FRIO NO RIO, de Claudia Madureira

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this page
CrôniCaRioca
Claudia Madureira é arquiteta e apaixonada pelo Rio de Janeiro. 

Participou de vários trabalhos, na área de urbanismo, durante carreira profissional dedicada ao setor público municipal.

Em suas palavras “uma andarilha”, reflete sobre a cidade nesta crônica “urbano-carioca” repleta de poesia, alguma preocupação e, sempre, esperança, escrita dois dias antes do início do Inverno ao sul do Equador.

Urbe CaRioca
Céu rosado, final de um dia no Rio de Janeiro.
Foto: Claudia Madureira, maio/2015


FRIO NO RIO

Essa é uma noite daquelas em que cariocas usam seus casacos cheirando a naftalina e cachecóis e comem fondue. Sim para os cariocas, faz frio esta noite. Dezoito graus, nosso limite antes das botas e casacos pesados. Pois eu sinto a noite benfazeja e tento pensar em coisas amenas, ainda que as notícias só apontem as más. Tento sentir um frio raro em minhas costelas e me consolo.

Sou uma andarilha. Percorro minhas vizinhanças como poucos. Vejo o alvoroço ou a calma da cidade. Apenas testemunho. Sou ninguém. Os dias se sucedem e as coisas mudam, como a intensidade das marés e ondas, como mudam os moradores dos bairros e os moradores nas ruas, que se alastram. Fico me perguntando de onde vêm, como nas épocas em que pesquisava isso para propostas no Plano Diretor, pensando em habitações para baixa renda, em 1988/89.

Havia então uma grande esperança. Éramos jovens, recém-admitidos na Prefeitura, após uma luta intensa por um concurso público, da qual não tenho o menor pejo em dizer que, a princípio, foi liderada por mim. Muitos arquitetos e engenheiros ali estão até hoje por conta disso.

Penso no quanto debatemos, buscando uma legislação socialmente mais correta, há mais de 25 anos. Quantos instrumentos urbanísticos propusemos para garantir uma cidade mais justa!

Em vão.

Vemos hoje um deles sendo usado de forma inadequada para um Porto que não pensa a população existente, nem como se poderiam aproveitar imóveis como imensos galpões ou sobrados para usos diversos e moradias populares.

Hoje rendo minhas homenagens aos sobreviventes de tantas operações, além de injustas, injustificáveis, em nosso ambiente urbano. Não consigo deixar de ser urbanista, apesar de minha aposentadoria. A cidade me encanta e me aflige, como explosão das relações humanas.

Continuo sonhando com uma cidade e um mundo melhores.

Claudia Madureira, 19/06/2015




“No tempo em que andei longe destas beiras, o mar andou lambendo areias. Praia curta, mar de cristal e cardumes. Água na temperatura certa. 
Contraste num circo voador em remontagem, onde começou, anos oitenta. Fui frequentadora, mas hoje não acho boa idéia. Fecha a visão da Praia do Diabo e do outro lado das praias de Niteroi. Mania de tapar as vistas nesse Rio que nos oferece uma natureza tão generosa.”

Fotos: Claudia Madureira, 08/06/2015



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *