Cidades não resistentes às chuvas: centenas de anos sendo construídas, de Sonia Rabello

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Neste artigo da professora e advogada Sonia Rabello, publicado originalmente no site “A Sociedade em Busca do seu Direito”, uma análise sobre o descaso com o planejamento e a desenfreada ocupação do solo urbano, tendo como exemplo a recente e repetida situação do Rio de Janeiro, debaixo d´água, ratificando que o seu urbanismo não resistiu. “Vidas, patrimônio e equipamentos urbanos destruídos. Será que a cada novo governo, a cidade dependerá das novas nomeações do prefeito de plantão? E a responsabilidade na escolha dos representantes que administram e legislam a Cidade?”, questiona.

Boa leitura

Urbe CaRioca

Cidades não resistentes às chuvas: centenas de anos sendo construídas

Reprodução/Facebook

Por Sonia Rabello

O Rio de Janeiro debaixo d´água mostra que o seu urbanismo não resistiu à destruição de vidas, do patrimônio pessoal dos pobres, à destruição de equipamentos urbanos.

À parte das justas críticas à lentidão da ação da Prefeitura, eu faço parte do grupo que pensa que esta cidade (e nós, seus cidadãos) somos vítimas de nós mesmos. Com ou sem Crivella, a cidade seguirá enchendo, e muito, se continuarmos com o descaso com o seu planejamento e a desenfreada forma antropofágica de ocupação do solo urbano.

O Rio de Janeiro enche, assim como Niterói, a Baixada Fluminense, Belo Horizonte, São Paulo, Recife, e muitas outras cidades brasileiras. A causa primária está na forma que aquiescemos de se ocupar o solo urbano.

Causa primária – Serviços públicos de limpeza dos bueiros, contenção de encostas, manutenção de arborização e ordens de socorro são importantíssimos. Ajudam na crise, mas previnem apenas parcialmente e imediatamente. Porém, não previnem a causa primária da destruição.

Há também outras reflexões a se fazer; como uma cidade feito o Rio de Janeiro depende da ordem de cada prefeito para limpeza dos bueiros? Por que os serviços públicos essenciais à uma cidade não estariam nas mãos de seus funcionários efetivos, que saberiam o que fazer, independentemente da ordem imediata de um comissionado indicado?

AFP

Será que a cada novo governo, a cidade dependerá das novas nomeações, boas ou temerárias, dos novos prefeitos de plantão? Ou deveriam ser de responsabilidade cotidiana de servidores efetivos da Prefeitura, treinados para saber o que fazer em qualquer circunstância, cada um em sua área: Defesa Civil, Arborização, encostas, Limpeza Urbano, entre outros.

Além disso, se há ocupação desordenada e densa do solo urbano, independentemente da existência de saneamento, esgotamento pluvial, permeabilidade, a quem cabe a responsabilidade? Ao prefeito de plantão? À Câmara Municipal e seus vereadores que aprovam essas leis, o orçamento de investimentos e a fiscalizam a aplicação desses recursos? Ou a nós cidadãos, que votamos nestes representantes para administrar e legislar para a cidade?

A quem cabe a responsabilidade quando festejamos a ocupação cada vez mais intensa e verticalizada das encostas da cidade por favelas? Quando não apoiamos leis ou planos de uso do solo que permitam o acesso à moradia em áreas adequadas às pessoas que vão para favelas por falta de alternativas habitacionais?

Abaixo, reproduzo texto que circula na internet sobre as inundações na cidade. Destaco e concordo quando diz:

“A cidade do Rio foi fundada lutando contra a natureza. Foi arrasando morros, drenando pântanos, aterrando mangues, a baía, lagoas e praias, que chegamos até aqui; o fato é citado por cronistas e viajantes desde o século XVI.  Tempestades são inevitáveis. Alterações no clima podem apenas piorar o que é comum desde os tupinambás e piorou com a urbanização descacetada. O descaso do poder público, exceções confirmam a regra, só piora.“

Vejam o texto completo de Luiz Antonio Simas:

1- Chuvas na cidade do Rio. Segue o fio. Vivaldo Coaracy – primeiro sujeito que deve ser lido para se estudar a história da cidade – fala do espanto do Padre Anchieta com fortes chuvas que alagavam o Rio na década de 1570.

2- Vieira Fazenda, outro clássico, cita uma chuvarada que não saiu da memória da cidade durante muito tempo. Foi durante a invasão dos piratas franceses de Dugay-Trouin, que sequestrou a cidade (sim, a cidade toda) no meio do temporal. Isso foi em 1711.

3- Enchente de 1811 é talvez a mais lendária da cidade. Recebeu até nome: enchente das “Águas do monte”. Morreu gente, desabou parte das muralhas da Fortaleza de S. Sebastião. D. João mandou que abrissem todas as igrejas para acolher desabrigados. Parte do Morro do Castelo desabou.

4 – Em 1864 os cariocas apelidaram outra enchente: foi a “chuva de pedra”, com granizos e os cacetes. A cidade ficou debaixo d´água, casas caíram, igrejas foram destelhadas, bois boiavam. Machado de Assis, nascido em 1839, conta que nunca se esqueceu do dilúvio.

5 – Vieira Fazenda cita uma enchente que acabou com uma procissão de quarta-feira de cinzas e destruiu a cidade em 1854. Fala de um dilúvio que em 1897 destruiu uma festa no Itamaraty e arrasou parte do centro.

6 – Olavo Bilac fala, daquele jeitão dele, “das ruas transformadas em rios, as praças, mudadas em lagoas, os bondes metamorfoseados em gôndolas, – e homens e cachorros nadando, como peixes, pela vasta extensão das águas derramadas”. Isso foi em 1904, ano da reforma Passos.

7 – Lima Barreto tem talvez a mais famosa crônica sobre enchentes na cidade, de 1915. Lima acusou Pereira Passos diretamente: “O prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.”

8 – Em 1906, parte dos morros da Gamboa, Santa Teresa e Santo Antônio foram arrasados pelas águas. O Mangue transbordou. Em 1924, parte do São Carlos veio abaixo. Marques Rebelo citou enchentes bíblicas em suas crônicas.

9 – Em janeiro de 66 uma enchente deixou mais de 250 mortos e 50 mil desabrigados. Em janeiro de 67 ocorreu o deslizamento em Laranjeiras que arrasou uma casa e dois edifícios e matou mais de 200. A família de Paulinho Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues e Mário Filho, morreu.

10 – A enchente de fevereiro de 88 deixou 289 mortos e quase 30 mil desabrigados. Os desfiles das campeãs foi cancelado na Sapucaí. A lista é infinda.

11 – A cidade do Rio foi fundada lutando contra a natureza. Foi arrasando morros, drenando pântanos, aterrando mangues, a baía, lagoas e praias, que chegamos até aqui; o fato é citado por cronistas e viajantes desde o século XVI.

12 – Tempestades são inevitáveis. Alterações no clima podem apenas piorar o que é comum desde os tupinambás e piorou com a urbanização descacetada. O descaso do poder público, exceções confirmam a regra, só piora.

13 – Para quem quiser saber mais, sugiro Vivaldo Coaracy: “Memórias da cidade do Rio de Janeiro”. Vieira Fazenda tem o clássico “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”. Do Marques Rebelo, “O Trapicheiro” fala das chuvas. “As enchentes”, crônica do Lima Barreto, tá na rede.

14 – As crônicas cariocas do Machado, a chuva aparece aqui e ali, estão reunidas em “A Semana”. Andréa Casa Nova Maia tem o artigo “Memórias de Rio de Janeiro inundado em relatos de cronistas e literatos” publicado nos anais do XXVII Simpósio Nacional de História.

15 – J. Carlos fez charges sobre diversas enchentes. No livro “O Vidente Míope”, que escrevi sobre a obra dele, com organização de imagens do Cássio Loredano, falo sobre isso.

16 – Moreira da Silva gravou “Cidade Lagoa”, de Cícero Nunes e Sebastião Fonseca, em 1959:

“Esta cidade, que ainda é maravilhosa,
Tão cantada em verso e prosa,
Desde os tempos da vovó.
Tem um problema, crônico renitente,
Qualquer chuva causa enchente,
Não precisa ser toró.
Basta que chova, mais ou menos meia hora,
É batata, não demora, enche tudo por aí.
Toda a cidade é uma enorme cachoeira,
Que da Praça da Bandeira,
Vou de lancha a Catumbi.”

17 – O prefeito, no séc. XXI, se declarou surpreso e considerou “atípico” o que aconteceu na cidade. É isso.”

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