O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) ampliou o alcance de um inquérito civil para investigar o corte de mais de 70 árvores no terreno do antigo Colégio Bennett, no Flamengo, onde está prevista a construção de um condomínio residencial de alto padrão. A supressão da vegetação, ocorrida nos últimos dias, provocou reação de moradores da região e levou o órgão a incorporar o tema à apuração que já tramitava desde fevereiro de 2025.
Com área de cerca de 15 mil metros quadrados, o terreno dará lugar a um dos maiores empreendimentos imobiliários lançados no bairro nas últimas três décadas. Inicialmente voltada à análise de possíveis danos ao Pavilhão São Clemente — imóvel histórico tombado pelo município —, a investigação agora também avalia os impactos ambientais e urbanísticos das intervenções no local, incluindo eventuais efeitos sobre a área de ambiência protegida do bem cultural.
Urbe CaRioca
MPRJ amplia inquérito e investiga corte de 70 árvores no terreno do antigo Colégio Bennett, no Flamengo
A área de 15 mil m² dará espaço a um dos maiores empreendimentos residenciais já lançados na região nos últimos trinta anos
Por Victor Serra – Diário do Rio

O inquérito civil do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) passou a incluir o corte de mais de 70 árvores no terreno do antigo Colégio Bennett, no Flamengo, onde está prevista a construção de um condomínio residencial de alto padrão. A derrubada da vegetação e a reação de moradores foram reveladas em primeira mão pelo Diário do Rio na semana passada.
A apuração tramita na 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural da Capital desde fevereiro de 2025. Inicialmente instaurado para investigar o possível estado de degradação, má conservação ou descaracterização do Pavilhão São Clemente, o inquérito agora incorpora as intervenções no terreno, incluindo a supressão das árvores, algumas classificadas pelos moradores como centenárias.
O pavilhão histórico, onde residiu o Barão de São Clemente, é tombado pelo IRPH desde 2014, no mesmo terreno onde funcionava o colégio. Segundo o MPRJ, o foco da investigação é a possível descaracterização do bem tombado e eventuais impactos na área de ambiência protegida do imóvel.
Na tarde desta quarta-feira (07/01), moradores relataram o início do corte de um bambuzal dentro do terreno. O coletivo que lidera os protestos afirma que houve promessa anterior de preservação das árvores adultas durante reuniões com órgãos públicos e com a própria construtora, mas que faltou comunicação contínua sobre as etapas da obra.
Condomínio de R$ 500 milhões
O terreno do Bennett foi arrematado em leilão público por cerca de R$ 60 milhões em 2024, após a instituição encerrar suas atividades em meio a dificuldades financeiras agravadas no período da pandemia. O projeto imobiliário é liderado pela TGB Imóveis, em parceria com o BTG Pactual, e tem Valor Geral de Vendas estimado em R$ 500 milhões. O condomínio prevê duas torres e aproximadamente 350 unidades de um a três quartos, com preço médio do metro quadrado calculado em R$ 20 mil. Será um dos maiores lançamentos da região em mais de três décadas.
Em posicionamento oficial, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento informou que o projeto está em análise desde 2024 e que atende a legislação ambiental vigente. Segundo a pasta, um levantamento identificou dois exemplares de pau-brasil, que serão transplantados no próprio terreno, além da preservação de outras sete árvores nativas. O município afirma que as demais espécies presentes na área seriam majoritariamente exóticas.
A prefeitura também sustenta que o projeto prevê medidas compensatórias, incluindo investimento financeiro e o plantio de 632 mudas nativas. A Fundação Parques e Jardins, ainda de acordo com o município, realiza levantamento para viabilizar o plantio de 71 árvores no bairro, em número equivalente ao que foi suprimido.
Ato no Flamengo pede suspensão dos novos cortes
A insatisfação dos moradores se converteu em protesto marcado para este próximo sábado (10/01) às 9h, em frente ao terreno. O ato é organizado por um coletivo apoiado pela Associação de Moradores e Amigos do Flamengo (Amafla), com pedido de interrupção dos novos cortes e preservação das árvores remanescentes.
A presidente da Amafla, Isabel Franklin, afirmou na semana passada ao Diário do Rio que a associação não é contra empreendimentos que tragam melhorias ao bairro, mas repudia a retirada de árvores adultas e a possível violação dos limites de ambiência do bem tombado. “Tivemos reuniões em vários órgãos, inclusive com a construtora, onde foi afirmado que as árvores centenárias seriam preservadas. O pior é a falta de diálogo com os moradores. Havíamos sugerido uma reunião para esclarecer os passos, dando tranquilidade aos vizinhos quanto às transformações que teremos no processo.”
