Neste belíssimo artigo, Antônio Sá, Ex-Subsecretário de Assuntos Legislativos e Parlamentares do Município do Rio de Janeiro descreve como a experiência as revisitar o clássico Interlúdio, de Alfred Hitchcock, e que transcende a cinefilia: reconheceu, nas imagens do Rio de Janeiro projetadas na tela, o Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal onde construiu grande parte de sua trajetória profissional. O encontro inesperado entre a memória pessoal e a história do cinema transformou a sessão em um momento de emoção rara — quando Hollywood parece dialogar diretamente com a biografia de quem assiste.
Mais do que rever um clássico do suspense de espionagem ambientado no pós-guerra, o texto convida o leitor a percorrer essa ponte entre a Cinelândia real e a Cinelândia filmada, explorando curiosidades de produção, o uso pioneiro do Rio como cenário internacional e a força simbólica de reconhecer, em um filme consagrado, um espaço que guarda décadas de trabalho, convivência e afeto.
Urbe CaRioca
Quando Hollywood Encontrou a Cinelândia: Minha Emoção ao Rever Interlúdio e Reconhecer a Câmara do Rio
Por Antônio Sá
Uma revisita que virou emoção
Confesso: tive a grata surpresa — na verdade, ao rever — o clássico Interlúdio (Notorious, 1946), de Alfred Hitchcock, diretor do qual sou fã declarado. E a surpresa foi dupla. Ao assistir novamente ao filme, identifiquei imagens da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, o Palácio Pedro Ernesto, casa em que trabalhei por 26 anos, assessorando os prefeitos da nossa cidade. Uma Casa que amo.
Ali, construí uma trajetória profissional, convivi com servidores dedicados, com o corpo técnico altamente qualificado e com vereadoras e vereadores de quem guardo grande respeito. Foi também onde conquistei amigos com quem aprendi muito. Por isso, a emoção foi genuína: ver, em um filme de um diretor que admiro profundamente, imagens da Casa Legislativa do Rio é algo que toca a memória — e o coração.
Veja na ilustração deste artigo imagens da Câmara Municipal que aparecem naquele filme,
O Filme: Um Clássico do Suspense de Espionagem
Interlúdio (Notorious, 1946)
Diretor: Alfred Hitchcock
Ano: 1946
Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant e Claude Rains
Gênero: espionagem / romance / suspense psicológico
A trama se passa no Rio de Janeiro do pós-Segunda Guerra Mundial e acompanha a missão de Alicia (Bergman), recrutada por agentes norte-americanos para se infiltrar em um grupo de nazistas refugiados no Brasil. No enredo, o edifício da Câmara Municipal que identificamos nas imagens do filme funciona como sede governamental, local onde representantes dos Estados Unidos se reuniriam com autoridades brasileiras para tratar da investigação sobre a rede nazista.
O Rio de Janeiro em Hollywood
Se não foi o primeiro, certamente foi um dos primeiros grandes filmes de Hollywood a usar o Rio de Janeiro como cenário central de trama de espionagem.
O filme exibe imagens reais da cidade, entre elas: Baía de Guanabara, Copacabana, Cinelândia, Jóquei Clube, Glória, Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Palácio Pedro Ernesto, menção à perigosa estrada para Petrópolis
Além disso, aparecem curiosidades deliciosas para nós brasileiros: a placa “Rádio Brasil”, a placa “Calçados Pinto”, o garçom perguntando “quer alguma coisa?” em português hesitante e a famosa referência à “fechadura marca Única.”
Como as cenas foram realmente filmadas
Aqui está um ponto técnico importante. Apesar da ambientação carioca: Hitchcock não veio ao Brasil, os atores principais não filmaram no Rio
O que aconteceu foi o seguinte: as cenas externas do Rio foram captadas por William Dorfman, diretor de segunda unidade; depois, Hitchcock utilizou back projection e imagens de arquivo em estúdio nos Estados Unidos; os atores foram filmados em Hollywood com essas imagens ao fundo ou inseridas em trechos específicos do filme.
Ou seja: trata-se de um trabalho sofisticado de montagem e composição — algo em que Hitchcock era mestre.
Premiações, Bilheteria e Reconhecimento
O filme foi um grande sucesso:
Bilheteria inicial:
US$ 4,85 milhões (EUA e Canadá)
US$ 2,3 milhões no exterior
lucro para a RKO superior a US$ 1 milhão
Indicações importantes
Indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Claude Rains)
Indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original (Ben Hecht)
Indicação ao Festival de Cannes de 1946
Reconhecimento posterior
O filme foi considerado “cultural, histórica e esteticamente significativo” pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e incorporado ao National Film Registry, onde permanece preservado como patrimônio cinematográfico.
No Rotten Tomatoes, Interlúdio registra 98% de aprovação da crítica (Tomatometer) e 92% de aprovação do público (Audience Score), demonstrando rara convergência entre especialistas e espectadores. O Rotten Tomatoes é um dos principais agregadores de críticas de cinema do mundo: o sítio reúne resenhas de críticos profissionais e calcula o chamado “Tomatometer”, que indica o percentual de avaliações positivas. Assim, os 98% significam que a esmagadora maioria dos críticos avaliou o filme de forma favorável, colocando-o entre os mais bem recebidos pela crítica, enquanto o índice do público confirma a forte recepção também entre os espectadores.
Já no Metacritic, o filme alcança 100% de aprovação, resultado obtido por meio de metodologia diferente: o Metacritic atribui notas ponderadas às resenhas e calcula uma média numérica de 0 a 100. A pontuação máxima indica “aclamação universal”, ou seja, consenso crítico extremamente positivo. No caso de Interlúdio, esse índice reforça seu status como uma das obras mais prestigiadas de Alfred Hitchcock.
O cineasta Woody Allen já citou Interlúdio como um de seus favoritos.
A sofisticação da linguagem visual e a tensão silenciosa em interlúdio
Entre os muitos méritos de Interlúdio, destaca-se o refinado domínio da linguagem cinematográfica por parte de Alfred Hitchcock. O diretor não se limita a narrar os acontecimentos: ele transforma a própria câmera em instrumento psicológico, capaz de traduzir estados emocionais e físicos dos personagens.
Um exemplo emblemático ocorre na cena em que Alicia, personagem de Ingrid Bergman, desperta após uma noite de excessos. Hitchcock utiliza um enquadramento inclinado — quase desorientador — para que o espectador experimente visualmente a sensação de ressaca e confusão da personagem.
Não há necessidade de explicações verbais: a imagem comunica tudo. Trata-se de um recurso de subjetivação da câmera, técnica que coloca o público dentro da percepção da personagem e reforça a imersão dramática.
Outro momento de grande força narrativa surge na cena em que dois nazistas permanecem à porta aguardando o retorno de Alexander Sebastian, personagem interpretado por Claude Rains — um aristocrata alemão radicado no Brasil e peça central da rede nazista investigada na trama.
Com sua habitual precisão, Hitchcock constrói o suspense não por meio de ação explosiva, mas pela expectativa e pela atmosfera de vigilância. A composição rígida dos personagens no enquadramento, o silêncio carregado e a sensação de espera prolongada criam um clima de ameaça iminente.
Trata-se de um exemplo clássico da economia narrativa hitchcockiana: com poucos elementos — dois homens, uma porta e o tempo que se arrasta — o diretor transforma a imobilidade em tensão pura. A sequência antecipa o cerco que se fecha sobre Sebastian e reafirma uma das marcas do mestre do suspense: muitas vezes, o perigo não corre — ele observa, imóvel, à espera do momento certo.
Esse cuidado formal aparece em diversos momentos do filme. O célebre travelling que parte do alto do salão e desce até a chave na mão de Alicia tornou-se uma das sequências mais estudadas da história do cinema.
Soma-se a isso o uso expressivo de luz e sombra herdado do film noir, os reflexos dos cavalos projetados nos binóculos durante a corrida e a utilização simbólica do figurino — com Alicia vestindo branco no início e, posteriormente, tons escuros, acompanhando o adensamento moral da narrativa.
Tudo revela um diretor em plena maturidade técnica. Em Interlúdio, cada movimento de câmera, cada enquadramento e cada escolha visual servem à construção do suspense e da psicologia dos personagens. Não se trata apenas de contar uma história de espionagem, mas de fazê-la sentir — quadro a quadro — pelo olhar do espectador.
A Famosa Cena do Beijo (e o Código Hays)
Uma das curiosidades mais célebres do filme envolve a censura da época.
O Código Hays limitava a duração de beijos no cinema.
O que Hitchcock fez? Genialidade pura.
Criou uma cena em que Bergman e Grant: ficam praticamente dois minutos abraçados, trocam beijos curtos intercalados com diálogo sem nunca se afastarem totalmente
Assim, driblou a censura sem violar formalmente a regra. Resultado: uma das cenas românticas mais famosas da história do cinema.
Outras Curiosidades de Produção
A mãe de Sebastian é uma das vilãs psicológicas mais marcantes do diretor.
Para compensar a menor altura de Claude Rains em relação a Bergman, Hitchcock usou rampas ocultas e sapatos altos especiais.
Veja Trechos do filme com imagens do Rio
Assista ao filme completo no sítio abaixo:
Quando a memória pessoal encontra a História do cinema
Rever Interlúdio foi, para mim, mais do que revisitar um clássico de Hitchcock.
Foi reencontrar, ainda que em breves fotogramas, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro — a casa onde trabalhei por 26 anos, a casa que aprendi a respeitar e a amar.
Entre servidores dedicados, técnicos brilhantes e parlamentares com quem convivi, construí ali uma parte essencial da minha trajetória.
Ver aquele prédio projetado na tela de um filme de 1946, dirigido por um mestre do cinema mundial, produz uma sensação difícil de descrever — uma mistura de memória, orgulho e afeto.
Porque, às vezes, o cinema faz isso conosco:
Ele não apenas conta histórias — ele devolve pedaços da nossa própria história.
