AS ÁRVORES E O BURGOMESTRE LENHADOR

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Uma fábula urbano-carioca

Canagé Vilhena
Era uma vez um burgomestre que não gostava de árvores. No ano de 2015 ele comandava u’a mui leal e heroica cidade situada no Hemisfério Sul do mundo, fundada 450 anos antes por portugueses entre morros belíssimos que lembravam um pão-de-açúcar e a cara de um cão, às margens da também belíssima e então despoluída baía que banhava aquela terra maravilhosa com águas cristalinas.

Para atingir os objetivos políticos que almejava – comandar cada vez mais e mais reinos – o burgomestre queria realizar obras em toda a urbi, para que todos vissem suas realizações. Porém, para fazê-las, era necessário cortar muitas árvores. O único problema era que no Século XXI crescia a preocupação com o aquecimento do planeta, havia manifestações em defesa da natureza em toda a orbi, e cortar árvores só fazia a situação agravar-se muito!


Por ironia, o mesmo burgomestre, a esta altura já apelidado “O Lenhador”, desde 2013 dirigia um clã de grandes líderes aflitos, outros tantos burgomestres que se reuniam para resolver como impedir que a temperatura da Terra continuasse a aumentar devido às emissões de gases malvados e tóxicos que contribuíam para um calor cada vez mais insuportável. Assim, não ficaria bem o burgomestre sair por ali com seu machado cortando as poucas árvores que haviam sobrado da mata original depois do crescimento espetacular daquela urbidurante quatro séculos e meio.

Então o esperto homem teve uma ideia. Como a cidade havia sido escolhida para receber uma festa mundial em 2016, ele passou a dizer que tudo o que fazia era por uma nobre causa – a realização do tal eventoe que o burgo ficaria muito melhor depois das contendas nas arenas, baía e lagoas da terra que comandava, graças às obras. Por isso, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, árvores foram ao chão, vegetação de restinga foi arrancada, manguezais foram destruídos, e até parques públicos foram mutilados.

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Para ele mal não havia, pois tudo seria para a grande festa que uniria as gentes de todos os reinos – cabeças coroadas, mecenas, investidores, financiadores, e esportistas – em jogos mais do que vorazes. Disse ainda que mandara plantar muita grama e algumas plantinhas afirmando que compensariam a vegetação eliminada, estórias da carochinha incapazes de convencer o mais crédulo citadino pagador de impostos.



O que o esperto burgomestre não poderia imaginar é que a Mãe Natureza – que, como toda boa mãe, vinha lhe dando conselhos há tempos e ele ignorava – se zangara com tantas desfeitas. Sim, Mãe Natureza observava a destruição desde o início, pacientemente e sem reagir, pois sabia que o Criador de Tudo, que a havia criado e também todos os homens, dera a todos o livre arbítrio: nada havia a fazer.

Até que em uma madrugada chuvosa, passeando na cidade, ainda tão bela, Mãe Natureza viu algo que a fez se lembrar das queridas árvores que não mais viviam. Era uma outra árvore, enorme e iluminada, bela e estranha, colorida, nem verde nem florida, que flutuava na lagoa em forma de coração.

Então aquela força superior se decidiu: se o que levara séculos para fazer havia sido destruído sem dó pela mão dos homens, o que o homem moderno fizera em poucos meses também não ficaria de pé.

E soprou, soprou, soprou! Soprou com tanta força, que a árvore de ferro se dobrou, partiu-se em duas, e dela quase nada sobrou!

Foi assim que tudo se passou, e a fábula acabou.


FIM


A ventania da madrugada de sexta-feira derrubou parte da Árvore da Lagoa. Inauguração que seria no dia 28 foi adiada

Foto: Ernesto Carriço / Agência O Dia

NOTA: Nos últimos anos, entre tantas ações “Pra Olimpíada”, leis que permitiram o aumento desenfreado de índices construtivos e a alteração de índices urbanísticos, a abertura de novas linhas expressas voltadas para o modal BRT, medidas que tiveram como pano de fundo os Jogos e beneficiaram sobremaneira o mercado imobiliário, foram acompanhados de inúmeros desmatamentos das poucas áreas verdes que sobraram na Cidade do Rio de Janeiro. A destruição da Árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas por ventania na madrugada de sexta-feira, 20 de novembro de 2015, levou à associação inevitável que deu origem a mais uma fábula urbano-carioca. Lamentamos a perda da Árvore da Lagoa, e das árvores de verdade ceifadas em nome das Olimpíadas.

Urbe CaRioca
MARINA DA GLÓRIA, Parque do Flamengo, Rio de Janeiro
Foto: Valéria H. Goldfeld, 
09/01/2015

Alguns cortes de árvores e desmatamentos realizados sem cerimônia

Parque Municipal Ecológico MarapendiGOLFE – MUITAS FACES, UMA SÓ MOEDAEXTRA! EXTRA! PÃO DE AÇÚCAR SERÁ DEMOLIDO! O CAMPO DE GOLFE DITO OLÍMPICO E A CORUJA-BURAQUEIRA

DeodoroNOTÍCIAS – 05/09/2013: Guaratiba, BRS, Zona Portuária, Santa Teresa e Deodoro

Floresta da Tijuca – desmatamento para construção de complexo comercial, centro de convenções e estacionamentos no antigo Hotel PaineirasCOMPLEXO PAINEIRAS – OUTRA OBRA POLÊMICA ‘VAI-E-VOLTA’

Marina da GlóriaMARINA DA GLÓRIA: LICENÇA PARA MATAR ÁRVORES, de Canagé Vilhena

Praça Nossa Senhora da Paz e Praça Antero de Quental – obras da Linha 1 do Metrô, apelidada de Linha 4.

Desmatamento para obras da Transcarioca causa preocupação na Barra da Tijuca – O Globo 08/10/2011

Moradores do Recreio se queixam da retirada de árvores paraobras do BRT – Jornal do Brasil on line  31/10/2014

Não à devastação ambiental na Ilha do Governador – abaixo-assinado pede que a Prefeitura pare a retirada de árvores na Ilha do Governador

2 thoughts on “AS ÁRVORES E O BURGOMESTRE LENHADOR

  1. Muito bom Andréa, a fábula traduz o nosso enorme descontentamento com atitudes que não levam em conta o meio ambiente e com o desprezo pela opinião dos habitantes da cidade. Não desejamos que nossas vidas sejam ameaçadas por gases, na mediada em que perdemos a proteção devido ao desmatamento.
    Aliás, quando houve o temporal, há algum tempo atrás, na rua em que resido três enormes árvores tombaram, outras estão ameaçadas. No lugar delas, um chão todo quebrado com um cercadinho pata as pessoas não caírem no buraco. O plantio de outra árvore deve estar sendo programada para o próximo século século.

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