O RIO COMEÇA EM SEPETIBA, de Cláudio Prado de Mello

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Mais um artigo do arqueólogo Cláudio Prado de Mello traz notícias importantes sobre a história do Rio de Janeiro, reveladas através de estudos arqueológicos na Zona Oeste da cidade. Boa leitura.

Urbe CaRioca

O RIO COMEÇA EM SEPETIBA

Praia de Sepetiba antes do inicio do processo de degradação da Baia de Sepetiba que-assoreou boa parte da linha costeira – (Foto anos 70 – Arquivo Nacional)

Apesar de muitos acharem o contrário, Sepetiba não é um Município do Estado do Rio de Janeiro, e, sim um bairro do Município do Rio de Janeiro. Sepetiba não é O Último bairro do Rio de Janeiro, mas sim o primeiro! Com essa afirmação começamos a mostrar um pouco sobre sua história e importância no contexto histórico e arqueológico.

Sepetiba é um bairro localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, banhado pelas águas da comprometida Baía de Guanabara. Faz limite com Santa Cruz, Barra de Guaratiba e Guaratiba, que apesar de serem tão longes e tão afastado do Rio, também são bairros da Urbe Carioca.

Etimologicamente falando, o nome “Sepetiba” tem origem na língua tupi, significando “muito sapê” e tal nome se referia as áreas baixas e planas aonde o sapê crescia em abundância. SIPITIBA, ou “ÇAPE-TYBA”, ou “ÇAPE-TYUA”, significa “sítio dos sapês” ou “sapezal”.

Marco na Praça Washington Luiz (Foto: Acervo IPHARJ)
Coreto da Praça de Sepetiba, filmado inúmeras vezes na novela O Bem Amado e que pertencia a Praça XV, em frente ao Paço Imperial (Fotos: Acervo IPHARJ)

As praias de Sepetiba serviam como porto do Rio Colonial para exportação de pau-brasil à Europa. Seus principais acessos eram o caminho de Sepetiba (atual Estrada de Sepetiba), que levava à Santa Cruz, e o caminho de Piahy (atual Estrada do Piaí), que ligava o bairro à Pedra de Guaratiba.

Faixa estreita de terra ainda não submersa pelo efeito das mares e que separa a Ilha dos Marinheiros do Continente (Foto: Acervo IPHARJ)

Na região existem três praias principais: a de Sepetiba, a do Recôncavo (antiga Dona Luíza) e a do Cardo. Em 1818, havia três fortes equipados com baterias de canhões: 1) o de São Pedro (que defendia a praia de Sepetiba e as ilhas do Tatu e a Ilha da Pescaria); 2) o de São Paulo (abrangia as praias de Sepetiba e Piahy); e 3) o de São Leopoldo (no morro de Sepetiba).

A antiga povoação foi elevada à segunda província por Dom João VI. De acordo com fontes históricas, Dom João VI foi estimulado pelos padres jesuítas a visitar o litoral de Sepetiba, onde vislumbrou um ponto adequado para a navegação e escoamento de produtos. Nele construiu duas pontes e um molhe na região da lha da Pescaria, utilizando mão-de-obra escrava e seguindo as coordenadas dos portugueses.

Já no início do século XIX, Sepetiba passou a ser frequentada no verão pela Família Real, que utilizava a propriedade para o lazer da elite, como touradas, saraus e danças portuguesas. Com a implantação da “Companhia Ferro Carril”, em 1884, o bonde de tração animal passou a transportar a “mala real” até o cais de Sepetiba, além de cargas e passageiros.

É de amplo conhecimento de que boa parte do litoral fluminense foi ocupado por alguns dos mais antigos grupos humanos que chegaram à faixa litorânea do Estado, na época em que o homem no Rio de Janeiro ainda era nômade e vivia basicamente da coleta de víveres como moluscos, crustáceos e frutas silvestres. Os locais escolhidos eram os que ofereciam condições de estabelecimento temporário e tão logo o ambiente natural se mostrava enfraquecido ou exaurido de recursos alimentares, esses grupos se mudavam para outras áreas. Esses grupos de Paleo-Indios são chamados na Arqueologia Brasileira de Grupos Sambaquieiros. Em determinadas regiões e em áreas próximas ao mar, os chamados Sambaquis mostram em detalhes aspectos da vida e das práticas funerárias de algumas dos mais antigas ocupações no estado.

Mais tarde, a região litorânea foi ocupada por grupos ceramistas agricultores que terminaram por dominar esses grupos mais primitivos. Os indígenas Tupi que transitavam por toda a região, aqui e ali deixando seus vestígios uma vez que existia um fluxo constante de tribos transeuntes de norte a sul (e vice-versa) rumo a locais novos para assentamentos. Guaratiba e Campo Grande se destacaram nas descobertas, apesar de especularmos que a maior parte foram destruídos no processo de ocupação recente.

A Reserva de Guaratiba é composta por ecossistema de mangue, é o filtro da baía de Sepetiba, e considerado o manguezal mais bem preservado do Estado. Existem (ou existiam antes da construção do BRT?) 34 sítios arqueológicos situados em seus limites. Em termos numéricos temos uma estatística cedida pelo Cadastro de Sítios Arqueológicos para a região, como segue: Guaratiba: 34 sítios, Sepetiba: 2, Campo Grande: 3, Senador Camará: 1, Santa Cruz: 3, Bangu 4.

A baía de Sepetiba foi palco de inúmeros acontecimentos da história do Brasil e, até hoje, mantém sua importância como posto de vigília em frente à Base Aérea de Santa Cruz para garantir a soberania nacional. Ligada à pré-história indígena, como atesta a presença de sambaquis na região, Sepetiba foi considerada o “Porto do Ouro” por receber todo o ouro que vinha de Paraty com destino a Lisboa.

No século dezoito, a baía de Sepetiba foi cenário de muitas batalhas entre corsários atraídos pelo ouro e soldados do rei Dom João IV. Além do ouro, os piratas usurpavam o pau-brasil abundante nas matas da região.

Em 23 de Agosto de 2015, a convite da equipe técnica do Ecomuseu de Sepetiba (reunindo Bianca Wild, Silvan Guedes, Telma Lopes, Bruno Cruz, Maria Do Carmo Matos, e Gutemberg Castro) e o arqueólogo do Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro estiveram na região de Sepetiba aonde existem locais de interesse histórico e arqueológico ate então não identificados.

A primeira investigação deu-se em uma casa em processo de reforma/ demolição situada na praça principal e verificamos no seu processo de construção a existência de um tipo de argamassa das paredes de pedra aonde são visíveis restos de conchas de sambaquis e ate um possível fragmento de osso humano. Esta descoberta constitui um indicador da existência de sambaquis na região e de seu emprego como material consolidador de um tipo de massa composto de cal, areia e muitas vezes óleo de baleia, em uso no Período Colonial, data em que se especula tenha ocorrido a construção da casa.

Um quebra-coquinho da época do Homem do Sambaqui encontrado da estratigrafia do paredão (Foto: Acervo IPHARJ)
Outro perfil , evidenciando um freagmento de cerâmica Tuoi-Guarani decorado com motivos florais (Foto: Acervo IPHARJ)
Restos de material malacologico ( conchas) in situ (Foto: Acervo IPHARJ)

Ao longo da extensa caminhada pela faixa litorânea, a equipe se deparou com vários pontos de interesse arqueológico e com artefatos aflorados na superfície. A julgar pelas categorias de artefatos e padrões de sítios, podemos atestar se tratar das seguintes categorias de sítios:

1) Remanescentes de ocupações sambaquieiras com presença de artefatos líticos típicos como batedores e conchas com marcas características;

2) Em outra área verificou-se a existência de sítio contendo material cerâmico pré-histórico, possivelmente remanescente de uma ocupação ou acampamento Tupi-Guarani, com decoração na cerâmica;

3) Em uma outra parte do terreno localizamos material que desceu da parte superior da elevação e continha material histórico como louças e metais, chamando atenção os fragmentos de faiança portuguesa decorada de azul sobre branco, típica do século XVII .

4) Encontramos também um capacete de paraquedista (modelo m1,americano, de 1942). Nesse sentido cabe lembrar o relato de que refugiados da Revolta Armada de Santa Catarina atracaram acidentalmente na praia de Sepetiba, sendo presos e fuzilados na “Ilha da Pescaria” e ali mesmo sepultados. O local passaria a ser chamado de “Ilha dos Marinheiros” pelos moradores mais antigos.

Já realizamos várias ações de importância, como segue:

1) Relatório de apoio (Laudo Arqueológico) à solicitação do ECOMUSEU DE SEPETIBA que pedia o tombamento da area arqueológica. Tal Relatório foi encaminhado ao competentíssimo Vereador William Coelho que encaminhou o PL a Camará Municipal do Rio de Janeiro,

2) Assessoria em Arqueologia a equipe de tecnicos do IRPH nas Vistorias técnicas a região de Sepetiba,

3) Vistorias técnicas e pesquisas de Diagnóstico da Região por toda as regioes de Sepetiba;

4) Participação no Seminário organizado pela BASC com Conferência que teve como tema os aspectos Arqueológicos e Históricos da região;

5) Registro dos sítios arqueológicos no Órgão Federal em 2015;

6) Levantamento detalhado do assunto em forma de um artigo; nos primeiros meses será lançado um Livro com o resultados das pesquisas arqueológicas não interventivas que estão sendo realizadas pela equipe do IPHARJ desde Agosto de 2015;

7) Encaminhamento das pesquisas para o IRPH que também esta envolvido em parte desse projeto e um segmento dele já foi Tombado a Nível Municipal .

No último dia 06, fomos conduzidos pela turismóloga Telma Lopes em visita a uma nova região que ela suspeitava ser de algum interesse arqueológico. Lá encontramos o sítio em processo de destruição, e farto material arqueológico nas proximidades, já impactado e constando da mesma categoria de artefatos como na outra oportunidade, confirmando-se, então, a existência das várias fases de ocupação do território de Sepetiba. Amanhã, dia 08/01/2018, protocolaremos um novo relatório sobre o assunto nos órgãos municipais e federais de interesse, pois o novo sítio detectado no dia 06 está em fase de destruição e carece de cuidados mais do que urgentes!

Após à conclusão esse estudo arqueológico será de fundamental importância para se entender o processo de ocupação do litoral do estado do Rio de Janeiro. Consideramos que a área em avaliação merece todo cuidado e atenção por parte dos Preservacionistas da região.

Claudio Prado de Mello ( Prof.Ms)
Arqueólogo e Historiador
Conselheiro do Conselho Estadual de Tombamento SEC RJ
Conselheiro Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do RJ
Museu da Humanidade – IPHARJ
email pradodemello@hotmail.com

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