Memórias cariocas, de Cleia Schiavo

Nas memórias da socióloga e professora Cleia Schiavo, a descrição dos passeios maravilhosos entre a Zona Oeste – o “Sertão Carioca” – e a Zona Norte, até à Cidade, como chamávamos o Centro do Rio de Janeiro durante o século XX, e, muito provavelmente desde a sua fundação. Cidade, portanto, era igual a Centro, igual, por sua vez, a Coração, onde, nas palavras da autora, o Rio pulsava. Que o texto agradável recorde também aos gestores públicos e a cada cidadão a urgência de olhar para esse espaço tão especial, hoje em grande parte abandonado e degradado.

Urbe CaRioca

Memórias cariocas, de Cleia Schiavo

Visitar o Centro da Cidade do Rio de Janeiro era o vício de minha mãe, urbana que era e ávida por conhecer as novidades que as novas lojas apresentavam. Não pertencíamos a uma classe média com conforto financeiro, mas, sim, a uma classe média baixa em ascensão. Ir “à Cidade” a cada quinze dias significava mudar o rumo da prosa suburbana, mudar o previsível de todos os dias e ver o que a modernidade apresentava então.

Era no centro da cidade, borbulhante e movimentado, que existiam muitas lojas modernas, como a Slopper – loja de departamentos da década de 1950, as Lojas Americanas, fundadas em 1929, e as Lojas Brasileiras, de 1944. Dentre as várias Leiterias e Confeitarias estavam as magníficas Casa Cavé e a Confeitaria Colombo, de visita obrigatória. A primeira mudou de endereço. A segunda continua na Rua Gonçalves Dias, majestosa e lindíssima, ainda orgulho do carioca.

Casa Cavé – Arquivo do Google
Confeitaria Colombo – Crédito: Twitter @ORioAntigo
Confeitaria Colombo – Arquivo do Google

Voltando às lojas de departamentos, com minha mãe íamos à moderna filial da MESBLA, na rua do Passeio onde, na década de 1950, comíamos um belo cachorro quente! Visitávamos também a Sears Roerbuck, na praia de Botafogo, onde veríamos pela primeira vez uma escada rolante*. Uma emoção só! Nela minha irmã e eu subíamos e descíamos várias vezes, para nós um brinquedo gigante! Quando poderíamos imaginar que uma escada pudesse andar sozinha?

Mesbla – Fonte: Rio&Cultura
Sears – Foto: Luiz Paulo – Agência O Globo.

Os tempos dourados foram de modernização do comércio, das grandes lojas com vários andares onde as mercadorias ficavam expostas aos olhos de quem podia ou não comprar. Não esqueço de que me senti em Hollywood quando vi as bijuterias da Cada Slopper, todos aqueles barangandã à minha espera… E todos lá ficaram!

Mamãe também gostava de ir a outras lojas onde as modernidades domésticas eram exibidas: fogões, geladeiras e, a partir de 1954, televisões e vitrolas. Lá seus olhos se enchiam de brilho, imaginando quando poderia ter um daqueles enormes armários brancos em casa, a geladeira! Onde morávamos à época, o subúrbio de Cascadura, um vizinho comprara uma, com pinguim e tudo. Muito engraçado foi quando sua filha decidiu convidar os amigos para beber um copo de água gelada: organizou-os em fila para experimentar aquela delícia refrescante. Depois surgiram sucos de todos os tipos e até sorvete, o que fez a geladeira tornar-se, para nós, a oitava maravilha do mundo. Foi uma experiência magistral, sobretudo pela esperança que representou pois, quem sabe um dia poderíamos também oferecer aos amigos um copo de água gelada!

Na verdade, os anos dourados dinamizaram a vida pacata das famílias tornando o espaço público atrativo pelos seus cinemas, teatros e salões de baile, livrarias, e as paradas para um lanche. Nas leiterias da rua Luiz de Camões às vezes, saboreávamos um pudim com ameixa servido em um copo igual ao que tomávamos água em casa, água ainda sem gelo, naturalmente. Isso acontecia quando o dinheiro era curto, só dava para a “iguaria” baratinha, nem por isso menos gostosa. Até das cores eu me lembro: o amarelo do pudim de leite e o marrom do doce de ameixa que finalizava o copo.

Às vezes retornávamos à casa no bonde cujo ponto ficava no Largo de São Francisco. Era uma longa viagem. O trajeto percorrido passava pela Avenida Suburbana, parte da antiga Estrada Real de Santa Cruz. A disputa pelos lugares nesse tipo de transporte é uma outra história… Em um desses embates minha tia Olga conheceu seu “sargentinho” e futuro marido no mesmo bonde que ia até Madureira, o afetuoso tio Carmelo, de uma tradicional família católica de São João Del Rei. Todos os familiares eram “viciados” em boa música.

Arquivo do Google

Ainda sobre o bonde que pegávamos no Largo de São Francisco, tia Olga entrava na estação de Triagem onde ficava o laboratório no qual trabalhava. Ali, o bonde ficava lotado mesmo para valer com as operárias do laboratório e os militares que trabalhavam no Hospital Central do Exército.

Muitos namoros surgiram nos caminhos traçados por aqueles trilhos que não mais existem e deixam saudades até aos que não os conheceram.

*Nota sobre a primeira escada rolante na cidade do Rio de Janeiro: Antes das lojas já mencionadas no texto acima, havia uma importante loja fundada no século XIX de nome Parc Royal. Fundada em 1873 no Largo de São Francisco foi incendiada no ano de 1943 quando deixou de existir. Essa loja atendia a elite da cidade atraída pelos catálogos europeus de moda, principalmente os franceses. No seu interior já existia uma escada rolante certamente menos sofisticada do que aquela que usamos na Sears Roebuck na década de 1950.

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