O caso envolvendo o imóvel da Rua Barão de Itambi, em Botafogo, ingressa agora em uma nova fase, marcada por decisões judiciais aparentemente oscilantes e por um crescente tensionamento entre os limites da atuação administrativa e as garantias constitucionais da propriedade privada.
Se, de um lado, decisões recentes chegaram a manter a realização do leilão com base na presunção de legalidade dos atos do Poder Executivo, de outro, novas intervenções do Judiciário voltam a suspender o certame, evidenciando a instabilidade jurídica que passou a caracterizar o episódio. Trata-se de um cenário no qual a desapropriação por hasta pública — instrumento ainda em consolidação prática — deixa de ser apenas um mecanismo urbanístico e passa a ocupar o centro de um debate mais amplo sobre segurança jurídica, finalidade pública e desvio de poder.
A evolução recente do conflito revela que não se trata apenas de uma controvérsia pontual, mas de um verdadeiro laboratório institucional sobre os limites do poder estatal na reconfiguração do uso da propriedade urbana. A tentativa de levar a leilão um imóvel ativo, contestada judicialmente pelo proprietário e rejeitada por parcela significativa da sociedade local, expõe fraturas relevantes entre planejamento urbano, interesse público e direitos fundamentais.
Nesse contexto, a nova suspensão do leilão não encerra a controvérsia — ao contrário, inaugura um capítulo em que o Judiciário assume papel ainda mais decisivo na definição dos contornos jurídicos da política urbana no Rio de Janeiro, com potenciais efeitos que ultrapassam o caso concreto e alcançam todo o ambiente regulatório e econômico da cidade.
Urbe CaRioca
Justiça do Rio volta a suspender leilão de imóvel desapropriado em Botafogo
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Em mais um capítulo envolvendo o imóvel desapropriado pela prefeitura na Rua Barão de Itambi, em Botafogo, a Justiça do Rio voltou a suspender o leilão do espaço. Nesta segunda (20), uma decisão judicial atendeu a um pedido do Grupo Sendas, antigo proprietário do prédio, e barrou a venda por enquanto.
A decisão foi confirmada pelo vereador Pedro Duarte (PSD), presidente da Comissão de Assuntos Urbanos. Ele foi autor de uma das ações contestando a desapropriação.
“Não é a decisão final ainda; os desembargadores ainda deverão debater, ver os argumentos apresentados por cada um dos lados, mas eles reconheceram o risco que existe no avanço desse leilão e, por isso, hoje ele está suspenso”, explicou o vereador.
Grupo Sendas acusa prefeitura de privilegiar FGV com desapropriação em Botafogo
A nova suspensão já leva em conta as últimas atualizações do caso na Justiça. As primeiras ações envolvendo o caso em Botafogo foram movidas ainda no final do ano passado, quando a prefeitura decretou a desapropriação. Neste ano, no entanto, o prefeito Eduardo Cavalieri (PSD) revisou o decreto municipal e publicou uma nova “versão” do texto que torna o imóvel como de interesse público.
Com isso, a ação judicial original do Grupo Sendas, que questionava a primeira legislação municipal, já foi extinta e as partes agora disputam em torno do novo texto.
A rede varejista, que operava supermercados no espaço em Botafogo, alega que a prefeitura está privilegiando uma entidade privada de forma arbitrária com a desapropriação.
Segundo o grupo, pontos centrais do processo não receberam o devido exame e afirma que a manutenção das atividades econômicas no edifício descaracteriza a necessidade de desapropriação.
A ação da prefeitura que desapropriou o espaço prevê a instalação de um centro de pesquisas com inteligência artificial no imóvel. Antes mesmo da conclusão do trâmite legal, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) já tinha um projeto para o centro em Botafogo.
O imóvel não estava sendo utilizado quando a prefeitura o desapropriou, mas os antigos proprietários já estavam em negociações avançadas para instalar uma unidade do supermercado Mundial no prédio.
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