Receita para evitar discussões inúteis e brigas, manter amizades e não criar inimizades durante o período eleitoral

Andréa Albuquerque G. Redondo

“ Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei (…). –  Constituição Federal de 1988

Caro amigo,

Ofereço o caminho perfeito para se evitar discussões inúteis entre opostos a caminho do sufrágio universal, afastar brigas, manter amizades construídas ao longo do tempo e não criar inimizades, em especial durante períodos eleitorais conturbados. A fórmula se aplica a todos os lugares onde os ânimos estejam exaltados, onde cada um queira puxar a brasa para a sua sardinha, e convencer o espectador a mudar de ideia a qualquer preço. Segue a sugestão.

A RECEITA

Ingredientes obrigatórios:

Respeito; máscara de teatro No, para esconder sentimentos; cara de paisagem, variante do item anterior; estoicismo, para ouvir, calado, bordões como se fossem novidade; pragmatismo, para conter respostas incendiárias; onomatopeias usadas a gosto – hã hã para concordar; hã? para ganhar tempo; humm para mostrar boa-vontade. 

Ingrediente opcional:

Bons atores podem acrescentar o moderninho “tamujunto”, mesmo que discordem, e encerrar o assunto com sorrisos falsos ou sinceros.

Ingredientes proibidos:

Agir com soberba; desmerecer o interlocutor; desqualificar a outra escolha; rir dos argumentos alheios, também vedados rss, kkk, ha-ha, e o perigoso rá-rá-rá, gargalhada capaz de provocar rebeliões e impropérios; responder “de jeito nenhum” e “jamais” se for para contrariar.

Ingrediente tolerado:

Usar, com moderação, “pensarei a respeito” temperado com os ingredientes obrigatórios.

Caso algum item proibido escape ou o ouvinte escorregue em cascas de banana lançadas pela insistência do falante, o castigo é a crucificação do, agora, inimigo. Não será na posição comum, vertical – o eixo na direção norte-sul -, dada a ferocidade instalada, a discordância e interpretações fantasiosas. Apontar o norte significa submissão. Apontar o sul global é complexo de inferioridade. A cruz das redes sociais ficará de lado, cabeças à direita ou à esquerda conforme preferências ideológicas.

Pobre eleitor de centro, pobre “isentão”. Deles não se tolera pensar diferente. Estão no meio de um cabo de guerra onde ninguém tem razão e todos caem no chão.

Com os melhores votos e a certeza de que, seguida à risca, a receita funcionará, a turbulência será atravessada, e tudo voltará à normalidade durante os próximos quatro anos seja qual for a palavra das urnas.

Um amigo da democracia.

Rio de Janeiro, 14 de outubro de 2026.

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