A DEGRADAÇÃO DA ARQUITETURA IMPERIAL CARIOCA, de Alexei Bueno

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O autor, defensor da memória urbana e dos bens que constituem importante Patrimônio Cultural, Alexei Bueno foi diretor doInstituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). O título do artigo é autoexplicativo. Escrito há um mês, é o texto que escolhemos reproduzir para abrir 2018 neste espaço urbano-carioca.

Boa leitura.

Urbe CaRioca

Solar do Visconde de São Lourenço, na esquina da Rua do Riachuelo com a Rua dos Inválidos, Centro do Rio. Foto Mônica Imbuzeiro (Ag. O Globo)

A DEGRADAÇÃO DA ARQUITETURA IMPERIAL CARIOCA

Alexei Bueno

Nada mais natural, numa cidade e num estado falidos e onde o poder foi empalmado por máfias, de que a degradação, em todos os níveis, se espalhe por toda parte. Quem tiver estômago forte para caminhar pelo Centro do Rio de Janeiro numa tarde de fim de semana, terá a impressão, em relação à população de rua, que se encontra nalguma metrópole da Índia, isso em meio a serviços de qualidade sórdida, colapso geral do comércio, imundície ubíqua, depredação de monumentos públicos, conservação de vias e equipamentos urbanos inexistente. Sobra ao Rio de Janeiro a sua paisagem, vasta demais para ser destruída pela ação humana – embora esforço neste sentido nunca tenha faltado – donde concluímos que, por mais que se fale em turismo – o pífio turismo brasileiro, que não atrai, do Oiapoque ao Chuí, um décimo dos visitantes que vão a Paris num período idêntico – só ingênuos ou masoquistas podem, na atual conjuntura, sair de lugares civilizados para conhecer esta cidade, e isso sem nem mencionarmos a violência generalizada e os preços aberratórios.

Se toda esse miséria pode ser revertida, e, pela lei do “não há mal que sempre dure”, oxalá que ela o seja, o que for perdido do patrimônio histórico-arquitetônico da cidade não voltará nunca mais. Como pródromos da situação a que nos referimos, podemos relembrar a demolição – pois de demolição se tratou – do Solar do Visconde de São Lourenço, nas esquinas da Rua do Riachuelo com Inválidos – no caso não uma obra imperial, mas o melhor exemplar de arquitetura residencial do Reinado no Rio de Janeiro – isso apesar de tombada federalmente desde 1938, ano inicial dos tombamentos do futuro IPHAN. Tal mansão, construída pelo Conselheiro Francisco Bento Maria Targini, Barão em 1811 e Visconde em 1819, Tesoureiro-Mor do Real Erário no Brasil, ou seja, uma espécie de Ministro da Fazenda de D. João VI, chegou perfeitamente intacta até a década de 1990, quando um providencial incêndio serviu de pretexto a sucessivas e literalmente criminosas demolições parciais que a transformaram no que é hoje, um estacionamento cercado por restos de paredes arruinadas. Tal solar, onde certos elementos neoclássicos iniciais podiam ser percebidos numa morfologia ainda colonial, teria sido salvo com a colocação de uma simples cobertura emergencial sobre a parte do telhado destruída pelo incêndio. Após a queda completa deste, um banal trabalho de escoramento teria mantido de pé todas as fachadas. A mais absoluta inércia acabou redundando na sua quase completa destruição.

Adentrando agora o período realmente imperial, vale a pena lembrar o abandono – ainda que aparentemente mantenha a sua integridade – da magnífica Casa da Marquesa de Santos, em São Cristóvão, uma das mais belas residências do país e com um valor histórico obviamente inapreciável. Resultado da adaptação de dois sobrados já existentes por Jean Pierre Pézerat, o arquiteto pessoal de D. Pedro I, executada entre 1824 e 1827, com pinturas internas de Francisco Pedro do Amaral e adornos em estuque dos irmãos Marc e Zéphyrin Ferrez, tal conjunto faz dela uma das joias do acervo carioca. Décadas mais tarde o palacete pertenceu ao Barão de Mauá e ainda abrigou o Serviço Nacional de Febre Amarela. Em 1979 nele foi inaugurado o em péssima hora extinto Museu do Primeiro Reinado, sendo destinado depois, por político cujo nome nem merece citação, a abrigar certo Museu da Moda, que nunca existiu.

Chegamos agora ao fulcro deste pequeno texto, duas das mais belas residências neoclássicas do Rio e do país em pleno processo de arruinamento. De início o célebre Solar dos Abacaxis, na Rua Cosme Velho, construído na década de 1840 pelo Comendador Borges da Costa, com traço atribuído a José Maria Jacinto Rebelo, um dos mais prestigiosos alunos de Grandjean de Montigny. Essa magnífica residência, que pertenceu durante muitos anos ao casal Marco e Ana Amélia Carneiro de Mendonça, e cujo interior, até a década de 1990, abrigava um verdadeiro museu, tendo sido tema, inclusive, de um opúsculo de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Música do tempo desta casa, se encaminha a largos passos para o estado de ruína, visto que, posta a venda pelos herdeiros, não encontrou provavelmente interessados entre os membros da elite econômica carioca, em sua maciça maioria de proverbial ignorância e irretocável mau gosto.

Caso bem mais grave, pela riqueza sem comparação do seu interior, é o do Palacete São Cornélio, na Rua do Catete. Construído em 1862 pelo próspero comerciante José Ribeiro da Silva, foi, após a morte deste, ocorrida seis anos mais tarde, comprada por João Martins Cornélio dos Santos, casado com Cecília de Sousa Breves – membro de uma das mais ricas famílias de cafeicultores do Brasil de então ao lado daquela do Barão de Nova Friburgo – e grande amigo de Castro Alves, tão amigo que foi em outra casa sua, na Rua Silva Manuel, atual André Cavalcanti, que o grande poeta amputou o pé, em 1869, depois do desgraçado acidente de caça em que se feriu gravemente em São Paulo. Doado por João Cornélio em testamento, no ano de 1894, à Santa Casa da Misericórdia, para abrigar um orfanato, transformou-se então no Asilo São Cornélio. Tombado pelo IPHAN em 1938, abrigou a Faculdade de Medicina Sousa Marques da década de 1970 até o ano 2000, quando foi deixado ao abandono pela instituição sua proprietária, crescentemente dilapidada, como é de conhecimento público e notório, por lamentável malversação de recursos.

Esse palacete, cujo apuro interno e externo só encontra rival, em sua cidade, no bastante próximo Palácio do Catete, encontra-se à beira do arruinamento total, com seus magníficos tetos pintados, seus elementos em bronze e mármore de Carrara que já sofreram audaciosa tentativa de pilhagem, seus vitrais, azulejos e grades em ferro fundido, sem que a Santa Casa, o IPHAN ou qualquer órgão público tenha executado, até este momento, qualquer ação efetiva para o seu salvamento.
E em tal estado se encontra parte importante e insubstituível do patrimônio arquitetônico carioca, esquecida em meio ao odor compósito de lixo, urina e fezes que se espalha dia a dia pela Cidade Maravilhosa.

Comentários:

Papel de Roça, 28 de novembro de 2017 04:00

Obrigada por se importar. Posso pedir sua atenção para o prédio que abrigou o Automóvel Clube do Brasil, no Passeio? Existe um projeto para restauro e os proponentes, através de um processo da prefeitura, conquistaram o direito de posse e no entanto o atual prefeito inventou mais um projeto mirabolante, desses que nunca saem do papel, e estão impedindo o grupo a tocar o projeto. Que aliás, tem tudo a ver com a história do prédio. Seria o Museu do Rodoviário ou do Automóvel, não sei exatamente. Um projeto lindo desenvolvido pela arquiteta Maria Parkinson, neta de um dos fundadores do ACB e o proprietário da marca.

Terça-feira, 21 de novembro de 2017

www.alexeibueno.blogspot.com.br/2017/11/a-degradacao-da-arquitetura-imperial.html?spref=fb

Reitero as palavras do escritor e poeta Alexei Bueno no excelente, mas triste, artigo “A degradação da Arquitetura Imperial carioca”, publicado no seu blog www.alexeibueno.blogspot.com.br em 21/11, quando diz categoricamente “…e em tal estado se encontra parte importante e insubstituível do patrimônio arquitetônico carioca, esquecida em meio ao odor compósito de lixo, urina e fezes que se espalha dia a dia pela Cidade Maravilhosa”. Basta percorrer algumas ruas do Centro da Cidade para perceber o estado de degradação em que se encontram os logradouros: sujeira, urina, fezes, moradores de rua que se avolumam cotidianamente; calçadas “portuguesas” esburacadas e/ou desniveladas, passíveis de pequenos acidentes com os transeuntes; presença constante de vendedores ambulantes e camelôs, que não são perseguidos pela Secretaria de Ordem Pública há tempos. Enfim, uma série de problemas que afetam há algum tempo a cidade, agravando-se na gestão do atual governo municipal, e que o patrimônio arquitetônico e equipamentos públicos sofrem com o descuido e o abandono. Prédios históricos pichados, chafarizes e estátuas depredados, grades furtadas, entre outros danos.

Em todos os tempos não lembro de ter presenciado um longo período de abandono na área central do Rio de Janeiro. E não podemos culpar o momento de crise financeira pelo qual estamos atravessando. A questão é de ordem política e de má gestão, aliados ao desinteresse generalizado pelos gestores dos órgãos pertinentes. Estamos caminhando a passos largos para o completo caos, sem perspectiva de mudanças. Fica a pergunta: como encontrará a Cidade do Rio de Janeiro o próximo administrador municipal? Resta-nos torcer para que ocorram imediatamente mudanças visando salvá-la e a todos nós enquanto há tempo. Do contrário…

Paulo Clarindo
Dezembro de 2017
amigosdopatrimonio@gmail.com

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