Realengo – As terras do Rei, de André Mansur

Neste artigo, o jornalista e escritor André Luis Mansur destaca fatos da rica história de Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, bairro onde D. Pedro I “gostava de tomar uma famosa pinga, quando seguia para a fazenda de Santa Cruz”. Vale a leitura !

Urbe CaRioca

Realengo – As terras do Rei

Por André Mansur

O nome deste bairro, que ficou famoso com a música “Aquele abraço”, de Gilberto Gil, tem sua origem nas “terras realengas”, que eram locais públicos, pertencentes ao Rei, e que se destinavam principalmente à pastagem e ao descanso do gado, não podendo haver qualquer tipo de construção ou arrendamento da terra. Elas também não podiam ser doadas em sesmarias.

Este era o “realengo” da freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, embora houvesse outros na cidade, como na freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá. Era em Realengo que D.Pedro I gostava de tomar uma famosa pinga, quando seguia para a fazenda de Santa Cruz, como conta Brasil Gerson em “História das ruas do Rio”.

Há pesquisadores, no entanto, como o já falecido professor Hélton Veloso, ex-diretor do colégio Belisário dos Santos, de Campo Grande, que preferiam dar uma outra explicação para o nome do bairro, esta mais conhecida, que é aquela que diz ser Realengo nada mais do que a abreviação de Real Engenho, este engenho abreviado (eng.).

Apesar da proibição de construções particulares e do aforamento de terras, as autoridades sempre tiveram problemas com posseiros na área de Realengo. Antes mesmo de 1660, quando foram definidas para uso público, parte das terras já eram ocupadas, o que só poderia ter ocorrido se elas tivessem sido doadas como sesmarias.

Segundo Fania Fridman, em “Donos do Rio em nome do Rei”, quando a Carta Régia de 1814 autorizou a posse pelo Senado da Câmara do Realengo de Campo Grande, foi declarado que as terras já ocupadas teriam sido obtidas ilicitamente em setembro de 1805, entre elas as de Ildefonso Caldeira de Oliveira, que faziam limites com a Fazenda Piraquara, de Maria Ignácia, e com a Fazenda Bangu. As concessões foram revogadas.

Segundo a autora, Ildefonso era testa-de-ferro de Ana Bangu e conseguiu estas terras através de pressões nada sutis contra os donos anteriores, Izidoro Pereira dos Santos e seu genro, Manuel Proença, que, conforme relatado no capítulo sobre Bangu, criavam gado, plantavam café e forneciam capim à cavalaria do Exército. Conta a autora que eles “tiveram suas casas destelhadas, seus pertences jogados fora e os escravos dispensados”.

A partir daí, haveria vistorias e mudanças constantes na legislação, que acabaram, de certa forma, permitindo uma espécie de ocupação da área, facilitada pela feira mensal de cavalos e animais muares, ocorrida a partir de 1853, entre Campinho e Realengo, e muito concorrida. Era a chamada Feira de Campo Grande, origem do nome da atual rua da Feira. Nessa época, já havia na região muitos locais de pouso para viajantes na Estrada Real de Santa Cruz. Dali a alguns anos, a disputa por espaço nas terras realengas acabaria através de novos objetivos, estes mais estratégicos, para a ocupação. O verde oliva iria fazer parte da paisagem de Realengo de forma definitiva.

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