Precisamos falar sobre quiosques, de Joaquim Ferreira dos Santos

Quando a construção dos quiosques novos e maiores foi autorizada, o propósito era servir de ponto de apoio para os frequentadores da praia e da orla, para a venda de alimentos prontos (sem cocção) e bebidas,  inclusive com a previsão de banheiros no subsolo. Tudo para o conforto dos usuários. O que se vê hoje, além das horrorosas propagandas (proibidas na orla, apenas um detalhe esquecido), são descaso, sujeira, ampliação dos espaços, empachamento da paisagem, entre outras barbaridades urbano-cariocas. E, naturalmente, usos e atividades que fogem à vocação, à ordem, e às normas. Joaquim Ferreira dos Santos está coberto de razão.

Urbe CaRioca

Precisamos falar sobre quiosques

 

Por Joaquim Ferreira dos Santos – O Globo (07 de fevereiro de 2022)

Link original

Quiosque Tropicália | O Globo

Do Leme ao Pontal, o Rio tem 34 km de orla e até a semana passada essas praias, cenário de real valor que compensa enfrentar tantos perrengues, estavam cercadas por 309 quiosques. É uma multidão quase sempre relapsa que se faz acompanhar de cadeiras de plástico, latas de lixo nauseabundas, armações de acrílico, ombrelones mofados e todo um arrastão de estrupícios. O censo informa que são quase dez quiosques por quilômetro. Em geral, esparramam-se sem noção pelas calçadas que não lhes são de usufruto.

Esse muro de barracos à beira-mar mal plantados representa a privatização do mais icônico espaço da cidade, aquilo que o Rio tem de melhor e deveria ser propriedade de todos. Neste fim de semana, porém, a muralha que roubou do carioca a visão do paraíso, do horizonte esperançoso, foi considerada ainda de pouca monta – e eis que, no sábado, a ocupação da orla avançou. Foi inaugurado outro quiosque em Ipanema, no trecho que restava livre em frente à rua Garcia D’ávila.

O novo quiosque poderia ser mais um ultraje desnecessário se abrisse para prestar o mau serviço de sempre, tapar a visão da garota de Ipanema mergulhando ou evitar que a brisa batesse bonachona na nossa cara. É pior. O quiosque 310 não vende água de coco a preço abusivo, nem bota som alto para que se anule com música vulgar o sublime marulho das ondas. É pior por sua extravagância comercial. O novo quiosque é uma loja exclusiva para a venda de sandálias de plástico.

Na semana em que se descobriu a mão onipresente da milícia também em cima deles e surge a aberração da loja onde deveria ser área de circulação livre, precisamos mais do que nunca falar dos quiosques. Não só sobre quem está na administração deles, mas se o exagero com que se multiplicam pela cidade, o ruído que fazem ao cartão postal, se tudo isso traz algum benefício.  

No nunca excessivamente louvado documentário “O canto livre de Nara Leão” há uma cena em que a câmera entra em Ipanema pela Rua Rainha Elizabeth, e a visão da areia logo em frente, do mar aberto sem obstáculos aos olhos, é de tirar o fôlego. Hoje não seria possível tamanho alumbramento. Na frente do arquipélago das Cagarras, em troca de um imposto qualquer, algum carimbo de repartição autorizou a construção de um punhado de palhoças para vender refrigerante.

O dono da zorra toda, do Leme ao Pontal, é o ser humano, o pedestre, o cidadão que carece do exercício do mais cívico dos seus deveres municipais, o de bater perna, ver as modas, refrescar as ideias, tudo sem atravanco, sem tropeçar em quiosque e no descontrole que ele promove ao redor. Não temos fábricas. O espaço público é a grande commodity carioca, o bitcoin da hora, o petróleo abundante no calçadão, o tesouro que o pirata francês deixou para trás quando o índio mandou a primeira flecha – e é preciso liberá-lo a quem de direito.

Joaquim Ferreira dos Santos – Nasceu no Rio e é jornalista há 50 anos, tendo trabalhado nos principais jornais e revistas do país. Publicou dez livros, entre eles as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Define-se acima de tudo como repórter.

Comentários:

  1. Concordo integralmente com o jornalista. Falta total de planejamento e consideração para o maior recurso do Rio de Janeiro: a paisagem. Seja pela ocupação das encostas, seja para descaracterização da orla. Isso acontece em todo o litoral e não apenas no Rio. Não é à toa que o Brasil continua recebendo muito menos turistas do que poderia, de acordo com seus recursos naturais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.