Crônica publicada originalmente na Página da Oficina Literária Eduardo Affonso, em 17/09/2026.
Urbe CaRioca
Tempos do Rio
Andréa Albuquerque G. Redondo
“Hoje o tempo voa amor / Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir / E não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo que há pra viver / Vamos nos permitir…”
Lulu Santos em Tempos Modernos

Apesar de saber anunciada sua morte por diversas vezes, afirmo que o Centro do Rio de Janeiro vive. Menos pujante, capenga, talvez claudicante. Não estranhes a palavra anterior. É intencional, termo escolhido a dedo, o bico de pena mergulhado na tinta, letras desenhadas com vagar, como escrevo este texto dedicado a ti, caro leitor. É meu desejo que pares, olhes e sigas em busca de um tempo jamais perdido. Pelo contrário, será tempo achado, tal como serão encontrados os lugares onde, com passos leves e histórias, serás transportado a um passado presente que tem o dom de desenhar futuros. Crê em mim. O coxo caminha devagar e alcança nobres objetivos. Vem sem pressa.
Poderia sugerir-te o Theatro Municipal, o Museu de Belas Artes, o prédio do Clube Naval, a Sede da Justiça Federal, a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura ou, mais modernamente, o Palácio Gustavo Capanema. São achados, preciosidades. Já me indagas por onde começar, sinto. Pois, adianto-te: nenhum desses. Escolhi outro, é um achado feliz, prometo. As pistas estão nestes parágrafos escritos com polainas e chapéu, frases a esconder rimas e charadas como o colete guarda o relógio de bolso. Aonde vais, é artefato a esquecer, salvo para evitar atrasos se o chá das cinco foi servido. De resto, esquece o tempo. Ele passará, queiras ou não.
Tu, amante das palavras, já sabes quem sou. Eternizado em bronze espero-te à entrada do Petit Trianon, sentado na poltrona, a mão esquerda apoiada sobre um livro, como havia de ser, o semblante sério. Estava cansado de posar. Preferia estar ao rés-do-chão para ver-te olhos nos olhos. Escolheram um nível acima, estou em um belo pedestal. Soa pretensioso. Não liga. Falemo-nos de igual para igual.
Visitar-me é passear no tempo e admirar a glória de uma cidade que se fazia cosmopolita. Meu mundo convida ao silêncio, à observação e à escuta. Nesses tempos de barulho, pressa e carros velozes, o mundo externo desaparece. Aqui voltamos à época do ranger de bondes arranhando trilhos, aos tílburis e ao som das patas dos cavalos batendo no chão. Antes que perguntes como sei da vida no século XXI, explico-te. Quando se abre uma fresta no céu dos escritores, enxergo minha cidade amada de relance e acompanho os sucessos com tristeza. Naqueles dias, a cultura fervilhava. O Rio imitava o requinte francês, em voga. Era para poucos e ainda não chegou a todos.
Vem. Conhecerás espaços que não frequentei, pois já me havia ido das terras cariocas. Mas, sentirás minh’alma. Verás mármores, lustres de cristal e louças francesas, viajantes preguiçosos, semanas a atravessar o Atlântico para adornar os salões do palacete que seria doado à nossa causa. A casa nômade, fundada por quarenta sonhadores de pés no chão e cabeças em nuvens de palavras, ganharia raízes. Faz uma pausa, traz sua gente, apresenta-a aos livros, à prosa e à poesia, que esses abrem portas. Verás que na época em que tudo parecia mais lento, havia tempo para pensar.
M. A.
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́Andréa Redondo — Carioca, arquiteta, amiga de sons e palavras. Troquei as linhas desenhadas pelas escritas. No blog o Rio de Janeiro é protagonista, entre análises, crônicas e memórias. A Oficina Literária Eduardo Affonso, fonte de novas visões, aprendizado pessoal e fraternidade, levou-me à grata participação na coletânea Nuvens de Palavras, volumes 5 e 7.
