Fazenda da primeira feitoria do Brasil, do século XIX, em risco na Ilha do Governador

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Uma das áreas mais antigas da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a Fazenda da Ribeira, a primeira feitoria do Brasil, construída no século XIX, no Morro do Cabaceiro, está prestes a ver seu terreno desbastado para a construção de prédios de apartamentos, e pede socorro aos moradores da região para reverter essa situação.

“Trata-se de um raro exemplar de sede de fazenda, ainda com árvores centenárias ao redor, numa região que vem sofrendo muito com a ocupação desordenada e especulação imobiliária. Precisamos preservar o pouco que restou”, diz Marcus Monteiro, diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural. Mesmo com a opinião pública totalmente contrária, a obra está sendo tocada e poderá acabar com uma das últimas áreas de representação histórica da Ilha ainda existente fisicamente. Sem contar a destruição de dezenas de árvores, algumas centenárias. Um misto de agressões à  história, à cultura e à memória somadas à destruição ambiental em uma área que deveria ser preservada.

Segundo o arqueólogo  e historiador Cláudio Prado De Mello, a Prefeitura autorizou a derrubada de 74 árvores na área de mata preservada. “A construção de prédios no local pode destruir o pouco de arqueologia que pode ter sobrado na Ilha do Governador”, destaca.

Neste sábado, dia 9 de março, será realizado um movimento no local, com um abraço à Fazenda Cabaceiro e um grande apitaço representando o descontentamento através de uma manifestação pacífica, porém de grande importância em uma área histórica e com árvores centenárias.

Abaixo, vejam o texto de Cláudio Prado De Mello sobre a questão.

Urbe CaRioca

UM VERDADEIRO CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO E A ARQUEOLOGIA ESTA ACONTECENDO AGORA NA ILHA DO GOVERNADOR

Claudio Prado de Mello ( Prof.Ms)
Arqueólogo e Historiador

Ha muito tempo o turismólogo Roberto Macchiute tem falado sobre a importância da Fazenda Cabaceiro, na Praia da Ribeira, na Ilha do Governador. Ele já chamou o INEPAC que tentou o tombamento da Fazenda, mas que por problemas de equipe não foi adiante. Ele ja levou ao jornal O Globo, que fez matéria pública e todos são unanimes em reconhecer a importância do local, não só pelo aspecto histórico, mas pelo apelo ambiental. Ocorre que a Fazenda Cabeceiro se situa em um promontório que se manteve ao longo dos anos preservado e nesse local temos uma área com mata nativa e principalmente árvores centenárias.

O absurdo começa quando uma empresa faz um projeto de engenharia para construir prédios e para fazer isso ela pretende desmatar e demolir. O local em questão fica da Rua Pires da Mota, 14 , onde funcionada o Horto da Ribeira. Fica a cerca de 100 metros de instalações petrolíferas da Petrobras e dessa forma vemos uma série de irregularidades acontecendo neste momento na Ilha do Governador .

Bem, eu não conheço ainda a Fazenda do Cabaceiro, mas a pedido do Roberto, estou me inteirando do assunto e existe algo que ninguém esta falando; a questão da Arqueologia.

Como sabemos, a Ilha do Governador foi a primeira feitoria da Cidade e ela tem uma importância excepcional para a Arqueologia, pois nela viviam os índios Tememinos ou Marakaías (Maracajás), e que tiveram como maior expoente o famoso Arariboia, filho do igualmente grande Maracajaguaçu, pai de Arariboia. Maracajá era um gato pintado como uma onça que podia ser visto na Ilha ate os anos 1970.

A Ilha do Governador, mais do que um local de assentamento de índios Tememinos e depois Tupinambás, era também local importante para as populações sambaquieiras.

Curiosamente, apesar de sua pequena dimensão, fontes de água potável jorravam água limpa de seus morros e isso a fazia um lugar especial entre os indígenas. Entre os rios, um se destacava, o Rio Jequiá ( Îeke’a ), que hoje não passa de um valão negro, mas era no passado de grande importância para os Tememinos. Em Tupi, Jequiá significa “ cesta de apanhar peixes” ou “covo de coletar peixes” que era um instrumento feito de ripas (bambu) e que servia para pescar.

Mas Jequiá não era apenas um rio ! Ele também era o nome de uma importante Tribo Tupinambá que existiu na Ribeira e foi descrita por José de Anchieta na sua célebre obra o Auto de São Lourenço. Passando entre os morros do Matoso e do Cabaceiro, a região correspondente ao Rio Jequiá reúne alto potencial arqueológico e de uma área pouco conhecida da Cidade.

Nos anos 1960 foram detectados dois sítios arqueológicos nessa região do empreendimento, sendo um Sambaqui e o outro era um sítio Tupi Guarani. Ambos registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos. Um deles, Sambaqui ou aldeamento Tupi-Guarani do Jequiá (GB22) (Beltrão, 1978). Na mesma época, a Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico do então Estado da Guanabara, em pesquisas investigatórias realizadas no alto do Morro do Cassino (Rua Matias Antonio dos Santos) e na Praia do Engenho Velho (atual Quebra Coco), foram encontrados restos de fogueira e vestígios de ocupação como fragmentos de urna funerária, fragmentos de cerâmica Maracajá entre outros vestígios arqueológicos.

A existência de varias Caeiras na Ilha do Governador, durante o século XIX, indicam a existência desse rico passado arqueológico. Estudos recentes indicam que algumas se localizavam da Praia Brava até o Morro do Cabaceiro, passando por Freguesia e Cocotá.

De acordo com o que conseguimos apurar, pesquisas realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira detectaram a existência de Urnas funerárias na região da Ilha do Governador. As pesquisas arqueológicas do Museu Nacional, localizaram na Ilha do Governador vários sítios indígenas, classificados como ateliers, aldeamentos, aldeias e sambaquis nos seguintes pontos da Ilha:

• Sambaqui na Praia do Espinheiro, no Saco do Jequiá (GB21)
• Aldeamento Tupi-Guarani no Jequiá (GB22)
• Aldeia no Instituto de Pesquisa da Marinha (Morro do Matoso). 39 QP GB 20)
• Atelier no Morro das Pixunas (GB18)
• Aldeamento Tupi-Guarani no Bananal – Praia Grande. GB 17)
• Aldeia e Aldeamento Tupi-Guarani na Estação Rádio da Marinha. (39 QP GB 20)
• Aldeamento Tupinambá no Morro da Viúva. ( 39 QP , GB 23)

Pois bem, não bastasse toda essa riqueza arqueológica, temos a legislação municipal e federal que determina que grandes empreendimentos que causem impacto no solo sejam precedidos por pesquisas de Arqueologia, como segue:

1) O decreto municipal n.° 22.872, de 07 de maio de 2003 determina que nenhuma obra ou supressão vegetal possa ser feita sem Arqueologia ( ver anexo 1)

2) A Lei lei 3924/61 Iphan que dispõe sobre a proteção de jazidas arqueológicas e sobretudo restos de populações sambaquieiras ( ver anexo 2)

Então, temos que considerar que se o lugar é histórico e é uma elevação, existe a possibilidade de ser de alto potencial arqueológico e desse forma o IRPH e o IPHAN têm que ter seus laudos para poder deliberar sobre qualquer tipo de obra no local. E mesmo não sendo tombado, não tira do local a possibilidade de ter outros sítios arqueológicos (não conhecidos), sobretudo porque a Ilha do Governador não foi devidamente estudada, pesquisada e qualquer obra de grande monta hoje em dia tem que considerar essa escassez de estudos.

Portanto não será o caso de se aguardar que o local seja destruído sumariamente sem pesquisa, mas é caso do plantão do Judiciário se posicionar e a obra ser embargada sumariamente ate que os estudos arqueológicos indiquem que o empreendimento possa ser realizado.

Rio de Janeiro, 06 de março de 2019

Claudio Prado de Mello ( Prof.Ms)
Arqueólogo e Historiador
Conselheiro do Conselho Estadual de Tombamento – INEPAC SEC RJ
Conselheiro Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do RJ
Museu da Humanidade – IPHARJ
Terra Brasilis Arqueologia

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