TAMANHO É DOCUMENTO, de Sérgio Magalhães

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Terminamos 2015 desejando que o ano seguinte trouxesse boas notícias, mote para a postagem QUE 2016 TRAGA BOAS NOTÍCIAS PARA A URBE CARIOCA! Por isso escolhemos reproduzir o artigo do arquiteto e professor Sérgio Magalhães, colunista do jornal O Globo, publicado ontem nesse jornal, por ser pleno de otimismo. O autor avalia que “entre as obras do prefeito (…) a derrubada do elevado da Perimetral seja a de maior potencial positivo para a cidade”.


Conforme já comentamos neste blog, sem considerar outras prioridades para o Rio de Janeiro, ou os reflexos para o já caótico trânsito da cidade, concordamos com a visão apresentada. Curiosamente, a demolição de outra obra – de pequeno porte e que jamais deveria ter sido erguida – requalificou o trecho de Ipanema conhecido por Bar 20, onde o bonde elétrico fazia a volta até ser desativado: a inexplicável passarela pela qual nunca alguém passou (Fotos: Urbe CaRioca).



Para continuar com os ditados às avessas, muitas vezes ‘Menos é Mais’, máximaatribuída ao arquiteto Mies van der Rohe. Do ponto de vista da paisagem urbana, sem o Elevado da Perimetral e a Passarela do Conde o Rio ficou “mais”, com “menos” interferências expressivamente negativas.

Que saia também o Elevado Engenheiro Freyssinet, construído sobre a antes belíssima Avenida Paulo de Frontin.


Boa Leitura.

Urbe CaRioca




Sérgio Magalhães



artesanum

Nos menores frascos o melhor perfume, diz o ditado.


O recente livro de Ruy Castro, “A noite do meu bem”, esmiúça o mundo do samba-canção, nos anos 1940-1950, localizado em Copacabana. Ruy nomeou 55 lugares, do Leme ao Posto 6, onde se ouvia, ao vivo, a música que embalou o Brasil no período e fez emergir artistas como Elizeth, Dolores Duran, Maysa, Dóris Monteiro, Tom e muitos mais. Talvez seja o espaço urbano mais denso de música, quiçá até mais do que o reconhecido bairro francês de New Orleans.


Entre as obras do prefeito Eduardo Paes, avalio que a derrubada do elevado da Perimetral seja a de maior potencial positivo para a cidade. Imagine, ainda, se a Vila da Mídia tivesse sido construída: cinco mil apartamentos, o Porto com o selo olímpico, estimulando a ocupação da área.

Ao admitir derrubar o elevado, o projeto Porto Maravilha viabilizou o aproveitamento da área portuária para novos usos e, em cascata, o FGTS financiou a nova infraestrutura. A Praça Mauá ressurgiu com o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã a consolida como polo de cultura. Oxalá o edifício d’A Noite, o primeiro arranha-céu, seja recuperado em breve. Também viabilizou o VLT, que poderá restaurar a ambiência da Rio Branco, principal avenida da metrópole, hoje prejudicada pelo pesado fluxo de ônibus.

De mar a mar, da Mauá ao MAM, são dois quilômetros. (Dois quilômetros equivalem à metade da Praia de Copacabana.)

É o espaço brasileiro mais denso de cultura, de história e de patrimônio, com enorme vitalidade política e econômica. Vejamos: Teatro Municipal, Biblioteca Nacional, Museu de Belas Artes, Câmara de Vereadores, clubes Militar, Naval e de Engenharia, Casa França-Brasil, CCBB, Museu dos Correios, MAR, Museu do Amanhã e MAM. Ele articula ainda: sede da Petrobras, sede do BNDES, Convento de Santo Antônio, Largo de São Francisco, Palácio Capanema, Academia Brasileira de Letras, Passeio Público, Monumento aos Pracinhas, Aterro do Flamengo, Aeroporto Santos Dumont, Museu Histórico, Mosteiro de São Bento, Palácio Tiradentes e Paço Imperial (a derrubada livrou a Praça XV da submissão espacial imposta pelo elevado por 50 anos). 

E a multiplicidade cultural da Lapa, do Morro da Conceição, da Sacadura Cabral e adjacências.

Esse elenco dá a dimensão simbólica do coração do Grande Rio — que ocupa área equivalente à metade de Copacabana.

A recuperação do Centro carrega consigo a possibilidade de redefinição de toda a região central do Rio, de Benfica-São Cristóvão à Glória, que compõe um polígono urbanístico com superfície equivalente a toda a ocupação da Zona Sul. Nesse polígono, há muita área ociosa, terrenos degradados e galpões abandonados que devem ser revertidos em bens úteis aos cidadãos. Ele pede um projeto de alta qualidade, respeitoso das preexistências e aberto a novos desenhos. É para essa área central que o Rio precisa voltar sua atenção na oferta de equipamentos habitacionais para todas as rendas, novas oportunidades de trabalho e elevado padrão ambiental.

Será um vetor urbanístico que contrabalançará a tônica expansionista típica do rodoviarismo imposto à cidade brasileira. Já que a população não cresce, a cidade não precisa (e não deve) se expandir. Quanto mais área, mais inviável se torna. Neste caso, tamanho é documento.

O samba-canção é pré-JK e pré-rodoviarismo. Já a Perimetral é da era JK e é filha do rodoviarismo. A sua derrubada evidenciou o desejo de novos padrões urbanos. E demonstrou que é possível recuperar áreas degradadas. Será o Rio pós-olímpico?

(A propósito: é no Centro que o IAB, com as entidades de arquitetura e de urbanismo do país, organizará o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, o maior evento de arquitetura do mundo, a ser realizado no Rio, em 2020 — pela primeira vez no Brasil, na América do Sul após 52 anos.)
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A todos, desejo que 2016 nos surpreenda: seja de paz e de prosperidade.

Sérgio Magalhães é arquiteto

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