Depois do Jardim de Alah, do Buraco do Lume, do Parque do Flamengo — com as intervenções na Marina da Glória —, das áreas no entorno do Pão de Açúcar, da Praça Mauá e das obras do VLT no Centro, além de cortes recorrentes em praças e vias da Zona Sul e da Zona Norte, a lista de espaços públicos afetados por supressão de árvores e intervenções contestadas pela população só cresce. Agora, a serra louca chega ao bairro do Flamengo.
Urbe CaRioca
Moradores do Flamengo se revoltam com cortes de árvores centenárias no terreno do antigo Colégio Bennett
A área de 15 mil m² dará espaço a um dos maiores empreendimentos residenciais já lançados na região nos últimos trinta anos
Por Victor Serra – Diário do Rio

Moradores do bairro do Flamengo andam revoltados com os cortes de árvores registrados no terreno do antigo Colégio Bennett, na Rua Marquês de Abrantes. A área de 15 mil m² vem sendo preparada para receber um dos maiores lançamentos imobiliários da região dos últimos trinta anos. O projeto prevê a construção de um condomínio de alto padrão com duas torres e cerca de 350 unidades. A obra também vai revitalizar o antigo prédio histórico da instituição, tombado pelo Iphan.
Vídeos que circulam nas redes sociais e que foram divulgados, inclusive, pela Associação de Moradores do Flamengo (Amafla), mostram a extensão das árvores sendo derrubadas no perímetro do terreno. Na publicação, a associação afirma que havia a expectativa de preservação dos exemplares mais antigos, muitos deles considerados centenários, e critica a falta de diálogo com os vizinhos sobre os procedimentos adotados.
Isabel Franklin, presidente da Amafla, afirmou ao Diário do Rio que a associação não é contra empreendimentos que tragam melhorias e crescimento para o bairro, mas repudia a remoção de árvores centenárias e a possível violação dos limites de ambiência do bem tombado, além da retirada do gradil original que integra a memória do antigo Bennett. “Tivemos reuniões em vários órgãos, inclusive com a construtora, onde foi afirmado que as árvores centenárias seriam preservadas. O pior é a falta de diálogo com os moradores. Havíamos sugerido uma reunião para esclarecer os passos, dando tranquilidade aos vizinhos quanto às transformações que teremos no processo.”
“Os projetos de hoje já deveriam pensar diferente. Sabemos que o lote é privado, mas, com as mudanças climáticas, deveriam sofrer uma revisão, principalmente em terrenos arborizados, cujo conjunto de árvores centenárias carrega, além da memória afetiva dos moradores e de todos que passaram pelos ensinamentos do Bennett, um valor paisagístico inestimável. É louvável que o arquiteto repense o projeto e estude alternativas para manter algumas árvores. Na arquitetura e na engenharia tudo é possível. Basta criatividade.” afirmou a ambientalista Isabelle de Loys, que também acompanha de perto o imbróglio.
Lançamento de R$ 500 milhões
O terreno do antigo Colégio Bennett é um dos últimos grandes espaços disponíveis no Flamengo e foi arrematado em leilão público por cerca de R$ 60 milhões em 2024, após a instituição encerrar suas atividades em meio a dificuldades financeiras agravadas pela pandemia. O projeto imobiliário, resultado de parceria entre o BTG Pactual e o empresário Rogério Chor, tem Valor Geral de Vendas estimado em cerca de R$ 500 milhões. O condomínio terá unidades de um a três quartos com preço por metro quadrado calculado em aproximadamente R$ 20 mil.
Vale relembrar que em agosto do ano passado, a obra do empreendimento chegou a ser suspensa pelo Iphan, após o órgão afirmar que as intervenções poderiam causar impactos à paisagem protegida da região. O terreno está situado em uma área de influência do Conjunto Paisagístico da Enseada de Botafogo, também tombado pelo Instituto, e fica próximo à Igreja da Santíssima Trindade, igualmente protegida.
