Futuro sem tecnologia, de Hugo Costa

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Neste artigo, o geógrafo Hugo Costa, mais uma vez, trata da questão da desigualdade do território carioca. Desta vez, destaca o atraso tecnológico imposto indiretamente pela Prefeitura do Rio aos subúrbios cariocas. “Estamos em um mercado moderno no qual as redes de telecomunicações se tornam um ativo estimulante de desenvolvimento, mas graças à transferência de responsabilidade da gestão do espaço público,  tornaram-se apenas mais um mecanismo de manutenção da desigualdade geográfica carioca”, afirma.

Boa leitura

Urbe CaRioca

FUTURO SEM TECNOLOGIA

Hugo Costa

Imagem do Google

Anos 90:  A Cidade do Rio de Janeiro conhece projetos de urbanismo nomeados como “Rio Cidade”, e um dos principais passos foi a retirada das fiações das concessionárias de energia e de telecomunicações dos postes para os dutos subterrâneos. Neste período, o mercado de telecomunicações era outro. Os primeiros projetos do Rio Cidade construíram 16 km de dutos para cabos telefônicos no Leblon (Zona Sul carioca) e um décimo disto (1,6km) em Bonsucesso (Zona Norte),  ainda especificamente para atender a Telerj, empresa pública de telecomunicações que apenas fornecia telefonia para voz a poucos afortunados que possuíam uma linha telefônica. Talvez isto explicasse porque tamanha diferença em extensão  implantada de dutos nestes dois bairros, ícones da desigualdade geográfica de distribuição de renda na Cidade do Rio de Janeiro, já naquela época.

O mercado de telecomunicações, aberto às privatizações no final da década de 90, assistiu a um grande e rápido desenvolvimento. Enquanto a concorrência das empresas em produtos se acirrava, a corrida pelos dutos que acomodavam cada vez mais cabos de diferentes tecnologias se intensificava . Em contraponto, áreas suburbanas da cidade não agraciadas com estas obras de urbanismo, viram os centenários postes acumularem um enorme volume de itens de telecomunicações em suas estruturas (fios de cobre, plástico, caixas de metal, armários de pares de cobre, armários ópticos e conectores dos mais diferentes tipos e tamanhos).

No ano de 2011, depois de 30 anos das obras Rio Cidade e de nenhuma mais feita na cidade com o mesmo fim, Eduardo Paes decretou uma lei que em cinco anos toda a fiação da cidade deveria ser subterrânea, a custas das próprias empresas de utilities (energia elétrica e telecomunicações), ao contrário da época do Rio Cidade em que a Secretaria de Urbanismo definia o modelo, a Secretaria de Obras implantava os dutos públicos e os concessionários assumiam o custo de transferir todo o cabeamento.

O Rio de Janeiro de 2011 já era bem diferente ao de 1990: grande parte da Área de Planejamento 2 (Zona Sul e Grande Tijuca)  e 1 (Centro) já possuíam dutos públicos disponíveis. A via expressa Linha Amarela já havia desbravado a região da Barra da Tijuca e os grandes condomínios-bairros já haviam se implantado com seus dutos exclusivos dos bairros planejados para todas concessionárias. O processo de migração seletiva do capital, oriundo dos subúrbios já tinha pleno fluxo: cada vez mais apartamentos na Barra com as mais modernas tecnologias de telecomunicações (exemplo o Rio 2, em Jacarepaguá, primeiro a fornecer Internet Banda Larga ADSL na época ainda da internet discada) se tornavam atrativos, estimulando a migração interna na cidade (para quem podia pagar pela mudança).

Neste período, pouco havia mudado nos subúrbios quanto a urbanismo e telecomunicações, mas muito em termos de poder aquisitivo: quem tem dinheiro almeja a urbanizada orla da cidade. Quem não tem, mantém-se na região, reduzindo a renda média local.

Com o decreto, que inviabiliza a utilização da estrutura posteada existente, o custo de chegar com uma nova tecnologia nos suburbios cariocas fica mais alto, e com uma renda menor do público consumidor, menos atraente na avaliação de retorno de investimento. As concessionárias de telecomunicações começaram a disputar ferozmente o mercado da orla da cidade, com ofertas cada vez mais baratas, enquanto aos subúrbios agora cabem as ofertas mais caras e obsoletas. Enquanto hoje há fibra optica com 100 mbps de várias operadoras de telecomunicações abundantes na parte mais rica da cidade, o custo de cabeamento dos subúrbios faz as empresas manterem o ADSL da decada de 90 como única opção disponível.

Estamos em um mercado moderno no qual as redes de telecomunicações se tornam um ativo estimulante de desenvolvimento, mas graças à transferência de responsabilidade da gestão do espaço público,  tornaram-se apenas mais um mecanismo de manutenção da desigualdade geográfica carioca.

Nota : Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do Urbe CaRioca.

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