CrôniCaRioca: A Voz que Vem das Ondas, de Francisco Fonseca

Em mais uma crônica singular, o arquiteto Francisco Fonseca detalha a história de uma grande amizade, o arrepio de uma ligação desalentadora no meio da noite, o inventário de lembranças da juventude e o tênue diálogo entre as ondas e a areia.

Urbe CaRioca

A Voz que Vem das Ondas

Passava um pouco das dez e meia da noite. Toca o telefone.

– Estou te ligando pra me despedir.

Senti um arrepio. Reconheci a voz do meu amigo e percebi logo que não era de viagem que ele estava falando. Com seu histórico depressivo e aquela voz cortante, de lâmina afiada, boa coisa não era.

– Pra mim, chega, emendou, antes que eu conseguisse tomar fôlego. Perdi a vontade de viver.
Podemos falar pessoalmente? – perguntei, tentando manter a calma. Posso passar aí?

Silêncio.

Você pode descer? Estou indo praí, insisti.

– Tá bom, vou descer, concordou o meu amigo, sem muita firmeza.

Cumprimentamo-nos por monossílabos. Não iria perguntar se estava tudo bem. Barba por fazer, cabelos desalinhados, como quem os tinha ajeitado com a mão, completamente alheio ao que se passava em volta. Coloquei a mão nas suas costas, num gesto de amizade, indicando o sentido da praia. Atravessamos a Humberto de Campos e fomos caminhando pela Carlos Góes. Ia medindo as palavras, buscando algum argumento que restituísse ao meu amigo o mais básico dos sentimentos, a vontade de viver.

Aconteceu alguma coisa grave? – foi o que de melhor consegui perguntar.

Silêncio.

Colega do curso científico, ele foi um dos primeiros amigos que tive quando cheguei ao Rio, ainda adolescente. Junto com outros dois companheiros, formávamos um grupo unido, de muitas afinidades. Amávamos os Beatles, mas não os Rolling Stones. Gostávamos de MPB, mas torcíamos o nariz para a Jovem Guarda. Ouvíamos Carole King com muito gosto, mas não embarcamos na “Mercedes Benz” da Janis Joplin. Muito menos na guitarra canhota do Jimmy Hendrix. Estávamos mais pra banquinho e violão, que todos tocávamos (mal) e cantávamos (pior). Mas nos divertíamos.

Um dia, um dos amigos trouxe um LP do Peri Ribeiro, com a histórica primeira gravação de “Garota de Ipanema”, além de outras músicas que se tornariam, todas,  standards da bossa nova. Pra nós, encantados, um divisor de águas. O cantor pioneiro submergiu, mas a bossa nova floresceu.

Do alto da nossa maturidade, com dezesseis ou dezessete anos, costumávamos ficar horas esmiuçando poemas em busca de metáforas que nos revelassem sentimentos ocultos, que só nós seríamos capazes de perceber. Discutíamos filosofia, tentando encontrar o sentido da vida. Até que um dia, um deles sacou uma frase, que tinha lido de um autor que já não lembro o nome: “A vida é vã”. Pronto. Viramos essa página. E começamos a flertar com o misticismo intelectual de Hermann Hesse. Lemos “Sidarta”, “O Lobo da Estepe”. E adoramos. Um deles disse ter lido “O Jogo das Contas de Vidro”, um tijolão de umas 500 páginas, que eu não consegui chegar nem à metade. Duvidei que ele tivesse lido também.

Escolhemos faculdades diferentes, surgiram novos interesses, namoradas, o grupo se desfez. Anos depois, reencontrei o meu amigo, morando em um prédio quase em frente ao meu. Ambos, ele e eu, já casados. Reatamos a amizade, saímos algumas vezes juntos, os dois casais. Foi quando recebi seu o telefonema desalentado.

Já atravessando a Ataulfo de Paiva, passando por prédios e lojas enfeitados com luzinhas coloridas, as músicas natalinas dos comerciais de TV transbordando das janelas dos apartamentos, tentei quebrar o gelo, e comentei sobre uma história curiosa que tinha acontecido conosco, alguns anos atrás.

O Maharishi Mahesh Yogi, guru dos Beatles e criador da “Meditação Transcendental”, tinha chegado ao Rio. Logo nos programamos para encontra-lo. Ele estava hospedado no Copacabana Palace, e o ingresso era apenas uma flor ou uma fruta. E ficamos nos perguntando: quem pagaria a hospedagem? De que vivia o Maharishi?  Será que se alimentava só de frutas? Ou também comia flores?

Cada um de nós levou uma maçã (surrupiada da fruteira da cozinha), enrolada em um papel, pra não pagarmos mico pelo caminho, e nos encontramos no Copa. Já na fila, fomos informados de que o Maharish receberia todos em particular e nos ditaria um mantra secreto, que não poderíamos revelar pra ninguém, sob pena de quebrar o encanto. Acomodado numa poltrona solene, com sua bata indiana branca, cabelos longos e barba de profeta, já grisalha no cavanhaque, ia recebendo todos, individualmente, com cortesia silenciosa.

Dez segundos ao lado do famoso guru. Sentados bem perto dele, quase encostando as cabeças, ouvimos com atenção o mantra secreto. Depois fomos para o auditório e ficarmos ali, repetindo o mantra, como quem faz uma oração. E esperando a revelação, a epifania. O Nirvana, tão almejado. Como não chegamos nem perto disso, decidimos quebrar o segredo ali mesmo, já na saída. Pois o mantra “secreto” era exatamente o mesmo para todos. Decepcionados, chegamos a pensar em pedir a devolução das nossas maçãs.

Comentei com ele, mentindo de propósito, que lembrava de tudo, menos do mantra.

– Maiiiing, respondeu o meu amigo, com um arremedo de sorriso, apertado num canto da boca.

Entre poucas falas e muitos silêncios, chegamos à calçada da praia do Leblon. Nessa época, auge do modelo rodoviarista, que privilegiava os carros em detrimento de todo o resto, os postes iluminavam apenas o asfalto, deixando o mar e a praia mergulhados no breu.

E ficamos ali, de pé, tentando ouvir o tênue diálogo entre as ondas e a areia, tão pouco profícuo quanto o nosso. Mas pela primeira vez naquela noite, percebi uma certa sintonia entre ele e a realidade. Lembrei de Fernando Pessoa, que ele adorava. Apelei para o poeta.

“Que voz vem do som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir, ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança,
Dormente, a dormir, sorrimos”.

E empaquei. Não consegui lembrar da última estrofe. Ele completou:

São as Ilhas Afortunadas,
São terras sem ter lugar
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

Não olhei diretamente pra ele, respeitando o seu momento, mas imaginei que tivesse, finalmente, algum brilho nos olhos. Agora era ele quem colocava a mão nas minhas costas, indicando o caminho de volta pra casa.

– Vamos, sugeriu. Tua mulher já deve estar preocupada.

A mulher dele já estava acostumada com suas perambulações noturnas pelas ruas do bairro. Passava um pouco da meia noite, atravessamos a Delfim Moreira, já voltando, e ele começou a discorrer sobre a personalidade de Fernando Pessoa, tão parecida com a sua. Reservado, introspectivo, soturno mesmo, com seu paletó e chapéu pretos, o poeta era o retrato vivo da melancolia. Mas bastava pegar uma caneta que a poesia fluía. Comentou sobre a morte prematura do grande amigo do FP, Mário de Sá-Carneiro, “perdido no labirinto de si próprio”. Suicídio.

Procurei mudar logo de assunto. E de poeta.

Falei do “Poema Sujo”, do Ferreira Gullar, recém-lançado. Exilado em Buenos Aires, fugindo da repressão no Brasil, logo viu se instalar o golpe militar argentino. Ouvia falar dos cadáveres que todas as manhãs eram encontrados nas proximidades do aeroporto de Ezeiza, e achava que logo ele seria descoberto e teria o mesmo fim. Inventariando lembranças, tentando se agarrar à vida, mesmo que vida passada, o seu poema/testamento reflete a luta desesperada de alguém que se apega à esperança de continuar vivo. Sugeri que o meu amigo o tomasse emprestado. Passamos no meu prédio, subi, peguei o livro e nos despedimos.

Não liguei pra ele nos dias seguintes. Queria demonstrar confiança, mostrar que estava seguro de que ele não tomaria nenhuma atitude desatinada. E jamais deixaria de me devolver o livro.

Dias depois, voltando pra casa no final da tarde, recebi do porteiro um envelope lacrado. Apalpando, percebi que era o meu livro, por ser mais fino que o normal. Preocupado, rasguei o envelope enquanto esperava o elevador, procurando por algum bilhete. Encontrei apenas o livro, com uma folha de papel envolvendo uma página, e uma seta desenhada à caneta apontando para um trecho do poema:

“Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade”

Ainda nos encontramos algumas vezes, até que mudei de bairro e nos afastamos novamente. Espero que o meu amigo esteja bem ainda hoje.

Ah, depois descobrimos que o Maharishi vivia de vender seus livros e dar palestras pagas. As flores e as frutas eram puro marketing. E nós, uns trouxas.

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