Praça Onze Maravilha: questionamentos desde o próprio nome

Reportagem publicada pelo O Globo nesta sexta-feira detalha o conjunto de novas benesses urbanísticas para o mercado imobiliário criadas pelo projeto batizado com o nome Praça Onze Maravilha, apresentado como uma iniciativa para a revitalização da região. Sob o discurso da requalificação urbana, o plano amplia potencial construtivo, cria mecanismos de valorização imobiliária e busca atrair investimentos privados para uma área profundamente marcada por sucessivas intervenções do próprio Estado. Antes de celebrar uma nova transformação, porém, indagamos se o projeto enfrenta as causas da degradação ou se apenas inaugura mais um ciclo de reconfiguração voltado à construção civil, recorrente nas últimas décadas a partir das leis “pra Olimpíada”..

Grande parte das cicatrizes urbanas do Catumbi, da Cidade Nova e do entorno decorre das decisões públicas que, ao longo de décadas, privilegiaram grandes obras viárias em detrimento da escala humana, da preservação do patrimônio e da continuidade da vida de bairro, época em que o país voltou-se ao transporte rodoviário, no Rio de Janeiro representado pelo projeto das conhecidas Linhas Policromáticas, em detrimento do transporte sobre trilhos com trens e Metrô..

Nesse contexto, a promessa de revitalização soa paradoxal. Em vez de reproduzir a lógica das grandes intervenções, seria mais consequente discutir a remoção de estruturas que continuam fragmentando a cidade — como o próprio Sambódromo, projeto polêmico cuja implantação alterou profundamente a malha urbana da região. Recuperar ruas desaparecidas, reconstituir quadras, ampliar áreas verdes, reduzir barreiras físicas e devolver prioridade ao pedestre poderiam representar uma forma mais consistente de reparar parte dos danos produzidos por décadas de urbanismo voltado ao automóvel e a equipamentos monumentais. Revitalizar não deveria significar apenas construir mais edifícios, mas restituir urbanidade, memória e qualidade de vida a um território que perdeu muito de sua identidade histórica.

O nome do projeto é evidente atrativo para justificá-lo: a Praça Onze desapareceu devido à abertura da Avenida Presidente Vargas no início dos anos 1940. Ficava entre a Rua de Santana, a Rua Marquês de Pombal, e as ruas Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, as duas últimas eliminadas pelas obras da avenida, muito antes, portanto, das intervenções que destruíram o bairro do Catumbi. Senador Eusébio e Visconde de Itaúna hoje nominam ruas nos bairros do Flamengo e Jardim Botânico, respectivamente.

Augusto Malta. Praça 11 de junho, 19?. Rio de Janeiro, RJ / Acervo FBN
Escola de Aeronáutica. Vista Aérea da Zona Central do Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1941. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Museu Aeroespacial

Urbe CaRioca

Praça Onze Maravilha: entenda ponto a ponto como será o projeto de transformação do entorno do Sambódromo e outras áreas (Jornal O Globo)

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