Repouso das polacas, de Danilo Marques

Poucos lugares revelam de forma tão marcante uma história esquecida quanto o chamado Cemitério das Polacas. Ali estão sepultadas mulheres que chegaram ao Brasil vindas principalmente do Leste Europeu e que, apesar da exclusão e do preconceito que enfrentaram, deixaram uma trajetória que integra a memória social e cultural do país. A reportagem “Repouso das Polacas”, da Revista Piauí, lança luz sobre esse espaço e sobre as vidas que ele preserva.

A recuperação dessa história tem como uma de suas principais referências o trabalho da historiadora Beatriz Kushnir. Suas pesquisas ajudaram a resgatar a memória das mulheres enterradas no local, contribuindo para a preservação do cemitério e para o reconhecimento de um capítulo muitas vezes silenciado da imigração judaica no Brasil.

Urbe CaRioca

Repouso das polacas

Danilo Marques – Revista Piauí

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Augusto Malta. Cemitério Israelita, 11 de abril de 1934. Inhaúma, Rio de Janeiro, RJ / Acervo AGCRJ – Coleção do Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro

No fim da década de 1960, a historiadora Beatriz Kushnir e seu irmão caçula, Daniel, tinham uma babá, Maria, que morava no bairro de Inhaúma, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Quando Beatriz estava com 3 anos e Daniel completou 1 ano, Maria quis que sua mãe conhecesse as crianças sob seus cuidados.

A patroa concordou com a ideia e levou os filhos de táxi do Flamengo até Inhaúma, onde a babá os esperava ao pé de um morro na Rua Piragibe. No caminho pela ladeira que levava até a casa, Maria apontou para um portão com duas estrelas de Davi e disse: “Aqui é um cemitério de gringo. Eles tomam banho antes de serem enterrados.”

O episódio da babá que tentou explicar à menina judia o costume judaico de lavar os corpos antes do sepultamento foi recontado em vários encontros dos Kushnir. Para Beatriz, hoje com 59 anos, o caso acabou indo além do anedotário familiar: o Cemitério Israelita de Inhaúma tornou-se tema do mestrado em história que defendeu na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1994.

Desde então, ela vem se dedicando à preservação do lugar – um esforço curiosamente rejeitado por membros conservadores da comunidade judaica carioca. Ocorre que, no início do século xx, no cemitério em Inhaúma eram sepultadas as polacas, como ficaram conhecidas as prostitutas judias egressas do Leste Europeu.

As “polacas” que começaram a chegar ao Brasil em 1867 não vinham só da Polônia, mas também da Áustria, da Ucrânia e de outros países europeus. Muitas eram aliciadas pela Zwi Migdal, organização criminosa judaica que operou no tráfico internacional de prostitutas entre as décadas de 1860 e 1930. Essas mulheres deixaram marcas na cultura carioca.

No samba Judia rara, de 1964, Moreira da Silva – entrevistado por Kushnir na pesquisa para o mestrado – homenageou uma delas, a russa Estera Glad­kowicer, que  conheceu no Mangue, então uma famosa zona de meretrício. Há até uma lenda etimológica relacionada às polacas: “encrenca” teria vindo de ein Krenke (um doente), palavras em iídiche que as prostitutas judias usavam para alertar umas às outras sobre clientes sifilíticos. A história é curiosa, mas carece de comprovação.

Kushnir estudou a vida privada das polacas e buscou entender como elas viveram a experiência da diáspora. Sua dissertação de mestrado foi publicada em 1996 com o título Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição – as polacas e suas associações de ajuda mútua (Imago). A historiadora descobriu que, apesar do lugar que conquistaram no imaginário, essas mulheres não formavam um contingente tão numeroso: cerca de 2 mil desembarcaram no Brasil. Boa parte já trabalhava com prostituição e cafetinagem em seus países de origem. “Meu trabalho era a vida privada de mulheres tidas como públicas”, diz Kushnir.

As polacas não encontraram lugar nas comunidades judaicas tradicionais do Brasil. O estigma religioso era pesado: nos cemitérios judaicos, prostitutas, cafetinas e cafetões, além de suicidas, eram enterrados junto ao muro – um indicador de sua exclusão. As prostitutas judias passaram a se organizar em associações de ajuda mútua, que foram estudadas por Kushnir. Entre outras funções, essas associações ofereciam ritos funerários e cemitérios dignos para seus membros. O Cemitério Israelita de Inhaúma foi aberto em 1916 pela Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (Abfri), fundada por quatro prostitutas do Mangue em 1906. Foi o primeiro cemitério particular judaico do Rio. Entidades parecidas surgiram nas cidades paulistas de Santos e Cubatão, com o mesmo objetivo (como contou a reportagem A última morada das polacas, na piauí de abril de 2023).

O cemitério de Inhaúma foi administrado pela Abfri até 1984, quando a associação encerrou suas atividades, com a morte da última diretora, Rebecca Freedman. Conhecida como Becca, ela não foi enterrada ao lado das outras três pioneiras que fundaram o cemitério – Fanny Zusman, Amália Schkolnik e Angelina Schaffran. Sua lápide está no cemitério israelita do Caju, administrado pela Comunal Israelita, instituição que agora é responsável pelo cemitério das polacas.

Nos anos 2000, Kushnir – hoje doutora em história e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) – ficou sabendo de um plano para empurrar os restos mortais de 797 pessoas em Inhaúma para junto dos muros, com o intuito de “purificar” o terreno. Além disso, a Comunal havia pintado as lápides com tinta branca, apagando os nomes dos mortos e deixando visíveis apenas os números das covas. “O importante era acabar com aquele vestígio”, ela diz.

Em 2007, a historiadora decidiu enviar à prefeitura um pedido de tombamento do cemitério de Inhaúma. Ela conta que, durante o processo de tombamento, ouviu objeções agressivas. Recorda que o rabino Eliezer Stauber, da Sinagoga Kehilat Yakov, em Copacabana, lhe disse que o livro Baile de máscaras acabaria esquecido e que “ninguém mais vai se lembrar do que é aquilo” – “aquilo”, no caso, é o cemitério.

Além do preconceito, pesava no debate a questão financeira: um jazigo no Rio pode custar até 180 mil reais. Com o tombamento definitivo em 2010, os antigos ocupantes do cemitério já não podem ser exumados, o que agora limita muito a venda das covas.

A reação da Comunal foi birrenta. Durante a pandemia, a instituição abandonou a manutenção do cemitério. Quando familiares pediam as chaves do lugar para visitar seus mortos, a resposta era: “Veja com a Beatriz Kushnir” (a chave, diz ela, não está sob sua guarda). A piauí procurou o rabino Stauber, mas não obteve resposta. A reportagem também ligou várias vezes para a Comunal Israelita. Em todas as tentativas, foi atendida por vigias que disseram que o expediente administrativo já tinha se encerrado ou que a equipe estava de folga.

A tradição manda que se visite os mortos no domingo entre o Rosh Hashaná, o ano-novo judaico (em 2025, caiu entre 22 e 24 de setembro), e o Yom Kippur, data mais sagrada do calendário religioso (em 2025, de 1° a 2 de outubro). Os cemitérios judaicos ficam lotados. No ano passado, porém, o cemitério “gringo” de Inhaúma ficou deserto no dia da visita – que caiu no domingo, 28 de setembro. Apesar de tudo, se depender de Kushnir, o local jamais será abandonado. “Quando eu morrer, peço que me cremem, mesmo que não se possa cremar judeus, e que joguem minhas cinzas lá. O meu lugar é ali.”

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