O Apanhador de Lembranças nos Campos do Crepúsculo, de Francisco Fonseca

CrônicaCaRioca

Em mais uma crônica recheada de singularidades, o arquiteto Francisco Fonseca detalha lembranças de sua infância passada em São Luís – capital do Estado do Maranhão -,  e  rememora as andanças com o seu avô, em um misto colorido pelo encantos dos passeios e os sentimentos de aventura desenhados pela imaginação e a curiosidade de uma criança atenta a tudo e a todos. “À medida que o futuro se encurta, o passado vai se tornando cada vez mais presente. Talvez a consciência da nossa finitude, mais palpável à medida que o tempo passa, seja a responsável pela necessidade de ficarmos recolhendo reminiscências, como quem começa a organizar a bagagem, mesmo apostando que a viagem não será pra já”, destaca o autor.

O texto traz puro deleite, pelo que agradecemos a este maranhense que há muito também abraçou o Rio de Janeiro.

Urbe CaRioca


O Apanhador de Lembranças nos Campos do Crepúsculo, de Francisco Fonseca

Rua do Passeio, São Luís, Maranhão, MA


Tomamos o bonde na Rua do Passeio, em frente de casa. Na companhia do meu avô, cheio de expectativa, sentindo o vento no rosto, ouvindo a sineta que o motorneiro tocava com o pé, alertando os pedestres para a passagem do bonde, ia observando tudo, com curiosidade de criança. O cobrador se deslocava pelo estribo, com as cédulas dobradas ao comprido em volta do dedo médio e as moedas empilhadas na concha da mão, que ele abria e fechava, fazendo um ruído metálico, anunciando para os passageiros que era hora de pagar a passagem. Meu avô, atento à minha curiosidade, colocou algumas moedas na minha mão, pra que eu mesmo pagasse.

E o cobrador seguiu adiante, brigando com os moleques que subiam e desciam do estribo, driblando o bonde andando e passeando sem pagar. Nisso, uma figura singular se juntou aos moleques. Um rapaz sem uma das pernas, que rodopiava na muleta e subia no estribo, e quando o cobrador se aproximava ele saltava, com o bonde em movimento, pulando num pé só, com a muleta debaixo do braço. O que para o meu avô era mais um passeio, pra mim era uma aventura.

Ele adorava me levar junto nas suas andanças pela cidade e nas visitas aos seus amigos da colônia portuguesa, tão presente na nossa terra. Tinha orgulho de apresentar o neto que lhe herdara o nome. Andávamos tranquilos, despreocupados, por aquelas calçadas de cantaria familiares, cheias de história. Com ele, visitei muitas casas e sobrados seculares, conheci os moradores, quase tão antigos quanto as casas. E visitei os seus quintais, seus mirantes, suas varandas (que em São Luís são as salas de convívio da família).

Num finalzinho de tarde, do mirante de um sobrado bem alto, pude ver lá de cima as luzes dos postes e das casas se acendendo, na hora exata em que os sinos das igrejas repicavam, lembrando a hora da Ave-Maria. Na minha fantasia de menino, imaginei que morávamos não numa cidade, mas num presépio. E trouxe comigo essa impressão vida afora. A minha cidade era um presépio.

À medida que o futuro se encurta, o passado vai se tornando cada vez mais presente. Talvez a consciência da nossa finitude, mais palpável à medida que o tempo passa, seja a responsável pela necessidade de ficarmos recolhendo reminiscências, como quem começa a organizar a bagagem, mesmo apostando que a viagem não será pra já.

Parece que a tênue claridade do ocaso nos permite distinguir nuances que não conseguíamos perceber com o sol a pino da juventude. O excesso de luz nos encandeava, a meia-luz da maturidade nos revela.

Sabemos hoje que não são as nossas conquistas, mas as nossas lembranças que nos acompanharão quando nos mudarmos para a terra. Sons, cheiros, fotos, músicas são gatilhos que, do nada, nos abrem um painel enorme de lembranças. Umas boas, outras nem tanto. Mas sem melancolia, sem tristeza, ao contrário, com a alegria serena de quem viveu bons momentos e aprendeu a amadurecer.

O terreno do meu querido Colégio Marista ficava nos fundos do meu quintal, do outro lado da Rua do Outeiro. Era uma área enorme, na época ainda chamada de Quinta do Barão. Dava pra ouvir de casa a sirene chamando pra aula. Como eu entrava por trás, por uma passagem secreta entre o muro do colégio e a cerca, não me preocupava com isso. Saía de casa atrasado, me fiando da proximidade, e mesmo assim conseguia chegar a tempo. Quase sempre.

Os campeonatos de futebol entre alunos, com os times uniformizados, eram registrados em fotos, que guardo com carinho até hoje. As peladas de toda tarde, que rolavam até escurecer, me deixaram amizades que serão para sempre. Às vezes fazíamos uma pausa. Pra fumar. Explico: havia uma fileira de pés de eucalipto no terreno da escola. Recolhíamos do chão algumas folhas secas e esfregávamos entre uma mão e outra, até que ficassem com o aspecto do fumo dos cigarros de verdade. Enrolávamos num pedaço de papel higiênico e ficávamos ali, sentados na sombra, soltando baforadas e fazendo pose de fumantes.

Nos dias de festa, como sete de setembro ou dia da bandeira, éramos despertados pela alvorada, com os fogos espocando no ar e os alto-falantes tocando os hinos comemorativos da data, além da sempre presente Marselhesa, já que o colégio era de uma ordem religiosa francesa, e que passou a ser pra mim uma espécie de segundo hino nacional.

Na época das chuvas torrenciais, amazônicas (sim, amigo(a), São Luís faz parte do bioma amazônico), tão comuns nos primeiros meses do ano, gostava de subir até o mirante e ficar na janela ouvindo o barulho do temporal desabando sobre o telhado, e vendo  lá de cima a enxurrada rolando sarjeta abaixo em direção ao Hospital Português.

Quando a chuva estiava, era a vez dos bem-te-vis saírem dos seus abrigos, entre as folhas do abricozeiro do nosso quintal. E ficavam saltando de uma árvore pra outra, e de lá para o beiral do mirante, com sua cantoria trissílaba e sua alegre algazarra. Parecia que se comunicavam entre si, combinando a revoada. Um lançava um beeeee-te-vi, alongando a primeira sílaba; outro respondia bem-te-viiiiii, esticando a última, enquanto um terceiro encurtava a prosa, respondendo apenas te-viii, como quem aceita o chamado.

O cheiro das folhas de eucalipto queimadas, o canto dos bem-te-vis, a sineta do bonde, a sirene do Marista, a Marselhesa, o barulho da chuva no telhado, tudo ainda hoje evoca a minha cidade/presépio, a mais perene de todas as minhas lembranças.

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