As palmeiras talipot e a temporalidade na paisagem, de Ivete Farah

Neste artigo, a arquiteta, paisagista  e Doutora em Urbanismo, Ivete Farah, destaca que a paisagem urbana não é apenas espaço, mas tempo acumulado. Entre ciclos de crescimento, espera e desaparecimento, certos elementos vegetais tornam-se marcadores sensíveis da relação entre natureza, projeto e memória.

Vale a leitura !

Urbe CaRioca

As palmeiras talipot e a temporalidade na paisagem

Por Ivete Farah

E mais uma vez ocorre o grande espetáculo das palmeiras talipot em flor!

Os impactantes elementos vegetais da espécie Corypha umbraculifera, plantados por Roberto Burle Marx no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, voltam a exibir suas inflorescências na paisagem (fig.1). Numa conjunção fortuita de beleza singular, 12 exemplares chamam atenção na paisagem da extensa área verde, sendo 2 deles na fase de frutificação (fig.2).  

O parque é fortemente marcado pela presença desta palmeira, o que lhe imprime um caráter único, por ser pouco frequente no Rio de Janeiro e rara em outras cidades brasileiras. A talipot é bem representada no parque: foram plantados mais de 80 exemplares no projeto original, distribuídos em diferentes trechos ao longo de sua extensão. Há exemplares no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mas foi Burle Marx quem a introduziu em projetos paisagísticos no Brasil com o plantio no Parque do Flamengo (Farah, 1997).

Fig.1 – Dois exemplares de corifas floridos, próximo ao bairro do Flamengo. Foto: Ivete Farah, 2025.

O paisagista, que colecionou títulos por todo o mundo, como o de criador do jardim moderno pelo American Institut of Architects (Eliovson, 1991), tinha uma sensível compreensão sobre o papel do elemento vegetal em áreas urbanas, explorando desde o potencial estético e compositivo aos valores botânico, ambiental e simbólico. O Parque do Flamengo é uma de suas mais importantes obras, apontado por Luiz Emygdio de Mello Filho – um dos integrantes da equipe que o elaborou – como um museu botânico a céu aberto, por apresentar grande diversidade vegetal, um dos pontos mais característicos e de maior valor do projeto. No inventário botânico realizado em 1992, foram identificadas cerca de 240 espécies dispostas no parque (Mello Filho et  al, 1993), inaugurado em 1965. Esta diversidade, entretanto, vem sendo comprometida, como apontado em estudo anterior (Farah, 2021), apesar da proteção dos decretos de tombamento.  

O termo talipot, considerado um anglicismo (Dayanandan et al, 2018), deriva do sânscrito talapathra, que significa a palmeira da qual tali – folha para escrita – é retirada (Jacob et al, 2007). Com o advento de outros materiais, a prática secular que deu nome à espécie encontra-se em desuso. No Brasil, é comum a referência à palmeira pela adaptação ortográfica do gênero botânico – corifa -, utilizado preferencialmente neste texto.

Fig.2 – Corifas em flor e na fase de frutificação. Foto: Ivete Farah, 2025.

Naturais do Sri Lanka e do sul da Índia, as corifas imprimem aspectos diferenciados na temporalidade da paisagem. Elas apresentam um ciclo peculiar levando em seu local de origem, segundo Jacob et al (2007), de 30 a 60 anos para florescer, morrendo em seguida. É um período extenso que, nas palavras dos autores precisa ser mais estudado. Efetivamente, há na bibliografia uma variação desse período. Lorenzi e Mello Filho (2001), por exemplo, indicam entre 40 e 70 anos. No Rio de Janeiro, o comportamento das corifas reforça a necessidade desse aprofundamento, pois alguns indivíduos floresceram com menos de 30 anos. Entretanto, a extensão apontada se mantém em terras cariocas, com corifas que iniciaram este processo em seus 60 anos de vida.

A exuberância da floração parece proporcional ao tempo que demora a surgir, despendendo tanta energia nessa tarefa a ponto de finalizar seu ciclo de vida. Este caráter leva a relações simbólicas diversas. A disposição linear das corifas por Burle Marx, próximo ao Museu de Arte Moderna, na interpretação de Leenhardt (2009, p.97), não possui o sentido comum de um pórtico de entrada. Para o autor, essa composição revela o uso da palmeira como a ligação de pontos opostos – nascimento e morte -, uma forma de “metáfora da existência”, e justifica o emprego da espécie pela similaridade da duração da vida do vegetal e a do ser humano (fig.3).  Tal interpretação poética é fortalecida ao lembrarmos que as associações das características vegetais com as humanas eram frequentes nas falas de Burle Marx. Sobre a corifa, o paisagista dizia que ela fazia amor apenas uma vez na vida, no entanto, com que intensidade!  

Fig. 3 – Plantio das corifas formando uma linha sinuosa, próximo ao MAM e ao Monumento dos Pracinhas. Foto: Ivete Farah, 2025.

A percepção da temporalidade na paisagem se manifesta também no longo período que a corifa leva para florescer, conduzindo à marcação de um compasso de espera, como uma representação do ritmo lento do vegetal, latente e pulsante (Farah, 2008). É um movimento imperceptível no dia a dia, em contraposição ao embate provocado pela revelação da passagem do tempo acumulado na vasta massa vegetal através dos anos. No aguardo pelo crescimento, floração e frutificação, os seres humanos descobrem um aprendizado de paciência, calma e perseverança. As corifas não têm pressa. Elas impõem seu próprio ritmo à paisagem.

Outra vertente de temporalidade é pontuada pela duração da panícula, surgida no topo da copa em formato piramidal. A maturidade floral a transforma em plumas gigantescas, aparência gerada pelos milhões de pequenas flores que se mantêm na paisagem por vários meses. Todo o processo até a frutificação leva em torno de 2 anos. O esforço que lhes custa a vida é compensado com o espetáculo duradouro. Efêmero, sim, mas obstinado. Através dele, somos agraciados com um longo tempo para admiração e despedida.

As corifas surpreendem pela sucessão das florações de cada exemplar. Desde a primeira que eclodiu no Parque do Flamengo, em 1992 (fig. 4), somos brindados, de tempos em tempos, com estes choques de emoção. A entrada no estágio reprodutivo confere mais um sentido temporal pelo caráter de indeterminação da ocorrência, diferente de espécies que florescem em um período específico no ano, característica bastante comum no ciclo vegetal. Esse fato aporta uma sequência aleatória à paisagem, de intrigante surpresa.

A temporalidade na paisagem é também afetada pela ação humana em função das diferentes idades dos exemplares, devido às variadas épocas dos plantios, como por exemplo, o realizado posteriormente à inauguração, próximo à Marina da Glória, na década de 1970, ou o trecho que recebeu um novo grupo de corifas por volta de 2000.

Desde 1992, a sequência destes eventos ao longo do parque variou com palmeiras que floresceram isoladamente ou em conjunto, iniciados em diferentes meses e estações do ano (fig. 5). No texto citado acima (Farah, 2021), identifiquei que a muda plantada no local do primeiro exemplar que floriu em 1992, por sua vez, iniciou o processo reprodutivo em 2019. Atualmente, entre os mais de 50 exemplares que floresceram no Parque do Flamengo, começa a figurar a segunda geração das corifas – plantadas no lugar das que morreram -, ampliando a complexa temporalidade.

Com relação ao replantio, nota-se um esforço ao longo dos anos de substituição das palmeiras mortas por novas mudas. A falta de constância e a desconsideração do projeto original, entretanto, o revela insuficiente. Em comparação aos cerca de 80 exemplares de 1992, verifica-se uma perda considerável. Atualmente, são 55 corifas, incluindo algumas mudas muito pequenas, que não sabemos se irão vingar. O setor próximo ao bairro do Flamengo tem recebido pouca atenção nesse quesito. Há 2 canteiros sem nenhuma reposição, onde os vazios expõem as marcas das covas das palmeiras mortas. No local onde os exemplares das primeira e segunda gerações inauguraram as respectivas florações (1992 e 2019) não houve reposição, o que compromete a implementação da terceira geração.

Fig. 4 – Primeira corifa que floresceu no Parque do Flamengo. Foto: Ivete Farah, 1992.

Aproveitamos este espaço para clamar pela preservação do projeto original do Parque do Flamengo, garantindo a diversidade vegetal e a substituição de todos os indivíduos de corifa que morreram ao longo dos anos. A permanência destas palmeiras mantém o legado de Burle Marx e reforça o valor botânico do projeto, contribuindo para a existência da espécie. Segundo Jacob et al (2007), em seu local de origem a Corypha umbraculifera apresenta ameaça de extinção, com risco de desaparecer da superfície da Terra.

Por todos os pontos aqui ressaltados, as corifas, tão naturalmente associadas a superlativos, têm enorme importância para a cidade do Rio de Janeiro e seus habitantes. Elas são peças fundamentais da concepção do parque e seu replantio tornará possível que as experiências temporais que elas nos proporcionam se perpetuem na paisagem.

Fig, 5 – Grupo de corifas em flor, trecho do Hotel Glória – Foto: Ivete Farah, 2019.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DAYANANDAN, P.; LOCKWOOD, M.. SAMUEL, P.; DAYANANDAN, A.; EBENEZER, G. A. I.; GNANASEKARAN, G.; BARNABAS, A. D.; ARISDASON, W; CARY, Edison; ANANDHAPRIYAN, M.; HARRIS, Joseph. Talipot Palm (Corypha sp.): a 50-year vigil on a monocarpic giant flowering tree. Tambaram: Madras Christian College, 2018. Disponível em: www.researchgate.net/publication/328389463 . Acessado em: 22/11/2019. DOI: 10.13140/RG.2.2.13746.25288.

ELIOVSON, Sima. The Gardens of Roberto Burle Marx. New York: Harry N. Abrams, Inc. / Sagapress, 1991.

FARAH, I. M. C.. A vegetação como acervo botânico no Parque do Flamengo, Rio de Janeiro. Paisagem E Ambiente, 32(48), e182156, 2021. Local: https://www.revistas.usp.br/paam/article/view/182156

FARAH, Ivete. Poética das Árvores Urbanas. Rio de Janeiro: Mauad Ed., 2008.

FARAH, Ivete. Arborização Pública e Desenho Urbano: a contribuição de Roberto Burle Marx. 1997. Dissertação (Mestrado em Urbanismo) – Programa de Pós-graduação em Urbanismo – FAU/UFRJ, Rio de Janeiro. 1997.

JACOB, Joemon; SANTHOSH KUMAR, E. S.; MOHANAN, N. Corypha umbraculifera L. – a fast depleting palm of South India. Journal of Non-Timber Forest Products. India, v.14, p. 79-80, 2007. Disponível em: https://www.academia.edu/5298487 . Acessado em: 30/01/2021.

LEENHARDT, Jacques. Roberto Burle Marx na História: do modernismo à ecologia. In: CAVALCANTI, Lauro; EL-DAHDAH, Farès (org.). Roberto Burle Marx: a permanência do instável, 100 Anos. Rio de Janeiro, Rocco, 2009. p. 84-99.

LORENZI, Henri; MELLO FILHO, Luiz Emygdio de. As Plantas Tropicais de R. Burle Marx. São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora Ltda, 2001.

MELLO FILHO, Luiz Emygdio de; CAMISÃO, Cristina; REICHMANN, Felipe; ARAÚJO, Isis; FARAH, Ivete; CABRAL, Maria Inês; LEITMAN, Marta; PELLINI, Rodolfo; WENDT, Tânia. O Inventário Florístico do Parque do Flamengo. Revista Municipal de Engenharia. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, v.XLIII, n.1/4, p. 83-102, janeiro/dezembro, 1993.

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