PASSEIO PÚBLICO – DE OÁSIS A TERRA DE NINGUÉM

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Andréa Redondo
Moradores de rua se banham e estendem roupas às margens do lago artificial: água está imunda, e local deixou de ser frequentado por famílias.
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Reproduzido por este blog de reportagem publicada em 20/03/2016.
A reportagem de domingo correu pelas redes sociais. A foto do O Globo mostrando consumidores de drogas no Passeio Público – Centro do Rio de Janeiro – foi compartilhada à exaustão. Abaixo, trecho da matéria jornalística que conta com depoimento de Marconi Andrade, do grupo S.O.S. Patrimônio, criado na rede Facebook com o objetivo de defender os bens culturais em risco:

Até mesmo uma distração simples, como contemplar a beleza do Chafariz do Mestre Valentim, ficou no passado: o tanque está sempre vazio, e suas bordas foram transformadas em varais. Os bancos viraram camas, e o gramado não vê um cortador faz tempo.

Os monumentos — o parque tem, por exemplo, 20 bustos em bronze de personagens ilustres, como a compositora Chiquinha Gonzaga e o poeta Olavo Bilac — estão deteriorados. Os jacarés que adornam o chafariz perderam rabos e dentes. A grade que circunda o Passeio Público está quebrada em vários pontos. Policiais militares? Não se vê. Apenas guardas municipais dão as caras, mas raramente saem de viaturas. A falta de segurança, assim como de conservação, é motivo de lamento.

‘É um absurdo um lugar tão importante estar assim. Não faz sentido a prefeitura deixar um patrimônio histórico de quilate do Passeio Público totalmente degradado’.
– MARCONI ANDRADE
Restaurador

Áreas públicas tomadas por infelizes seres humanos dependentes de drogas não são exclusividade dali. Exemplos são as “cracolândias” que se espalham pelo Rio e trazem tristeza pelas pessoas e insegurança para a vizinhança, e tantas outras praças e calçadas onde grupos se reúnem para consumir drogas, muitas vezes antes de praticaram assaltos. Na Glória, Flamengo, Laranjeiras e Parque do Flamengo a recorrência fez com que moradores criassem páginas na internet sobre relatos de assaltos e avisos sobre eventuais perigos em curso. É a sociedade tentando se proteger pelos seus próprios meios!

O Passeio Público – que já foi um oásis e teve até um aquário – hoje reflete o abandono e o desinteresse dos órgãos públicos, além da deseducação da população que não dá valor aos bens culturais que são de todos, do mesmo modo que praças, calçadas e praias são transformadas em depósito de lixo, síndrome que inverte a condição de que “ser público” significa ser de todos, para “ser público” igualar-se a ser de ninguém. Pena que o local não tenha sido “Pra Olimpíada”.


Cartão-Postal
Imagem obtida na internet


Nesse contexto, cabe um pequeno depoimento pessoal.

Em 1971, ao ingressar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, grupos de alunos recebiam aulas de pintura e desenho artístico, tanto em classe como aulas externas, essas, sempre motivo de alegria. Além da atividade em si era uma oportunidade para conhecer cantos do Rio dos quais muitos nem haviam ouvido falar. Assim foi que nos encontrávamos às 8.00h, professor já esperando, e “pintamos” com aquarela, lápis de cor, lápis-aquarela, pastel seco e oleoso, guache e nanquim, entre outros: o casario da Ladeira João Homem, a Feira da Glória, o Largo do Boticário – hoje, infelizmente, deteriorado – o Convento de Santo Antônio, o Cais da Praça XV, o Cais dos Mineiros, a Refinaria de Manguinhos, a Favela da Maré – trecho extinto pela construção de um acesso novo à Ilha do Fundão – e o Passeio Público!

Mais do que aulas de pintura, eram estímulo ao amor pela cidade!


Passeio Público e os antigos Theatro Casino e Casino Beira-Mar, demolidos em 1937.
Imagem obtida na internet
A quem interessar, sugerimos a leitura de Passeio Público – a Paixão de um Vice Rei, de Jorge Andrade; Os pavilhões do Passeio Público: Theatro Casino e Casino Beira-Mar, de Jane Santucci; O Passeio Público do Rio de Janeiro, de Mônica Bahia Schlee; e os vários livrosde Nireu Cavalcanti, que, em entrevista concedida ao Jornal O Globo em15/07/2012 escolheu como local do Rio não caracterizado pela perda, exatamente o Passeio Público!

A paixão do Vice-Rei poderia entrar no calendário dos Jogos. Onde “vai ter Olimpíada” há também atenção e cuidado. Que o diga a Barra da Tijuca!

Que a segurança aumente, que os dependentes sejam assistidos, e que o amor pelo Rio de Janeiro cresça.

                                                                                             Andréa Redondo/Blog Urbe CaRioca

Imagem obtida na internet. –  Praças brasileiras – Fábio Robba

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