SOBRE A DEMOLIÇÃO DO ELEVADO DA PERIMETRAL

A Editoria de Opinião do Jornal O Globo de segunda-feira, 18/6/2012, trouxe ao debate mais um tema de interesse do Blog Urbe CaRioca – a Remoção do Elevado da Perimetral –, com a publicação de dois artigos.

Em NOSSA OPINIÃO foi publicado o texto Caminho certo, de autoria do importante veículo de comunicação.

Em OUTRA OPINIÃO consta o texto Ampliar o debate, de autoria de Jorge Borges.
Vista aérea do trecho do Elevado da Perimetral que será demolido
Foto: Agência O Globo

O Blog publica os dois artigos, em conformidade com os assuntos que se propõe a divulgar para incentivar discussões em prol da Cidade do Rio de Janeiro. Abaixo, os dois textos por extenso. Os links estão nos títulos respectivos.
Elevado da Perimetral e Armazéns do Cais do Porto
www.estadao.com.br Tasso Marcelo
TEMA EM DISCUSSÃO:

Remoção do Elevado da Perimetral

NOSSA OPINIÃO (Jornal O Globo)

A solução de crônicas demandas urbanísticas do Rio (transportes, redirecionamento do adensamento populacional, criação de novas áreas de interesse econômico, habitação e lazer) passa pela revitalização da Zona Portuária. Desde, pelo menos, a década de 70 discutem-se projetos que reintegrem à dinâmica da cidade essa imensa e degradada área de 8,4 milhões de metros quadrados, ao longo dos bairros de Gamboa, Santo Cristo, Caju e Saúde, e que se estende até os limites das avenidas Presidente Vargas, Rodrigues Alves, Rio Branco e Francisco Bicalho.

Turbinada por compromissos assumidos pela prefeitura carioca para realizar no município os Jogos Olímpicos de 2016, a ideia de revitalizar essa região — onde moram cerca de 28 mil pessoas, a grande maioria de baixo poder aquisitivo e condições habitacionais abaixo dos padrões de qualidade aceitáveis — ganhou corpo e está sendo tirada do papel por um ambicioso, positivo e necessário, programa de obras.

A reurbanização da Zona Portuária é puxada pelo projeto Porto Maravilha, que prevê a recuperação física de áreas degradadas, através de uma série de intervenções que visam a resgatar a vitalidade da região. Entre as transformações propostas, e agora saindo da prancheta, as obras que legarão um novo perfil urbanístico à Avenida Rodrigues Alves, ao longo do Porto, têm como principal ação a demolição do Elevado da Perimetral, que acompanha o traçado da avenida desde o Caju até as proximidades do Aeroporto Santos Dumont.

Trata-se de polêmica opção, pelas alterações radicais que promoverão no trânsito daquela parte da cidade. Construído em partes a partir da década de 50, o viaduto foi concebido como necessária alternativa para escoar o trânsito da Avenida Brasil e desfazer os gargalos que, em face do crescimento da cidade, começavam a ser formar naquela que, à época, era a principal porta de entrada e saída do Rio. O problema é que tal demanda foi resolvida à custa do agravamento radical da degradação daquela região.

O Elevado praticamente acabou com o que ainda havia de dinamismo na Zona Portuária. De um lado, segrega uma área confinada em ruas sem preservação, imóveis antigos cujos proprietários não se animam a investir na sua recuperação, por falta de perspectivas de retorno, engarrafamentos diários nos dois níveis de pistas (no viaduto e na Rodrigues Alves) etc; por outro, subtrai da vista dos bairros ali encravados a beleza da Baía de Guanabara. Como resultado, é praticamente zero o potencial turístico, comercial, residencial e de lazer do entorno da via — e, por decorrência, de toda a área a ela colada, com prejuízos para os moradores e falta de estímulos a empreendimentos econômicos.

A decisão da prefeitura de recuperar essa região do Centro obedece a uma lógica urbanística aplicada com sucesso em diversas cidades — Barcelona, Nova York e Buenos Aires entre elas, que revitalizaram suas zonas portuárias, reintegrando-as à vida urbana como pulsantes módulos de ocupação, em alternativa a regiões já saturadas. Seria um contrassenso reurbanizar o Porto e lá deixar encravada justamente uma construção que ajudou a degradar todo o seu entorno. É positivo também que, estando adiantadas as obras viárias concebidas como alternativa para o trânsito do viaduto, o município tenha decidido antecipar a remoção. O caminho da modernização do Centro já está (bem) traçado, e ganha a cidade nele entrando o mais cedo que puder.
www.portomaravilha.com


OUTRA OPINIÃO

JORGE BORGES

Não se trata apenas de discutir a demolição da Perimetral, pois teremos também a extinção da Avenida Rodrigues Alves e uma total redefinição das ligações viárias ali existentes. Estamos falando da “esquina da metrópole”. Um pedaço da cidade onde temos a confluência entre a Ponte Rio-Niterói, a Avenida Brasil e algumas das principais ligações viárias do Centro, e deste com a Zona Sul. Isso tudo leva esse trecho a suportar um número de viagens diárias que passa facilmente da casa dos milhões.

A ideia da demolição não é nova e reaparece na atual gestão com uma total e absoluta falta de transparência. O projeto nunca foi apresentado publicamente, seus custos estão subdimensionados e os efeitos sobre a mobilidade são discutíveis. Quase ninguém sabe o que será feito, muito menos como, nem quando ou por quanto.

Projetos alternativos poderiam ser elaborados de modo a melhorar os aspectos estéticos, o conforto acústico e a integração da estrutura do elevado com a paisagem do entorno — inclusive com os novos empreendimentos previstos para a região. Pesquisadores da FAU/UFRJ chegaram a elaborar uma proposta que reunia essas e outras características, mas sequer foram ouvidos pela prefeitura. O diálogo não está em pauta.

A relação do poder público com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Porto (CDURP) e o consórcio Porto Novo ganha contornos de psicopatologia. Alardearam o projeto Porto Maravilha como uma ação financiada predominantemente com recursos privados, através dos Cepacs, e a CEF banca tudo com os recursos do FGTS. Anunciaram a demolição da Perimetral a custo zero e agora já se fala em R$1,2 bilhão. A prefeitura repassa por lei direitos, obrigações e prerrogativas exclusivas do poder público para a CDURP, esta repassa tudo por contrato para o consórcio, e este, para dar conta de parte dessas obrigações, contrata empresa… da prefeitura!

As últimas ações no reordenamento do tráfego urbano, principalmente na região do Centro, tem apontado para uma estratégia, no mínimo, inadequada. Uma série de inversões de direção, além de fechamentos e realocações de acessos, tem levado ao desvio das principais rotas de automóveis e linhas de ônibus. Com isso, algumas vias que tinham um papel estruturante na rede viária passam a ser meras alimentadoras. Por um lado, essas vias têm seu fluxo diário bastante diminuído. Por outro lado, as demais vias estruturais passam a receber uma carga muito maior, levando à formação de novos gargalos e pontos de retenção que duram o dia inteiro e não apenas os horários de pico.

Pelos poucos dados disponibilizados até agora, esse mesmo processo já está sendo gestado na região portuária. A combinação da demolição da Perimetral com a criação do Binário e a reconfiguração da malha viária da região apontam para a formação de um certo enclave territorial, onde os principais fluxos de longo curso serão desviados e concentrados para fora dali, transferindo os engarrafamentos já quase insuportáveis para áreas com menos visibilidade e, pelos critérios dos nossos atuais gestores, importância. A demolição da Perimetral trará consequências muito sérias para quem mora no Rio. Precisamos cobrar a ampliação desse debate.

JORGE BORGES é especialista em Planejamento Urbano e mestre em Planejamento de Transportes.

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