Poucas cidades ousaram se reinventar com tanta brutalidade quanto o Rio de Janeiro ao longo do século XX. Em nome do progresso, da fluidez urbana e de uma ideia de modernidade que não admitia hesitações, bairros inteiros foram redesenhados à força, memórias foram soterradas e patrimônios históricos desapareceram sem direito a despedida.
Durante décadas, esse processo foi contado quase sempre do ponto de vista oficial, com números frios, decretos e fotografias pontuais que pouco revelavam da dimensão humana, cultural e simbólica da transformação. Agora, o tempo devolve ao Rio uma parte essencial de sua própria história. A redescoberta de cerca de 14 mil fotografias raríssimas, produzidas entre 1937 e 1945 e guardadas por décadas no Arquivo Geral da Cidade, lança nova luz sobre a abertura da Avenida Presidente Vargas e sobre tudo o que foi destruído para que ela existisse.
Mais do que registros urbanos, essas imagens expõem uma cidade em suspensão, capturada entre o que foi derrubado e o que ainda tentava nascer — um Rio que, até então, permanecia invisível até mesmo para si mesmo.
Urbe CaRioca
Arquivo Geral da Cidade redescobre 14 mil imagens raríssimas do Rio entre 1937 e 1945
Redescobertos em 11 álbuns esquecidos no baú do Arquivo Geral, registros mostram o Centro na abertura da Av. Presidente Vargas, obra que derrubou mais de 500 prédios, entre casarões e igrejas históricas
Por Victor Serra – Diário do Rio

Um acervo fotográfico raríssimo e super valioso, com imagens inéditas das inúmeras transformações urbanísticas que o município do Rio sofreu, principalmente, ao longo do último século, foram descobertos recentemente pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. São 11 álbuns, reunindo cerca de 14 mil fotografias feitas entre 1937 e 1945, período em que o Centro viveu uma de suas maiores obras de mobilidade, o da abertura da Av. Presidente Vargas, quando mais de 500 prédios foram demolidos, incluindo casarões, igrejas históricas (como a de São Pedro dos Clérigos e o Bom Jesus do Calvário), escolas, e a antiga sede da prefeitura.
O material foi localizado pela própria equipe do Arquivo Geral, guardado no fundo de um baú durante o processo permanente de catalogação do acervo. A instituição já reúne aproximadamente 4 milhões de itens identificados, além de outros milhões de documentos, fotos e registros ainda em processo de organização.
Rio que sumiu, Rio que nasceu
As fotos atravessam a cidade de ponta a ponta, com registros do Centro Histórico, Praça XV, Tijuca, além de bairros mais afastados do subúrbio da zona norte, como a Pavuna e Madureira. Há ainda cenas raras do interior de vilas operárias, trabalhadores em atividade e fragmentos do cotidiano urbano pouco documentados oficialmente na época.
O registro mais simbólico é o da abertura da Av. Presidente Vargas, iniciada na década de 1940, quando boa parte do acervo arquitetônico do Centro foi demolido. O redesenho urbano, que tinha como objetivo melhorar o acesso ao bairro para quem vinha da porção norte da antiga capital federal, teve como eixo de destruição todo o trecho da antiga Praça Onze (berço do samba carioca) até a região da Candelária. A Igreja da Candelária, inclusive, foi um dos poucos prédios preservados, mantida após forte pressão popular. Outras preciosidades não tiveram a mesma sorte, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, joia do barroco carioca, com interior talhado por Mestre Valentim, que acabou no chão.
As imagens também capturam a intensidade do canteiro de obras e a tecnologia disponível no período. Há operários no alto de edifícios, manejando picaretas, martelos e dinamite, ferramentas que ajudaram a moldar o novo Centro. O pano de fundo histórico dá ainda mais peso ao registro, já que a reforma urbana coincidiu com o período da Segunda Guerra Mundial.
Praça Onze, berço da cultura carioca
A abertura da via também varreu do mapa a Praça Onze, coração da antiga Pequena África. A região era também endereço de Tia Ciata, figura essencial na formação do samba carioca e da cultura afro-brasileira. Sua casa foi um dos mais célebres pontos de encontro de sambistas como Donga e Pixinguinha, além de palco simbólico do considerado primeiro samba registrado em disco no Brasil, “Pelo Telefone”, lançado em 1917.
Com as demolições, moradores que não eram proprietários precisaram buscar novas moradias, movimento que contribuiu para o adensamento de comunidades nos morros do Rio, consolidando ocupações antigas das encostas e impulsionando o crescimento das primeiras favelas da cidade, como os morros da Providência, Mangueira e São Carlos.
Memória, agora em 3D e na palma da mão
O Arquivo Geral agora trabalha para devolver esse capítulo à cidade em novos formatos. Está previsto o lançamento de um livro digital gratuito, reunindo parte do acervo recém-reencontrado. No radar, há também um projeto de reconstrução tridimensional da área demolida, criando um passeio virtual em 3D que permitirá ao público caminhar digitalmente por um Centro do Rio que não existe mais.
