A batalha perdida pela Torre Eiffel da Rua do Ouvidor

Registro sobre uma das joias arquitetônicas entre muitas que o Rio de Janeiro teve e que, por diferentes circunstâncias, deixou desaparecer. A história da Torre Eiffel da Rua do Ouvidor é também a história de uma cidade que, diante da possibilidade de preservar um de seus mais expressivos símbolos urbanos, não conseguiu — ou não quis — fazê-lo.

O edifício que durante décadas marcou a paisagem, o comércio e a memória afetiva do centro carioca foi demolido em 1967, apesar dos alertas de Rubem Braga, da mobilização de órgãos de patrimônio e da atuação de nomes como Lúcio Costa. O que aconteceu com a Torre Eiffel revela, assim, muito mais do que a perda de uma construção: expõe as fragilidades de uma política de preservação que, entre interesses imobiliários, disputas institucionais e hesitações administrativas, permitiu que uma parte insubstituível da história do Rio fosse reduzida a escombros.

Urbe CaRioca

A batalha que o patrimônio carioca perdeu: a destruição da Torre Eiffel da Rua do Ouvidor

Rubem Braga alertou a cidade, o órgão estadual de patrimônio defendeu o tombamento e conselheiros do IPHAN liderados por Lúcio Costa chegaram a votar pela proteção imediata. Entre a venda do imóvel, acusações políticas, hesitações burocráticas e a falta de coordenação entre os governos, o Rio perdeu em 1967 um de seus maiores palácios comerciais — o histórico magazine A Torre Eiffel

Bruna Castro – Diário do Rio

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A fachada principal do palácio da Torre Eiffel, na Rua do Ouvidor 97–99 — Projeto do engenheiro C. Arno Gierth, inaugurado em 1905, o edifício tornou-se um dos marcos do comércio carioca e permaneceu ligado à imagem da loja por mais de seis décadas – Acervo: Biblioteca Nacional

Na Rua do Ouvidor, a ausência tem um endereço preciso: o número 97. A via continua estreita o suficiente para que as vozes das lojas atravessem de uma calçada à outra, para que o cheiro do café se misture ao de mercadorias recém-abertas e para que o pedestre ainda possa observar, sem levantar muito a cabeça, as marcas deixadas por três séculos de comércio. No lugar em que funcionou a Torre Eiffel, porém, há hoje um edifício de escritórios de fachada comum, com alumínio, vidro e uma portaria revestida de mármore claro, incapaz de oferecer ao passante qualquer indício do palácio que ocupou aquele lote até 1967.

A comparação com as fotografias antigas é quase cruel. Projetada pelo engenheiro C. Arno Gierth e inaugurada em 1905, a sede da Torre Eiffel tinha fachada eclética, interiores de inspiração art nouveau, galerias superpostas, colunas de ferro fundido, escadaria de mármore, claraboia, vitrais e extensas armações de madeira escura. Era um exemplo carioca da chamada arquitetura dos magasins, concebida não apenas para abrigar o comércio, mas para transformar o próprio ato de comprar em espetáculo. Diante de suas vitrines passavam senhores de chapéu, mulheres acompanhadas dos filhos, caixeiros, jornalistas e funcionários públicos, numa época em que a Rua do Ouvidor ainda servia de passarela, salão de visitas e grande vitrine da capital.

Mais de seis décadas depois da inauguração, aquele edifício já não era apenas a sede de uma casa de roupas. A Torre Eiffel havia se tornado uma referência urbana e sentimental. Sua arquitetura identificava um trecho da Ouvidor e carregava a lembrança de uma época em que os grandes magazines disputavam fregueses com fachadas ornamentadas, anúncios em página inteira, liquidações que provocavam romarias e vitrines compostas como cenários. O prédio contava a história da formação do comércio moderno do Rio tanto quanto uma estação ferroviária conta a história dos transportes ou uma antiga fábrica explica a industrialização de um bairro.

A propriedade do imóvel, entretanto, já estava separada da empresa que ali funcionava. A Torre Eiffel era inquilina dos números 97–99. O prédio pertencia ao homem lembrado nas fontes apenas como “Silveirinha”, que decidiu vendê-lo a um interessado na demolição e no aproveitamento imobiliário do terreno. A marca, o estoque, os empregados e a freguesia pertenciam ao estabelecimento; a decisão final sobre a construção estava nas mãos do proprietário. Essa distinção é fundamental: a Torre Eiffel não estava falindo nem pretendia voluntariamente abandonar o palácio que se confundia com sua identidade. Perdeu a sede porque ocupava como locatária um imóvel vendido para ser substituído por outro empreendimento. O depoimento de Olínio Gomes Paschoal Coelho, um dos personagens da batalha patrimonial, distingue expressamente o proprietário do prédio do inquilino comercial.

Em setembro de 1966, a ameaça já havia saído dos escritórios e chegado aos jornais. No dia 3 daquele mês, Rubem Braga publicou no Diário de Notícias a crônica A Casa Torre Eiffel. Não era apenas a lamentação de um escritor afeiçoado ao Rio antigo. Braga compreendeu com clareza o que estava em jogo e escreveu que a casa “está para ser derrubada”, observando que somente o tombamento estadual poderia impedir sua destruição. Para o cronista, tratava-se ao mesmo tempo de um monumento artístico e histórico, um exemplar singular de art nouveau e um documento da vida carioca. O texto integra hoje o acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, datado precisamente de 3 de setembro de 1966.

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