOS DO PRÊMIO ESTÍMULO À EXIBIÇÃO DE CINEMA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 2009 – PEEC RJ 2009
Às doze horas do dia dezenove de maio de dois mil e dez, reuniram-se na Secretaria de Estado de Cultura, localizada na Rua da Ajuda n°5/13º andar – Centro – Rio de Janeiro, os membros da comissão de avaliação de projetos – nomeados pela Resolução SEC Nº275 de 11 de dezembro de 2009 – da Chamada Pública do Prêmio Estímulo à Exibição de Cinema do Estado do Rio de Janeiro 2009 – PEEC RJ 2009, prêmio instituído pela Resolução SEC Nº 272 publicada no DOERJ no dia 04 de dezembro de 2009, com o objetivo de examinar a documentação apresentada pela exibidora proponente, Ponto das Artes de Anchieta LTDA (Ponto Cine), para o Projeto de Destinação de Recursos do PEECRJ 2009. Presentes os membros da Comissão: Angélica de Oliveira Silva, Gisella Cardoso Franco e Thaiana Halfed Gomes. Confirmamos que a proponente enviou toda a documentação requerida pelo presente edital em seu Anexo “E” e irá destinar o valor de R$ 56.603,77 (cinquenta e seis mil seiscentos e três reais e setenta e sete centavos), referente a totalidade do prêmio, à execução do projeto “Automação de bilheteria, iluminação cênica, manutenção elétrica e aquisição de equipamentos” condicionado do Cine Leblon”. Encerrado o trabalho de exame da documentação e consignando os dados supra, segue a presente Ata assinada pelos integrantes da Comissão para sua publicação no DOE-RJ:
Angélica de Oliveira Silva Gisella Cardoso Franco Thaiana Halfed Gomes


Ora, se o empresário não tem condições nem mesmo de consertar o ar-condicionado das suas salas de projeção, é de indagar-se com que competência manterá os novos cinemas e até quando, a não ser que continue contando com a benevolência dos governantes e a permanente injeção de verba pública. Já o prédio comercial, realizado o lucro será passado e permanecerá até ser substituído, talvez após um novo aumento de gabarito.

No momento os “recursos” a serem alocados pela prefeitura estão travestidos de mudanças nas normas vigentes e critérios de proteção a serem feitas especialmente para um proprietário e um único imóvel. Mais uma promessa de campanha será descumprida: não modificar as APACs.

Estranho capitalismo. Sempre o gabarito.

Cinema Leblon, 1951
Internet

Comentários:

  1. Olá Andrea,
    O cinema Leblon fará muita falta, entretanto essa política de que para alguns tudo é possível e para outros a lei é de uma injustiça tremenda. Costumo me perguntar para quê servem as consultas ao conselho do Patrimônio, visto que as suas ponderações não são acatadas.
    Marbel Klein

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