Bolinho MiXto

CrôniCaRioca 
Bolinho MiXto
Ilustração: Nelson Polzin
   BOLINHO MIXTO               

Andréa Albuquerque G. Redondo


Venham cá, meninos, vou contar uma história a vocês!

Tinha um Boteco lá no Castelo, na Cidade, e…
Claro que foi aqui no Rio de Janeiro, onde mais seria? Ah, O Castelo, A Cidade! Entendi a confusão que fizeram. Tenho que explicar melhor.
Claro que não tinha Castelo, muito menos com boteco dentro! Ora, o Rio tinha 400 e poucos anos, nasceu na Idade Moderna, Castelo é coisa da Idade Média para trás. Ninguém ensina mais nada no colégio, não? O que vocês fazem lá, ficam no computador?

Bom, se computador também é estudo, então, menos mal…

Quantas perguntas! Devagar, por favor.
MORRO DO CASTELO
VITOR MEIRELLES, Estudo para Panorama do Rio de Janeiro , 1885
CASTELO era o nome do morro: Morro do Castelo, onde o Rio foi fundado pela segunda vez…

Não, não tem dois Rios de Janeiro, não! O Rio é único em todos os sentidos! Por que o nome se não tinha Castelo? Vocês têm razão.

MORRO DO CASTELO
Malta

Resolveram mudar de lugar por questão de segurança, já naquele tempo, assunto complicado. Fizeram uma fortaleza lá no alto do morro para ver melhor a Baía e atirar nos navios inimigos.

Também, todo mundo queria ser dono do lugar, vai ver de tão bonito que era: os portugueses tomaram dos índios, os franceses tomaram dos portugueses, que tomaram deles de volta. Alguém deve ter confundido a fortaleza com um castelo e o nome ficou.

LADEIRA NO MORRO DO CASTELO
Malta, 1900

Querem conhecer?

Ai, Meu Deus! Impossível: a fortaleza não existe mais. Nem o morro. Foi abaixo com tudo: Casas, Igrejas, o Colégio dos Jesuítas, Câmara e Cadeia, a Fortaleza com os canhões, a casa do Governador…

Quartel da PM, Rua Evaristo
da Veiga – O Globo, 2012
Não, meninos, aqui nunca teve terremoto nem tsunami, que no meu tempo se chamava maremoto. Foram uns prefeitos e governadores mesmo, que, aliás, têm mania de botar tudo abaixo. Taí o caso do Quartel da PM para provar o que eu digo.
MORRO DO CASTELO – DESMONTE
Malta – 20/9/1922

Do Morro sobrou um pedacinho da Ladeira da Misericórdia. Deve ter sido por causa do nome. Quem fez o desmonte ou teve pena da coitada ou se arrependeu tarde demais e ela ficou lá, sozinha e mutilada.

Onde? É só procurar um cantinho sujo, abandonado, perdido ao lado da Igreja N. S. do Bonsucesso.
Vazio. Nem uma plaquinha para contar a Nossa História tem.
 Só pivetes.
MORRO DO CASTELO – DESMONTE
Malta – 12-11-1922

Gente, eu quero continuar a contar o caso do Boteco da Méxicoe vocês não param de perguntar se o Rio foi fundado pela terceira vez, em outro país… querem saber por que puseram morro abaixo!

PRESTEM ATENÇÃO! É Rio de Janeiro, BRASIL. México é a R U A, Rua México, na Cidade. Naquele tempo ninguém ia ao Centro, todo mundo ia “à Cidade”, que era como chamavam o Centro… da Cidade. Então, a Cidade era o Centro, e o Centro, coração do Rio, a própria Cidade. Centro=Cidade=Centro. Entenderam?

PLANO PILOTO PARA A BAIXADA DE JACARPAGUÁ
LÚCIO COSTA

Viram a importância do Centro? E pensar que o Lúcio quis mudar o coração do Rio de lugar, lá para a Barra. Porque não era o coração dele, ora bolas…

Sim, o Morro…

Dizem que destruíram o morro para o Centro ficar mais arejado, acabar com as doenças. Era insalubre, verdade, morria gente à beça de febre amarela. Mas nunca ouvi dizer que tirar morro cura febre. No tempo de D. João VI, um ótimo Rei que fez muitas coisas boas pelo Rio, já falavam em derrubar o morro.

Ele, o rei, não caiu na esparrela. Parecia bobo, mas não era. Até enganou o Napoleão!

ESPLANADA DO CASTELO
Malta – Início da década de 1930
Cá comigo, acho que não foi nada disso. Foi pura especulação imobiliária! Não é cisma nem implicância, não. O morro virou um grande espaço para construir, a Esplanada do Castelo.

Es-Pla-Na-Da!

O dicionário do Antônio* – tem também o do Aurélio* – diz: “terreno plano, largo, extenso, em frente a uma fortificação ou a um edifício importante”.

Esquisito… A fortificação foi abaixo e edifício não tinha nenhum, é claro. Em 1922 construíram muitos prédios, fizeram uma exposição… e depois demoliram tudo de novo. Ô mania…

O Boteco? Conto já, já [ …saudade do Já-Já de Coco, prá que fui lembrar?].
PLANO AGACHE
CENTRO, RIO DE JANEIRO
Bom, chamaram o Agache, um francês que desenhou uns edifícios bonitões para a Esplanada. Esperto, aquele francês. Pensou até no Metrô, lá antes de 1930 .

 Os prédios foram construídos, são imponentes, sólidos. Pasmem! Quiseram demolir esses também. Só que agora tem um pessoal aí do Patrimônio Cultural que logo esperneia, diz que é Art-Decó, Proto-Moderno, Memória Urbana Viva, sei lá. Coisa de arquiteto. Estão reformando vários, ainda bem, e até inventaram um nome meio besta: retrofit.

 Justo num deles ficava o Boteco com uma vitrine cheia de salgadinhos. Vivia lotado. Era limpinho, sim. Não, canudinho encapado não tinha, nem saquinho de ketchup e mostarda, essas novidades estão aí há poucos anos.
Canudinhos de plástico

De manhã o povo parava para tomar um cafezinho antes do trabalho. Coado, caseiro, nada dessas tintas que chamam de “expresso”. Antigamente expresso era trem, aliás, coisa que  também está acabando, igual ao cafezinho coado no saco de pano e servido na xícara escaldada.

Salgadinhos de Boteco
Na hora do almoço quem não tinha grana comia um salgadinho. Eu não. Almoçava em casa. À tarde fugia do trabalho e encontrava muita gente no boteco, fazendo o lanchinho vespertino.

Comia minha empada devagar, pensando na vida, e toda hora ouvia: Me dá um MiXto! Um MiXto, faz favor! Moço, me vê um Bolinho MiXto! Poucos pediam pastel, rissole, empada, coxinha, joelho, croquete de carne assada, cachorro-quente… Tinha ovo cozido coloridoou recheado, este com recheio por fora (!), por isso nunca entendi o nome. O que mais saía era o MiXto.

Um dia não resisti à curiosidade e perguntei ao dono. Afinal, de que é esse Bolinho MiXto que pedem tanto?
“É o seguinte, doutor: de manhã cedinho pego todos os salgadinhos da véspera que sobraram, amasso, misturo bem, enrolo, passo no ovo e na farinha de rosca, e frito.
Fica uma delícia! Está fresquinho. Quer provar um? É cortesia! Por conta da casa!”
Educado, declinei, agradeci e fui dar uma volta no Buraco do Lume…
  
*Notas:
  • Dicionário Houaiss; Dicionário Aurélio.
  • Esta CrôniCarioca é uma homenagem ao meu pai, que nunca provou o Bolinho MiXto, a todos os entusiastas do Centro do Rio e da sua História, e a Fernando Villas Boas, precocemente falecido, cujas várias ações, algumas simples como exigir canudos ensacados e condimentos em sachês, mudaram a atuação da Vigilância Sanitária na Cidade nos anos 2004-5, e a higiene dos estabelecimentos, para melhor. 

Comentários:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *