Sempre o Gabarito – a vez de São Conrado

No último sábado, dia 23, o jornal “O Globo” publicou matéria mostrando novas mudanças na paisagem da Cidade. Agora, o “alvo”, ou melhor, “a bola da vez”, seria o bairro de São Conrado, na Zona Sul.

Segundo a publicação, a Prefeitura do Rio planeja liberar a construção de prédios de até 11 andares em parte da Avenida Niemeyer, entre o Hotel Nacional e as proximidades do Túnel Zuzu Angel. Atualmente, no local são permitidas apenas casas. Quanto a estas, “poderão ocupar, caso a ideia vá adiante, uma área de encosta mais alta que a permitida atualmente. Outra mudança em análise é o aumento do gabarito em terrenos no entorno da Autoestrada Fernando Mac Dowell (Lagoa-Barra) em trechos ainda não verticalizados”.

A Prefeitura, por sua vez, rebate dizendo que a matéria contém erros “contra a atual gestão”, e que as alterações estariam sendo discutidas com representantes da sociedade civil. Vejam, abaixo, a matéria, na íntegra e a resposta da Prefeitura.

Nota: Para conhecer a proposta real da Prefeitura é necessário ter acesso à minuta do Projeto de Lei Complementar que o Prefeito pretende submeter à Câmara de Vereadores. Vale lembrar que a legislação urbana vigente para a região de São Conrado foi elaborada em 1988 com o objetivo de evitar o adensamento excessivo do bairro e evitar a ocupação das encostas arborizadas. A liberação de gabaritos de altura em São Conrado associada ao Novo (Velho) Código de Obras demonstra, mais uma vez, que este foi feito sob medida para o mercado imobiliário da Zona Sul. Melhor seria se o Prefeito cuidasse de prevenir a expansão das construções irregulares que prejudicam a cidade e colocam os moradores em risco.

Urbe CaRioca

Prefeitura quer construir mais prédios em São Conrado, e iniciativa provoca polêmica entre especialistas

Crivella estuda erguer construções de até 11 andares onde hoje só há casas. Investidores já começaram a procurar áreas disponíveis, principalmente na Estrada da Gávea

Luiz Ernesto Magalhães – O Globo – 21 de setembro de 2019

Matéria publicada originalmente no jornal “O Globo”

Protegido por legislação urbanística própria para evitar adensamento,São Conrado poderá ganhar mais edifícios: Crivella estuda permitir construções em áreas onde hoje só há casas Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

RIO — Se depender da administração municipal, a paisagem de São Conrado vai mudar. A prefeitura planeja liberar a construção de prédios de até 11 andares (incluindo cobertura) em uma parte da Avenida Niemeyer, entre o Hotel Nacional e as proximidades do Túnel Zuzu Angel, onde hoje só são permitidas casas. Elas, por sua vez, poderão ocupar, caso a ideia vá adiante, uma área de encosta mais alta que a permitida atualmente. Outra mudança em análise é o aumento do gabarito em terrenos no entorno da Autoestrada Fernando Mac Dowell (Lagoa-Barra) em trechos ainda não verticalizados. A revisão da legislação urbanística de São Conrado e do Joá será apresentada pela Secretaria de Urbanismo na próxima semana, durante uma reunião do Conselho Municipal de Políticas Urbanas (Compur), formado por técnicos da prefeitura e da sociedade civil.

As mudanças, que já provocam polêmica entre especialistas que tiveram acesso ao documento, dependem da aprovação de um projeto que o prefeito Marcelo Crivella deve enviar ainda este ano à Câmara Municipal. Apesar de a lei sequer ter chegado à Casa, o mercado imobiliário já se animou. Investidores começaram a procurar áreas disponíveis, principalmente na Estrada da Gávea.

Um dos donos do Motel Escort, que ocupa uma área de 2,5 mil metros quadrados na Estrada da Gávea, Manoel Malheiros diz ter recebido várias propostas e se prepara para deixar o negócio em breve:

— Para viabilizar a venda, estamos atualizando os dados do Registro Geral de Imóveis. Os sócios são de três famílias. Muitos já têm mais de 80 anos e nem todos os filhos se interessaram pelo negócio.

As normas urbanísticas para São Conrado estão em vigor desde 1988, quando foram estabelecidos limites para construções. Na época, o bairro vivia um boom imobiliário, com impacto inclusive no trânsito. Passados 31 anos, o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Pedro da Luz, que integra o Compur, vê a proposta de mudar as regras com preocupação. Para ele, o projeto contraria o Plano Diretor da cidade, que definiu a Zona Sul como área de ocupação controlada, onde o adensamento deve ser desencorajado. Ele defende o estímulo a empreendimentos em outras áreas, como a Zona Norte:

— Vivemos em uma cidade entre o mar e a montanha. Ao se permitir verticalizações perto de encostas, a paisagem é prejudicada. Um dos melhores exemplos foi justamente a verticalização no entorno do Morro da Viúva, no Flamengo.

Em vias internas de São Conrado, onde hoje só há casas, o projeto prevê a construção de prédios de até quatro andares (incluindo cobertura) em um padrão de ocupação semelhante ao do Jardim Oceânico, na Barra. Presidente da Associação de Moradores da Rua Capuri, uma das que seriam afetadas, Bernardo Rodenburg diz ser contrário:

— Somos favoráveis ao desenvolvimento sustentável desde que as características urbanísticas e ambientais sejam preservadas. Essa proposta não segue isso.

O ex-deputado Márcio Fortes, representante do Clube de Engenharia no Compur, tem outra opinião:
— As características de uma cidade mudam com o tempo. Naquele trecho da Niemeyer já foram permitidos prédios mais altos. Sobre as casas, não existe tanta demanda hoje nas ruas internas. Melhor ter prédios do que imóveis abandonados. São Conrado jamais terá um condomínio como o Jardim Pernambuco ( no Leblon ).

Prós e contras

Integrante da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário, Rubem Vasconcellos concorda em parte com o projeto:

— Adensar um pouco é bom porque ajuda na segurança pública. Só discordo da ideia para as ruas. Há demanda por casas.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) prefere opinar somente após a apresentação da proposta, na semana que vem. Mas o arquiteto Lucas Faulhaber, que representa o CAU no Compur, observa que a estratégia da prefeitura vai contra uma política que era defendida pelo próprio Crivella: tratar a legislação da cidade de forma integrada.

—É impossível qualquer intervenção ( na Niemeyer ) sem desmatar, seja para construir casas ou para escavar a encosta, com o objetivo de erguer prédios — disse Faulhaber.

A arquiteta Rose Compans, do Fórum de Planejamento Urbano, também critica:

— É um plano que só adensa o bairro.

Em nota, a prefeitura argumenta que a maior parte da Niemeyer será preservada e que a implantação da Linha 4 do Metrô deu uma nova dinâmica de circulação de pedestres à região. A administração municipal defende que as mudanças são compatíveis com a preservação do meio ambiente e que nenhuma iniciativa do projeto descaracterizaria São Conrado.

Villa Riso é uma das áreas mais cobiçadas por investidores

Um dos imóveis que mais deverão atrair o interesse de investidores, caso a proposta de mudança urbanística da prefeitura seja aprovada, é a Villa Riso. Em julho, o local, com 2.430 metros quadrados (entre jardins e área construída), chegou a se oferecido ao mercado por US$ 21 milhões. A venda, no entanto, não foi concretizada, e a mansão acabou sendo arrendada por um grupo que administra casas de festas.

No terreno onde palmeiras imperiais, plantadas no século XIX, resistem ao tempo, caberiam de quatro a seis prédios residenciais e comerciais, segundo estimativas de uma fonte do mercado imobiliário.

Com história. O imóvel, que resiste à especulação, já hospedou Dom Pedro II Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

A notícia de que a prefeitura quer mudar a legislação de São Conrado pegou de surpresa os empresários que arrendaram o imóvel. Sem poder dar detalhes por conta de uma cláusula de sigilo, eles garantem ter firmado um contrato de longo prazo para ficar no local.

—Estamos investindo R$ 400 mil em reformas. Já temos eventos reservados até 2023. Estamos seguros que vamos ficar. Temos muitos planos. Além de festas, queremos promover outros eventos no local e abrir o espaço, que é repleto de objetos de arte, para a visitação pública. Vamos reabrir também a capela para permitir cerimônias religiosas — disse Eduardo Marques, diretor comercial do grupo Blue Moon, que administra mais três casas de festas em construções antigas.

O destino da Villa Riso tem sido alvo de especulações desde a morte, em janeiro, de Cesarina Riso, filha do comendador italiano Oswaldo Riso, que comprou o imóvel em 1932. O GLOBO tentou, sem sucesso, localizar os herdeiros de Cesarina, que transformou a casa em espaço para festas nos anos 1980. De acordo com a Blue Moon, eles morariam na Europa.

A casa pertenceu ao conselheiro Ferreira Viana e costumava hospedar o imperador D. Pedro II. Na biblioteca da mansão, teria sido discutida a versão final da Lei Áurea.

Respostas da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro 

Publicado originalmente no site de notícias da Prefeitura

Mais uma vez o jornal O Globo mente e tenta manipular a opinião pública contra a atual gestão. É inadmissível que, mesmo tendo recebido respostas e esclarecimentos solicitados a respeito da proposta de alteração dos parâmetros urbanísticos de São Conrado, que está sendo discutida com representantes da sociedade civil, o jornal tenha conduzido a matéria com informações falsas.

O Globo simplesmente ignorou as informações oficiais enviadas pela Secretaria Municipal de Urbanismo.

Não é verdade a informação de que a revisão contemplará verticalização dos lotes situados ao longo da Avenida Niemeyer.

Os 11 pavimentos que a reportagem menciona estão sendo discutidos apenas no trecho entre a Avenida Niemeyer e a Estrada da Gávea, junto ao limite com a Rocinha e à estação de Metrô. Na maior parte da Avenida Niemeyer, não é permitida construção.

A Prefeitura fará sempre o que lhe cabe como promotora e estimuladora do desenvolvimento sustentável da cidade, pelo bem de sua população, a qualquer tempo, pois é seu papel e dele não abrirá mão em função dos interesses eleitorais do Globo.

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