Belo depoimento de Antonio Sá, justa homenagem a Luciana Novaes
Urbe CaRioca
Luciana Novaes: Transformou a dor em missão e mostrou ao mundo que o lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser estar
Antônio Sá, fiscal de Rendas aposentado do Município do Rio de Janeiro e ex-subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio

O sorriso que fica para sempre
Tive a honra e o prazer de, quando estava na ativa, ter contatos diários com a Vereadora Luciana Novaes no plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
E levarei para o resto da minha vida dentro de meu coração e da minha mente o belo sorriso eternamente estampado no rosto da Vereadora.
Sempre que eu conversava com ela, encontrava um sorriso cativante, luminoso, acolhedor. Um sorriso que, ao me lembrar dele agora, enquanto escrevo este artigo, faz cair algumas lágrimas de emoção sobre a tela do celular.
Além de ser uma vereadora atuante, Luciana Novaes era um ser humano cativante e estimulante, desses que nos fazem querer superar todas as barreiras que a vida nos impõe.
Mas é preciso ressaltar: o sorriso, a ternura e a atenção de Luciana jamais diminuíram sua firmeza na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e das pessoas com
dificuldades motoras. Ela era exemplo raro de delicadeza e força.
Ternura no trato. Firmeza nas ações. Doçura no olhar. Coragem nas propostas.
Uma vida que provou: o lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser estar
Luciana é lembrada como símbolo de perseverança e resiliência. Sua presença nos espaços de poder serviu para provar que a deficiência não deve ser impeditivo para ocupar cargos de destaque e que o lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser estar.
Luciana Novaes defendia que a representatividade era uma das ferramentas políticas mais eficazes para combater o preconceito. Para ela, ocupar uma cadeira na
Câmara Municipal era também uma forma de dizer à sociedade que a deficiência não limita a dignidade, não apaga a inteligência, não reduz a capacidade de luta e não impede ninguém de estar onde quiser estar.
Da tragédia ao compromisso público
Em 2003, aos 19 anos, Luciana cursava Enfermagem na Universidade Estácio de Sá quando foi atingida por uma bala perdida no campus do Rio Comprido. O episódio a deixou tetraplégica e dependente de ventilação mecânica. À época, recebeu um prognóstico duríssimo: apenas 1% de chance de sobrevivência. Mesmo assim, Luciana viveu, resistiu e reconstruiu sua trajetória.
Ela voltou a estudar, formou-se em Serviço Social e concluiu pós-graduação em Gestão Governamental.
Onde muitos enxergariam apenas limite, Luciana encontrou missão. Onde a vida colocou dor, ela respondeu com luta.
O mandato que tinha alma
Eleita vereadora em 2016, Luciana Novaes tornou-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foi campeã de leis aprovadas em seu primeiro mandato e acumulou mais de 150 fiscalizações.
Seu mandato não falava apenas “sobre” inclusão. Ele nascia da experiência concreta de quem conhecia, no próprio corpo, as barreiras impostas por uma cidade que ainda exclui demais.
Luciana lutou pelas pessoas com deficiência, pela acessibilidade urbana, pelos idosos, pelas pessoas em situação de rua e pelas populações vulneráveis.
Presidiu a Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e deixou um legado de quase 200 leis voltadas à inclusão, à acessibilidade e à defesa de quem mais precisa.
Quando a Vida Real Entrou no Plenário e Mudou a Câmara
Quando a Presença de Luciana Fez a Câmara se Transformar
Não Era Ela que Tinha que se Adaptar — Era a Câmara que Precisava Mudar
A presença de Luciana Novaes na Câmara Municipal não transformou apenas o debate político — transformou também o próprio espaço físico da Casa. Sua chegada obrigou a instituição a se repensar: o Plenário, símbolo máximo do poder legislativo, precisou ser adaptado, com ajustes de acessos, circulação e condições de trabalho que garantissem sua plena locomoção e o exercício do mandato.
E há, nisso, um significado que vai muito além da engenharia ou da arquitetura. Não era ela que precisava se adaptar ao espaço — era o espaço que precisava, finalmente, se adaptar à realidade de milhões de brasileiros. Ao atravessar aquelas portas, Luciana não entrou sozinha: entrou com ela a própria ideia de inclusão.
A Câmara precisou abrir caminhos — literalmente e simbolicamente. E, ao fazer isso, revelou uma verdade essencial: inclusão
não é favor, é dever institucional. Luciana não apenas ocupou o espaço. Ela o transformou.
A voz firme e a escuta generosa
Na tribuna, sua voz carregava algo que nenhum treinamento político ensina: legitimidade.
Quando Luciana falava de mobilidade, ela sabia o que era encontrar obstáculos onde deveria haver passagem.
Quando falava de saúde, conhecia a fragilidade do corpo e a importância do cuidado público.
Quando falava de dignidade, sabia exatamente o que significa ser vista, respeitada e acolhida.
A Câmara Municipal afirmou, em sua nota de pesar, que Luciana transformou a própria dor em propósito e que sua atuação foi marcada por voz firme e escuta generosa. Essa talvez seja uma das melhores sínteses de sua vida pública.
Representatividade que não era enfeite
Luciana não foi presença decorativa na política.
Foi presença transformadora.
Sua trajetória dizia, todos os dias, que a pessoa com deficiência não deve ser confinada à piedade, à invisibilidade ou ao silêncio.
Ela própria dizia, em essência: não quero pena; quero compromisso com a inclusão.
E esse compromisso ela cobrou com coragem, serenidade e firmeza.
A despedida de uma mulher imensa
A notícia de seu falecimento foi confirmada na noite de segunda-feira, 27 de abril de 2026, após o acionamento do protocolo de morte cerebral.
Segundo informações divulgadas por sua assessoria em veículos de imprensa, ela sofreu uma intercorrência súbita e grave, compatível com rompimento de aneurisma cerebral.
Luciana Novaes faleceu aos 42 anos.
Mas há pessoas que, mesmo quando partem, continuam presentes.
Luciana permanece nas leis que ajudou a construir, nas pessoas que inspirou, nas barreiras que ajudou a derrubar e nos sorrisos que deixou pelo caminho.
O sorriso, a luta e o legado
O Rio de Janeiro perdeu uma grande mulher. A Câmara perdeu uma parlamentar atuante.
As pessoas com deficiência perderam uma defensora firme.
E muitos de nós perdemos uma presença humana rara, dessas que iluminam o ambiente sem fazer esforço.
Eu guardarei para sempre o sorriso de Luciana Novaes.
Mas guardarei também sua lição: a vida pode impor limites, a cidade pode erguer barreiras, a política pode ser dura, o preconceito pode tentar calar — mas nada disso consegue impedir uma alma verdadeiramente determinada de ocupar o seu lugar no mundo.
Luciana ocupou o dela.
E, ao fazer isso, abriu caminho para que muitas outras pessoas também possam ocupar os seus.
Porque o lugar da pessoa com deficiência é onde ela quiser estar.
E Luciana Novaes estará, para sempre, no lugar mais bonito da memória da cidade: o lugar reservado aos que transformaram dor em amor, dificuldade em luta e vida em exemplo.
