SALOMÃO E O BIDÊ

CrôniCaRioca

Andréa Albuquerque G. Redondo

                 O Rei Hebreu
                    Fonte: Wikipedia

Influenciado ou não pelo nome, Salomão reinava na construtora em que fiz estágio de Arquitetura. Engenheiro, responsável pelas obras, chegava depois da visita aos canteiros: com passos duros e fala alta anunciava-se na sala dos três estagiários. Era evidente que não gostava do nosso chefe, um arquiteto competente, educado e boa-praça. Ou era a velha rixa entre engenheiros e arquitetos, ou pura antipatia pelo recém-criado setor de arquitetura. Certa era má vontade com o grupo, resignado diante dos gritos vespertinos e da implicância diária.

Ao recordar alguns fatos, percebi o óbvio: era grande a despesa com os novos contratados, necessários devido ao aumento de trabalho na era do milagre . Afinal, a construção civil estava no auge, era a década de 1970 e a empresa crescera muito.
Basicamente desenhávamos projetos para aprovação na Prefeitura*, o que hoje chamam de “projeto legal”. Havia certo grau de liberdade para criar, oferecida aos jovens pelo arquiteto-chefe.
Em uma tarde, ao ver a planta de seis apartamentos que eu desenhava, Salomão perguntou:
–“Para que janelas no quarto de empregada?” Ao que rebati: –“Para que a empregada possa respirar e ter luz natural no quarto”.


Ilustração: NELSON POLZIN,2012

O diálogo inusitado prosseguiu:

–“Quantos apartamentos são por andar?”. – “Seis”. –“Quantos andares?”. –“Oito”. –“Você sabe quanto custam quarenta e oito janelas? A ventilação vai ser feita pela veneziana da porta. De dia ela não precisa de luz, à noite acende a lâmpada!”. “Pode apagar as janelas”. –“Mas Dr. Salomão, eu pensei…” –“E quem disse que você está aqui para pensar?”.
Meu Deus, eu não podia pensar… Que pretensão!
Ao contrário do rei, o arquiteto-chefe estimulava o pensar, pelo que sou, a ele, eternamente agradecida. Bom trabalho e bom salário. Pena que só durou seis meses.

Antes da degola, Salomão pediu uma lista do que seria necessário para equipar uma sala maior. O trabalho aumentava a cada dia, precisávamos de materiais bons e mais espaço. Uma funcionária nova providenciava as compras e insistia em saber o que faltava. Fizemos o layout, pedimos pranchetas, luminárias, réguas paralelas e canetas de nanquim – um luxo antes da era do AutoCAD e depois das réguas “T” – e canetas Graphos.

Não foi só: organizamos arquivos, fizemos faxina, tomamos conta da mudança e arrumamos a sala nova.


Naquela sexta-feira, a poucas semanas do Natal, tudo pronto e tinindo, o chefe-arquiteto estava estranho: não teve coragem de nos dizer o que estava por acontecer. À tarde Salomão dispensou os três estudantes: – “Ordem do Presidente da Construtora!”, disse, mas era mentira. Ficamos desnorteados! O novo chefe do setor seria o desenhista, marido da mulher solícita. Equipe mais barata na sala novinha preparada por nós…

Aprendi muitas coisas com Salomão, dentre elas que o bidê foi feito para ser usado posicionando-se – o usuário – de frente para a parede. Realmente faz sentido, basta pensar e observar as curvas anatômicas dos modelos antigos…

Hoje provavelmente ele não ensinaria sobre o bidê, nem se preocuparia em reduzir o número de janelas. Fruto dos novos tempos, os quartos de empregada desapareceram, elas também, os banheiros são minúsculos e o bidê é peça em extinção.

*Notas:
·     Reencontrei Salomão alguns anos depois, na Prefeitura. Perguntou-me, espantado: “O que você está fazendo aqui?”– “Examinando projetos de construção…”, respondi. Houve outros encontros profissionais, sempre em clima cordial.
·     Esta crônica foi originalmente publicada em um folheto da Secretaria Municipal de Cultura, 2005. A versão 2012, revisada e ilustrada, é uma homenagem a Angela e Nelson, os outros estagiários, a Antônio Henrique, o arquiteto educado, a todos os funcionários da antiga Companhia Construtora Socico, e a Salomão que, entre outros ensinamentos, provou que o mundo dá muitas voltas.
Abaixo um desafio aos jovens arquitetos e estudantes de arquitetura. Para que servem as peças que estão nas imagens?
Divirtam-se!

 ·  As imagens sem legendas foram obtidas em sites diversos, via Internet

  1. Pois é Andreia, acabaram com o normógrafo,com as canetas Graphos e até com as moderninhas Staedler, mas os "Salomãos" ainda andam por aí aterrorizando. A empregada que respirava pelas venezianas, melhorou de vida e comprou uma casa pelo "Minha Casa, Minha Vida" num bairro com mais de 2000 unidades, cujas paredes são de concreto e não houve previsão para um mísero ar condicionado de janela e a pobre vai, desta vez, assar no verão do Rio. Como vê a pobre só mudou de endereço, mas continua dormindo num forno. bjs

  2. Olá, Antonio Augusto. Espero que guarde também boas lembranças, além de ter sido aterrorizado pelo Salomão. Entre as que tenho – várias – está o estímulo para criar, como comentei na CrôniCaRioca, o que nos animava por ser mais do que fazer o papel de desenhistas, o que, em geral, cabe aos estagiários de arquitetura. Tinha um cafezinho muito bom, no meio da tarde, só um! E os funcionários administrativos gostaram da nossa chegada. Eram simpaticíssimos com jovens, futuros arquitetos. Acho que curtiam a nossa presença. Um abraço.

  3. Adorei a crônica, muito bem ilustrada. Depois quero fazer com a sua ajuda uma lista de compras de papelaria, porque já vi que você entende muito do riscado…! Bjs.

  4. Muito boa, Andréa, quem iniciou a carreira nessa época entende muito bem! Ah os escritórios de arquitetura….
    Como o tempo, e o CAD, apagaram nossas memórias…

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