Morro da Viúva: a história escondida entre os prédios da Zona Sul

Escondido entre os bairros do Flamengo e de Botafogo, quase apagado pela verticalização que transformou a paisagem da Zona Sul carioca, o Morro da Viúva guarda uma história muito maior do que sua discreta presença sugere. Atrás de uma cortina de edifícios, a colina preserva fragmentos da memória do Rio de Janeiro que atravessam séculos, reunindo vestígios da ocupação colonial, estruturas do período imperial, antigas instalações militares e curiosas narrativas que ajudam a compreender a formação da cidade.

Mais do que um acidente geográfico cercado pelo crescimento urbano, o Morro da Viúva funciona como um verdadeiro arquivo a céu aberto. Entre reservatórios históricos, lendas, palacetes desaparecidos e panoramas que já foram considerados estratégicos para a defesa da Baía de Guanabara, o local revela como diferentes épocas deixaram suas marcas sobre o mesmo território. Conhecer sua trajetória é revisitar capítulos pouco conhecidos da história carioca e descobrir um patrimônio que permanece vivo, embora despercebido pela maior parte da população.

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Morro da Viúva: conheça a natureza escondida entre prédios da Zona Sul do Rio

Entre Flamengo e Botafogo, morro guarda um reservatório do Império, vestígios militares e paisagens que passam despercebidas pela maioria dos cariocas

Por Mariana Motta – Diário do Rio

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Morro da Viúva

Quem passa pelas avenidas Rui Barbosa e Oswaldo Cruz dificilmente imagina que, atrás de uma muralha de edifícios residenciais, existe uma área verde carregada de história. Quase invisível para quem circula entre Flamengo e Botafogo, o Morro da Viúva resiste como um dos recantos mais curiosos e menos conhecidos da Zona Sul carioca. Escondida pela verticalização que transformou a região ao longo do século XX, a colina abriga trechos preservados de Mata Atlântica, um antigo reservatório de água do período imperial, vestígios militares e histórias que remontam aos primórdios da ocupação da cidade.

A sensação de invisibilidade não é recente. A partir da década de 1940, o processo de verticalização dos bairros do Flamengo e de Botafogo acelerou a ocupação do entorno do morro. Prédios de alto padrão foram erguidos ao longo das encostas e acabaram bloqueando sua visualização a partir das ruas. Hoje, quem percorre a Avenida Rui Barbosa ou a Avenida Oswaldo Cruz muitas vezes sequer percebe a existência da elevação, que praticamente desaparece atrás dos edifícios.

A própria Avenida Rui Barbosa está ligada à transformação da paisagem local. Aberta na primeira metade do século XX, a via passou a contornar o morro pelo lado voltado para o mar e ajudou na ligação entre Flamengo e Botafogo. Considerada uma continuação da Avenida Beira-Mar, inaugurada em 1906 sobre áreas aterradas da orla, ela abriu caminho para a valorização imobiliária que viria nas décadas seguintes.

Apesar das mudanças urbanas, o Morro da Viúva ainda preserva importantes elementos históricos. O acesso mais conhecido atualmente é uma escadaria localizada na Avenida Oswaldo Cruz, que leva ao topo da colina. Ali permanece um antigo reservatório de água construído durante o Império e desativado há décadas.

O reservatório foi inaugurado em 1878 como parte de um projeto de abastecimento que utilizava as águas dos mananciais da Floresta da Tijuca para atender bairros como Botafogo, Praia Vermelha e Leme. Embora não esteja mais em operação, a estrutura continua preservada e é uma das marcas mais visíveis da ocupação histórica do local.

Nas proximidades do reservatório ainda existe um pequeno conjunto residencial ligado às antigas atividades da estrutura hidráulica. Uma das histórias mais curiosas do Morro da Viúva está ligada ao empresário italiano Giuseppe Martinelli, responsável pela construção do Palacete Martinelli na Avenida Oswaldo Cruz, no início do século XX. O empresário transformou o topo do morro em uma área de lazer privada, com jardins, fontes, quadras esportivas e até uma capela inspirada na Basílica de Lucca, na Itália. Para acessar o espaço, foi construído um túnel escavado na rocha e um elevador que ligava o palacete ao alto da colina.

Décadas depois, o palacete foi demolido durante a Segunda Guerra Mundial para dar lugar ao condomínio Signori del Bosco, que preservou parte dos jardins originais. Segundo relatos históricos, a inauguração da capela teria contado com a presença do então líder italiano Benito Mussolini, um dos convidados de honra da cerimônia.

A história do local também é cercada por lendas. Uma das mais conhecidas diz que uma cigana teria previsto que Martinelli morreria quando as obras de seu palacete fossem concluídas. Para evitar o destino anunciado, o empresário teria mantido reformas permanentes na propriedade, expandindo as construções pela encosta do morro ao longo dos anos.

O conjunto original desapareceu em 1976, quando o incorporador Sérgio Dourado adquiriu o terreno e demoliu o antigo palacete para erguer o edifício Signori del Bosco, arranha-céu residencial que passou a fazer parte da paisagem da região. Ainda assim, parte dos jardins e elementos paisagísticos associados ao antigo complexo foi preservada e permanece integrada à área verde existente no Morro da Viúva.

A paisagem do Morro da Viúva começou a mudar de forma mais intensa a partir da década de 1940, com a construção do edifício Hilton Santos. Projetado para ser a nova sede do Flamengo, o empreendimento foi considerado uma das maiores estruturas de concreto da América do Sul e se tornou um dos símbolos da região.

Inaugurado em 1952, o prédio viveu seu auge nas décadas de 1950 e 1960, quando recebeu reuniões de diretoria, contratos de jogadores, bailes de carnaval, festas e eventos sociais que marcaram a vida do clube. Com o passar dos anos, porém, perdeu importância diante da expansão da estrutura rubro-negra na Gávea e entrou em um período de decadência. Recentemente, o prédio passou recentemente por um amplo processo de retrofit e voltou ao mercado como empreendimento residencial de alto padrão.

Prédio Hilton Santos (no centro), no Morro da Viúva, no Aterro do Flamengo há algas décadas Foto: Sebastião Marinho

A história da colina, porém, começou muito antes da urbanização da Zona Sul. Antes de receber o nome atual, o local era conhecido como Morro do Léry ou Morro do Leryfe, em referência ao missionário protestante francês Jean de Léry. O religioso esteve na Baía de Guanabara durante a ocupação francesa do século XVI e teria vivido nas proximidades após desentendimentos com Nicolas Durand de Villegagnon.

Próximo ao morro existia a chamada “Casa de Pedra”, mencionada em registros históricos da época colonial. Alguns pesquisadores acreditam que a construção tenha sido erguida por Martim Afonso de Souza durante sua passagem pela Guanabara, em 1532. A casa se tornou uma importante referência geográfica da região durante os primeiros séculos da colonização portuguesa.

O morro passou a ser conhecido como Morro da Viúva após as terras se tornarem propriedade de D. Joaquina Figueiredo Pereira Barros, viúva de Joaquim José Gomes de Barros. Antes disso, a região integrava antigas sesmarias e chegou a figurar em registros como propriedade vinculada à Câmara da Cidade do Rio de Janeiro.

Após a fundação da cidade por Estácio de Sá, em 1565, e a expulsão definitiva dos franceses em 1567, a Coroa Portuguesa buscava locais estratégicos para garantir a ocupação da região. Morros como o da Glória, do Pasmado, da Viúva e o então Morro de São Januário, posteriormente conhecido como Morro do Castelo, eram vistos como pontos privilegiados por oferecerem ampla visão da entrada da Baía de Guanabara.

O Morro da Viúva possuía localização estratégica, próximo à foz do Rio Carioca e com boa visibilidade da baía. No entanto, sua formação predominantemente rochosa e a limitação de espaço dificultavam a construção de fortificações e áreas residenciais. Por esse motivo, o Morro do Castelo acabou sendo escolhido para sediar o núcleo urbano da cidade.

Mesmo sem protagonismo militar nos séculos seguintes, a importância estratégica do local voltou a ser reconhecida no século XIX. Em 1863, durante a chamada Questão Christie, crise diplomática entre o Brasil e o Reino Unido, foi instalada uma bateria militar no topo do morro para reforçar a defesa da Praia do Flamengo e da Enseada de Botafogo.

A posição funcionava como apoio às fortalezas de São João, Lage e Villegagnon na proteção da entrada da Baía de Guanabara. Embora nunca tenha sido uma fortificação de grande relevância, voltou a ser utilizada durante a Revolta da Armada, entre 1893 e 1894, quando a Marinha se rebelou contra o governo da recém-proclamada República.

Entrada do Forte do Morro da Viúva

Além da relevância militar, o Morro da Viúva ajudou literalmente a construir o Rio de Janeiro. Ao longo dos períodos colonial e imperial, suas pedreiras forneceram pedras para diversas obras da cidade. Registros históricos indicam que parte do granito utilizado em construções como o Mosteiro de São Bento foi extraída da região. Há também referências que apontam o morro como origem do bloco de pedra utilizado na construção do Obelisco da Avenida Rio Branco.

Hoje, mesmo cercado por edifícios e praticamente invisível para a maioria dos cariocas, o Morro da Viúva continua preservando uma parte importante da memória da cidade.

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