Reportagem publicada pelo O Globo nesta sexta-feira detalha o conjunto de novas benesses urbanísticas para o mercado imobiliário criadas pelo projeto batizado com o nome Praça Onze Maravilha, apresentado como uma iniciativa para a revitalização da região. Sob o discurso da requalificação urbana, o plano amplia potencial construtivo, cria mecanismos de valorização imobiliária e busca atrair investimentos privados para uma área profundamente marcada por sucessivas intervenções do próprio Estado. Antes de celebrar uma nova transformação, porém, indagamos se o projeto enfrenta as causas da degradação ou se apenas inaugura mais um ciclo de reconfiguração voltado à construção civil, recorrente nas últimas décadas a partir das leis “pra Olimpíada”..
Grande parte das cicatrizes urbanas do Catumbi, da Cidade Nova e do entorno decorre das decisões públicas que, ao longo de décadas, privilegiaram grandes obras viárias em detrimento da escala humana, da preservação do patrimônio e da continuidade da vida de bairro, época em que o país voltou-se ao transporte rodoviário, no Rio de Janeiro representado pelo projeto das conhecidas Linhas Policromáticas, em detrimento do transporte sobre trilhos com trens e Metrô..
Nesse contexto, a promessa de revitalização soa paradoxal. Em vez de reproduzir a lógica das grandes intervenções, seria mais consequente discutir a remoção de estruturas que continuam fragmentando a cidade — como o próprio Sambódromo, projeto polêmico cuja implantação alterou profundamente a malha urbana da região. Recuperar ruas desaparecidas, reconstituir quadras, ampliar áreas verdes, reduzir barreiras físicas e devolver prioridade ao pedestre poderiam representar uma forma mais consistente de reparar parte dos danos produzidos por décadas de urbanismo voltado ao automóvel e a equipamentos monumentais. Revitalizar não deveria significar apenas construir mais edifícios, mas restituir urbanidade, memória e qualidade de vida a um território que perdeu muito de sua identidade histórica.
O nome do projeto é evidente atrativo para justificá-lo: a Praça Onze desapareceu devido à abertura da Avenida Presidente Vargas no início dos anos 1940. Ficava entre a Rua de Santana, a Rua Marquês de Pombal, e as ruas Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, as duas últimas eliminadas pelas obras da avenida, muito antes, portanto, das intervenções que destruíram o bairro do Catumbi. Senador Eusébio e Visconde de Itaúna hoje nominam ruas nos bairros do Flamengo e Jardim Botânico, respectivamente.


Urbe CaRioca
Praça Onze Maravilha: entenda ponto a ponto como será o projeto de transformação do entorno do Sambódromo e outras áreas (Jornal O Globo)
Iniciativa prevê derrubada do Elevado 31 de Março, requalificação da Marquês de Sapucaí e criação de nova frente de moradia, comércio e turismo na região na região histórica do Rio
O Globo – Link original

A Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) Praça Onze Maravilha tem como principais objetivos requalificar a paisagem urbana; ampliar a atratividade turística da região, incentivar a ocupação de áreas subutilizadas; ampliar a oferta de moradia, comércio e serviços; preservar a população residente; e fortalecer a política habitacional na área no entorno do Sambódromo. Uma das intervenções urbanísticas mais relevantes será a demolição do Elevado 31 de Março, com a implantação, para substituí-lo, de uma nova avenida, com uma nova configuração viária na região. Pelo sancionado até agora, a via que substituirá o elevado poderá ter suas novas faixas na superfície ou no subsolo. Não há definição, portanto, sobre a construção de um mergulhão na região. Estudos futuros apontarão a melhor solução. Outro ponto crucial é a requalificação do próprio Sambódromo, com a integração da passarela da Marquês de Sapucaí com o entorno.
Confira outros pontos incluídos na lei que autoriza a implantação do projeto Praça Onze Maravilha, sancionada ontem pelo prefeito eduardo Cavalieri:
- Entre os novos equipamentos culturais e turísticos, destaca-se a implantação da Biblioteca dos Saberes (projeto que será assinado pelo arquiteto burquinês Francis Kéré).
- É prevista a celebração de convênio com o governo do Estado para auxiliar no desenvolvimento de projeto da extensão da linha 2 do metrô para atender a Praça da Apoteose e o bairro do Catumbi, com a construção do trecho Estácio-Carioca, e duas novas estações (Catumbi e Praça da Cruz Vermelha).
- O mais antigo conjunto habitacional federal do Rio, a Vila Operária Salvador de Sá, deve ser preservado e requalificado.
- Entre as novas regras urbanísticas, a região é dividida em setores com parâmetros específicos de ocupação.
- É exigido que todas as novas edificações tenham fachadas ativas (que permitem a interação entre o espaço privado com área pública) nas testadas voltadas para a rua ou calçada.
- É estimulado o retrofit de imóveis para uso residencial e incentiva a produção de moradia estudantil.
- Assim como acontece com o Reviver Centro, o Praça Onze Maravilha concederá uma espécie de bônus urbanístico (“operações interligadas”, no jargão técnico) para empresários que investem na região aplicarem em empreendimentos em outras áreas, nas zonas Sul e Norte da cidade.
- Os bairros que integram essa operação interligada são Rio Comprido, Copacabana, Leme, Ipanema, Lagoa, Botafogo, Flamengo, Catete, Glória, Tijuca e Praça da Bandeira, além de todos os bairros da Zona Norte que integram a Área de Planejamento 3 (AP 3) do Rio, exceto a Ilha do Governador.
- A medida permite o aumento de gabarito em áreas receptoras mediante contrapartida financeira.
- São estabelecidas regras específicas para cada região receptora. O potencial construtivo a ser aplicado por operação interligada é menor para os bairros da Zona Sul do que para os da Zona Norte.
- A transformação urbanística prevista deverá observar as visadas do bairro de Santa Teresa, devido a sua relevância paisagística e urbana para a cidade.
- Os projetos previstos para a execução do Praça Onze Maravilha poderão ser implementados diretamente pelo poder público ou por particulares contratados pela administração pública municipal.
- Uma das diretrizes é a priorização do uso de imóveis públicos ociosos como mecanismo de impulsionamento da transformação urbana, incluindo a implementação de habitações de interesse social.
- Sessenta e um imóveis da prefeitura, localizados em sua maioria no Centro, no Estácio e na Cidade Nova, podem ir a leilão para financiar as despesas do projeto.
- Na lista de imóveis disponíveis, o considerado mais valioso é o da Cidade do Samba, na Rua Rivadávia Corrêa 60, que reúne os barracões das 12 escolas do Grupo Especial do carnaval carioca. É estabelecida, no entanto, a continuidade das atividades das escolas de samba, impedindo que os trabalhos realizados nos barracões sejam interrompidos durante o processo de modernização ou eventual transferência de local.
- Caso o imóvel do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Cidade Nova, seja visado pelo mercado, o espaço será transferido para outro local na mesma região, garantindo a continuidade das atividades do centro municipal.
- É criado um Comitê de Acompanhamento das obras, com participação de prefeitura, Câmara Municipal, moradores, sociedade civil e representantes de atividades econômicas locais.
O projeto abrange uma área de 458 mil metros quadrados e prevê investimentos estimados em R$ 1,7 bilhão por meio de uma parceria público-privada. Segundo a prefeitura, o projeto não prevê desapropriações e pretende atrair investimentos privados para a região. A proposta recebeu 180 emendas durante a tramitação na Câmara de Vereadores, das quais 60 foram incorporadas ao texto sancionado.
— Os poucos moradores que vivem na Praça Onze, muitos deles vivem em condições degradantes, alguns em condições sub-humanas. Essa realidade ficou invisibilizada durante muito tempo. A gente está pisando numa terra sagrada do Brasil, num lugar único da nossa história — afirmou Cavalieri ao defender o projeto.
Moradores se preocupam
Apesar das garantias dadas pela prefeitura de que não haverá desapropriações, moradores demonstraram preocupação com os impactos das intervenções.
Morador da Praça Onze há 65 anos, Renato Pinto de Amorim afirmou que a principal apreensão da população é a situação de 324 imóveis classificados como alienados, que poderão ser vendidos ou leiloados.
— A maior preocupação dos moradores é o fantasma da desapropriação. São famílias que vivem aqui há décadas e não têm condição financeira de comprar outro imóvel. A prefeitura fala em revitalizar a Vila Operária, mas também deveria pensar na recuperação dessas casas. O medo é perder o lugar onde sempre viveram — disse.
