Um gambá na quarentena

CrôniCaRioca, de Andréa A. G. R.

 

Credito: Site freepik.com

Dia 3 – A notícia

Telefona o porteiro. Calma e educadamente diz:

_Temos um probleminha aqui, quero falar com a senhora.

Durante a fração de segundo que se passa entre essa e a notícia que virá, um turbilhão de pensamentos. Vazamento no apartamento do vizinho, quebra-quebra, bombeiros e pedreiros mascarados, litros de álcool-gel, meu banheiro e o da vizinha destruídos… Será na cozinha? Vou fugir para a sala… A voz pausada me acorda do devaneio.

_Tem um gambá no seu carro. Deve ter vindo com a senhora, da Serra.

Silêncio nas duas pontas do fio que me liga à portaria.

_Como sabe?
_Há dois dias a lixeirinha que fica ao lado do seu carro amanhece virada. Ontem o lixo da lixeira estava revirado.

Lixeirinha, lixo e lixeira, que confusão. Interrompo as explicações e suspeitas sem fim.

_Está bem, mas, e o bicho, o senhor viu?
_Não, senhora, mas tem caca e restos de comida no motor do seu carro.
_Então vamos pedir os vídeos gravados pelas câmeras…
_Ah! As câmeras, sim. Ontem o vigia viu o gambá pela televisãozinha.

Finalmente algo concreto. Concluo: No Dia 1 a lixeirinha foi derrubada. No Dia 2 o lixo – que fica no compartimento chamado Lixeira – estava revirado. Para confundir mais, salve Abelardo Barbosa que está com tudo e não está prosa, dentro da Lixeira – o compartimento – há uma caçamba diariamente torpedeada pelo lixo jogado no tubo de queda (personagem abolido pelo Código de Obras), a qual também chamam de… lixeira. Fui avisada apenas no Dia 3.

Pensaram que seria fácil pegar o bicho. Bondosos, me poupavam. Consultei os amigos da Fauna Silvestre. Viriam recolhê-lo… depois que eu o capturasse. Trabalho à frente, pois. Aprendi que não veio comigo da curta quarentena que fiz na Serra. Com a pandemia os bichos estão soltos no Rio. É carioca. Estranhei sobreviver durante uma hora e meia sofrendo com calor e barulho constantes. Nem Darwin acreditaria!

Dia 4 – Ideologias e sugestões

As notícias continuavam a chegar em doses homeopáticas. Aprendi que existem ideologias distintas entre os funcionários: há os “gambacidas” e os ambientalistas.

_Ontem ninguém viu. O fulano perdeu a oportunidade. Naquele dia ficou cara-a-cara com ele e amarelou. Num instante fugiu para debaixo do seu carro.

_Quem sabe foi embora?

_Está lá. Deixou pistas. Achei uma amêndoa no chão. E outras coisas.

Polêmica também entre os amigos. “Uma volta de carro, ele vai fugir”. “Não! Se sair correndo será atropelado e você acusada de crime ambiental!” “Ele gostou da acolhida, tem comida perto”. “Os parques estão abertos, um passeio na Floresta, ele vai gostar”. “Tem que proteger, sabia que gambá come cobra venenosa?”. “Apareceu um na minha janela, tomei um susto, ele levou outro comigo!” “Tem que salvar e levar para a FioCruz”. “Põe uma música bem alta para ele ficar incomodado e sair”. “Lava o chão com creolina”. “É roedor. Vai roer os fios e causar um curto-circuito, é perigoso!”. “Esquece, não vai sair, é animal de hábitos noturnos”.

Pesquisei o que come o marsupial. De tudo, é onívoro. Segundo a internet, “raízes, frutas, vermes, insetos, escorpiões, aranhas, moluscos, crustáceos (…), anfíbios, serpentes, lagartos, pequenos mamíferos e aves (ovos, filhotes e adultos)”. Colocamos uma banana na Lixeira (o compartimento), a porta aberta. O plano era o vigia noturno vigiar, correr para a Lixeira quando o parente de canguru estivesse entretido com a banana, e fechar a porta, cumprindo-se a missão de captura e, assim, chamar a Patrulha Ambiental. O bicho ignorou a fruta.

Dia 5 – Sem posto, com armadilha

Foi visto de madrugada passeando pela garagem. Não houve tempo para o vigia chegar perto. Sumiu de novo.

 

Achei uma amêndoa rosa no meio daquele mundo de peças que ficam escondidas pelo capô. Aprender japonês deve ser mais fácil do que entender aquilo. Tentei pescar a castanha. Escapou, afundou, e sumiu igualzinho ao gambá no conjunto complexo e preto parecido com o monstro Alien, aquele Oitavo Passageiro intruso. Tenho agora o nono passageiro. Vou levar o carro a um posto de abastecimento, lavar por baixo, chassis e carter, e dar um jato de ar no alien, isto é, no motor. Telefono para marcar. “Gambá? Já vi rato, gambá, nunca”. “Elevador de carro só para troca de óleo”. “Não fazemos isso aqui, não”.

Minha vizinha engenhosa e criativa montou uma armadilha espetacular. Dentro, um pratinho com um ovo, nozes, e pasta de amendoim. Infalível.

Dia 6 – A recusa e o temor

Armadilha infalível para qualquer animal faminto. Não para o hóspede sem convite. Ignorou o cardápio especial. Alguém disse que esse bicho gosta de cachaça. Não tenho. Por ser exigente, provavelmente recusaria. Penso sobre oferecer whisky 12 anos. Tomara que funcione.

Caixa, lápis, fios de nylon e caneleira: armadilha (quase) infalível – Crédito da invenção: SM

Creio que seja fêmea (será uma Gamboa?) fazendo ninho no meu carro. A internet também ensina que “Os gambás podem reproduzir-se três vezes durante o ano, tendo dez a vinte filhotes em cada gestação, que dura de doze a catorze dias”. Socorro! Tenho uma semana para resolver a pendenga animal.

Comento meu temor com um dos funcionários.

_É macho, está bem grande, assim, ó, mas muito magrinho. É macho. Meu colega ficou encarando, ele encarando o meu colega um tempão. Disse que é macho. Tem gente que come, é só tirar a glândula fedorenta.

Cruzes… Nada entendi dessa conversa. Parece que só mulher pode ser gordinha. O colega disse que é macho porque observou algum detalhe, viu a carteira de identidade, ou pela macheza que o bicho teve de ficar “encarando” o humano? Tudo isso à noite em uma garagem escura. Inacreditável.

Dia 7 – O Secador

Prazo correndo, tentativa desesperada. Levei meu secador de cabelo e uma extensão para a garagem. Barulho e ar quente haveriam de espantar o gambá, que sairia em busca de um habitat mais agradável e arejado do que o motor alienígena do meu carro. Quinze minutos de poluição sonora e calor exacerbado de nada adiantaram. Telefonei para a concessionária.

_Boa tarde. Vocês fazem serviço simples, apenas lavar o carro e o motor? Tem um gambá no meu carro.
_Sim, não é caro.
_O porteiro acha que está entre o para-lama e o apara-barro.
_O quê?
_O gambá.
_Gambá de verdade?
_Sim.
_Ah, desculpe, pensei que seu carro estivesse cheirando a gambá.
_O porteiro disse que está. Logo no meu carro, velho, mas ainda com cheirinho de novo. Bem, tinha, não mais, agora o perfume é outro.
_A senhora pode marcar e trazer.
_Obrigada. Mas estou de quarentena. Alguém pode buscar o carro?
_Sim, é um pouco mais caro do que o serviço.

O preço é inviável. Ou pago e me livro do gambá, ou eu mesma levo o possante, volto sem gambá, o carro cheiroso, e arrisco trazer o coronavírus para casa. Sinuca de bico.

Dia 8 – A ausência e a carta

_Bom dia. O gambá entrou na armadilha?
_Não senhora. O ovo ficou podre.
_Bicho teimoso e mal-agradecido. Vou resolver isso agora ou daqui a uma semana teremos mais vinte gambás aqui – se for fêmea.

Abro o capô e encontro uma carta, escrita com ranhuras na superfície de uma casca de árvore.

“Prezada senhora, quem vos escreve é o Gambá.

Em primeiro lugar não poderia deixar de agradecer a generosa acolhida. Seu carro é agradável, fica em localidade aprazível, com boa infraestrutura e saneamento básico, coisa rara por aqui. Nada me cobrou, portanto, como dizem os corretores de imóveis, ponto, planta e preço. Perto da lixeira e suas comidinhas, ao lado de um tanque sempre com sobra da água fresca sem geosmina que aplacou a minha sede, e próximo de lindas amendoeiras, garantia de jantar farto. Meu quarto, um pequeno chalé bem escurinho, convinha a um bicho que prefere isolamento durante o dia.

Vou confidenciar um segredo. Tenho alguns dons. Entendo o idioma dos humanos, ouço bem, faço leitura labial, e leio até pensamentos. Por isso prezo em saber que a senhora se manteve firme ao lado dos ambientalistas e protetores dos animais, evitando que eu levasse uma paulada ao sair para comer e beber no meio da madrugada. Sabe-se lá com o representante de qual ala ideológica eu me depararia “cara-a-cara”.

Peço perdão à sua vizinha. Diga que não fique frustrada porque recusei a refeição sofisticada, preparada com esmero, nem caí na armadilha engenhosa que muito esforço fez para montar. A essa altura a senhora deve ter percebido que sou bicho, mas não sou burro, nem ignorante. Sou gambá esperto, até me finjo de morto para enganar os predadores. Descartei a refeição apetitosa para preservar minha segurança.

Permito-me deixar a dúvida quanto ao meu sexo. Nos dias atuais é tema irrelevante. Do mesmo modo, quanto à minha cor – que ninguém notou nos vídeos em preto e branco, muito menos na garagem escura – assunto também irrelevante. O que importa é o caráter. Uma pista: se um dia passar pela sua calçada um gambá carregando vinte filhotes no marsúpio e parar para uma reverência respeitosa, serei eu fêmea. Caso, ao contrário, apareça um gambá sozinho e faça um leve aceno, sou macho e estava armazenando comida no seu carro para a prole a caminho. Quanto ao whisky 12 anos, seria perfeito! Salve se tiver um Blue Label, ainda melhor.

Despeço-me por já ter encontrado moradia mais adequada para uma família numerosa, casa digna, vários cômodos no tronco oco de uma árvore. Em retribuição pela hospitalidade, deixo um frasco da minha fragrância predileta, Parfum Coco Putois.

Caso não goste, presenteie um inimigo, embora creia que a senhora não os tenha.

Cordialmente.
Gambá”

Foto: TG (G1)

  1. Delícia de crônica. Ao meio de tantas informações jornalísticas, “ covídicas” e acadêmicas, ela vem dar um descanso nas ideias. O final foi bem criativo e com uma pitada de um “dedo urbano”.

  2. Amei esta crônica. O cheiro de Gambá, para quem mora entre o Canal das Taxas e o Rio Morto, não é muito diferente do cheiro (ou chorume) em dia de lençol freático saturado.
    Não por menos sou super fã das crônicas postadas na Urbe Carioca.
    Abçs mais que cordiais
    Carla Crocchi Fotos em Arte

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