Por que não enfeitamos as ruas? – Por André Luis Mansur

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Neste artigo, o jornalista e escritor André Luis Mansur destaca as grandes mudanças observadas nos bairros do Rio de Janeiro para preparação da Copa do Mundo. Enquanto, em mundiais anteriores, moradores se reuniam e se confraternizam, enfeitando e colorindo de verde e amarelo as ruas da cidade, desta vez o cenário é outro. Confiram a sua análise afiada e os seus destaques.

Urbe CaRioca

POR QUE NÃO ENFEITAMOS AS RUAS? – Por André Luis Mansur

Já tinha notado uma diminuição drástica nas últimas copas, mesmo na do Brasil, mas desta vez realmente me impressionei, pois não vi até agora uma rua enfeitada para a Copa do Mundo. Nem no meu bairro, Campo Grande, nem no subúrbio em geral e nem na zona sul. Claro, deve ter uma ou outra, mas posso dar um chute aqui de que no máximo 3% a 4% das ruas do Rio estão enfeitadas para a Copa. Da mesma forma, não vejo praticamente ninguém com a camisa da seleção. A mídia tenta impor outra realidade, com ruas enfeitadas nos anúncios publicitários, mas o que há é um completo alheamento em relação à seleção e à Copa. Nas discussões que vejo sobre futebol, as pessoas falam apenas do Campeonato Brasileiro, nada além disso.

E por quê? Bem, posso arriscar aqui que considero isso uma forma de amadurecimento do povo. Vejo as pessoas muito mais ligadas em discussões políticas do que outra coisa, mesmo com um radicalismo aqui e ali, e vejo hoje o futebol, a Copa, a seleção, sendo tratados como devem ser: um mero entretenimento, nada além disso. As pessoas já se tocaram que se o Brasil for campeão, no dia seguinte à Copa o hospital público vai continuar te atendendo mal, os transportes a mesma coisa, a violência vai continuar dando o seu espetáculo diário de horror e barbárie e os políticos, bem esses, vão continuar como sempre foram e ainda vão tentar obter ganhos políticos com a vitória. Alem disso, os jogadores vão ficar mais ricos, com contratos publicitários, mudanças de clube etc, os dirigentes, tanto da CBF e da Fifa, a mesma coisa, enfim, todos ganham, menos aqueles que enfeitaram as ruas. Uma festa estranha, com gente esquisita, para a qual eu não fui convidado. Ah, mas vão ter a alegria de ganharem uma Copa. Tudo bem, mas a dimensão que se colocava a Copa do Mundo e a seleção era a de que aquilo ali era a coisa mais importante do mundo. E não era. Nunca foi e nunca será.

Claro, as pessoas vão ver os jogos do Brasil, vão comemorar se ganharem, mas sem o fanatismo e o ufanismo de outrora, quando se colocava a seleção como “a pátria em chuteiras”, como diria Nelson Rodrigues, e uma derrota, como para a Itália, em 82, deixava o país em situação de cataclismo, como tão bem observou Carlos Drummond de Andrade numa crônica histórica para o Jornal do Brasil. Agora não. O Brasil tomou de 7 a 1 da Alemanha em casa, na maior derrota de sua história, e já no intervalo do jogo, com 5 a 0, a internet explodia de tantos memes brincando com a suposta tragédia, o que achei excelente.

Aqueles 23 sujeitos que estão lá podem ser gente boa, a maioria veio da pobreza, lutaram muito para chegarem até lá, merecem estar lá, mas estão completamente à parte da realidade brasileira. São milionários bancados por multinacionais que exploram trabalho quase escravo na Ásia e jamais dão uma opinião política sobre o Brasil. O povo já percebeu isso e, como eu disse, vai torcer, vai vibrar, mas sem ufanismo, sem desespero nem loucura. A Copa que todo mundo quer ganhar é a dos serviços públicos funcionando bem, dos corruptos sendo presos e da melhor distribuição de renda. Quando isso acontecer, aí sim, iremos comemorar e pintaremos as ruas. Enquanto isso não acontece, a gente chama os amigos, abre as cervejas, mas se o Brasil perder, continuaremos com os amigos tomando a cerveja e falando de outras coisas, continuando “a viver e não ter a vergonha de ser feliz”, como diria o saudoso Gonzaguinha.

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